PALAVRA DE PALHAƇO

Ser ou Ter

Onde nos leva a corrida maluca por ter, consumir, possuir?


Por:Enano Torres

2017-12-11
Nunca nos deveria faltar tempo para explorar o nosso mundo interior

Dezembro de 2017, existem duas coisas espantosas, um sol parecido a épocas de Verão e inaugurações em múltiplos lugares das Arvores de Natal. O que se refere ao primeiro facto podemos começar desde já a poupar água, sugerindo que a Câmara de Odemira alerte a população deste facto que irá infelizmente aumentar com o decorrer do tempo; Sobre a indolência natalícia adoraria isolar-me momentaneamente da voracidade consumista que se prolonga até aos Reis Magos.

 

Onde nos leva a corrida maluca por ter, consumir, possuir?

 

Será possível que existam pessoas que se sintam felizes a aumentar o seu horário laboral para conseguir um novo modelo de carro? Ou que um jovem que prejudica os seus estudos para realizar trabalhos temporários e assim poder comprar seu último Iphone ou a última peça de roupa de marca, feita seguramente por crianças exploradas em algum país precário? Ou que alguém que tenha de suportar onze meses o chefe para conseguir um mês de ferias e ainda por cima repartidas, consiga descansar?

 

É possível viajar para dez cidades diferentes em dez aviões diferentes, ter cinco relógios, três carros, quatro “telelés”, até comer seis vezes ao dia, se fosse preciso, comida de diferentes países? A sede de ter, a ganância, deve ter um limite e seria melhor encontrá-lo antes que a cobiça acabe com o melhor de nós.

 

A intenção deste artigo é tentar explicar a falta de visão de muitas pessoas à minha volta que dedicam a vida inteira - tão breve, já agora - a amontoar uma grande fortuna, a ter e não a ser, esquecendo que esta última condição é a melhor de todas as riquezas.

 

Tanto tens, tanto vales, dito por alguém para a eternidade. Se eu sou o que tenho, e o que tenho se perde, quem sou realmente? Se eu não tenho nada. Não sou ninguém? Ao estar consciente de que posso perder o que tenho é claro que vivo continuamente agoniado.

 

Preocupado, absorvido pela angústia de perder o que sou, de perder o meu dinheiro, os meus bens, os meus veículos, os meus reconhecimento e “status” social.

 

E onde fica o meu mundo interior, o meu ser? Eu não valho pelo que tenho mas pelo que sou.

 

Como posso perder o que possuo, tenho medo dos ladrões, das revoluções, dos presidentes fascistas, da concorrência, das mudanças económicas, das alterações climáticas, da doença, da morte, do desconhecido. Consequentemente, torno-me temeroso, desconfiado, fechado, duro, solitário, impulsionado pela necessidade de ter mais para estar melhor protegido sem reparar que quanto mais tenho mais afastado estou de mim mesmo.

 

As minhas posses afastam-me de mim e por isso eu não sou eu mesmo, sou essencialmente um conjunto de bens materiais até ao fim dos meus dias, sem saber, sem ter descoberto, os imensos valores e potencialidades que existem no meu interior.

 

Acabo meus dias sem ter sequer aprendido a procura dentro de mim de tantos outros valores que se calhar teriam atribuído muito mais felicidade que o dinheiro, se é que o dinheiro serve para comprar felicidade.

 

A verdadeira riqueza não implica a coleção compulsiva de bens, senão o descobrimento da nossa verdadeira personalidade, dos nossos autênticos apetites, qualidades e faculdades, da nossa vocação e identidade. Uma descoberta interessante afastada pela luta descontrolada pelo reconhecimento através do poderoso cavaleiro: Dom Dinheiro.

 

Nunca nos deveria faltar tempo para explorar o nosso mundo interior, entender o nosso complexo ser e justificar a nossa existência, afastando-nos do hedonismo radical, da frivolidade do prazer a qualquer preço, a qualquer custo.

 

por Enano Torres