SOCIEDADE

Odemira reivindica forno crematório junto ao cemitério

Petição online conta já com 366 assinaturas

2017-12-11
O número de crematórios tem aumentado no país

Perto de quatro centenas de pessoas assinaram uma petição na Internet para pedir a instalação de um forno crematório junto ao cemitério de Odemira. Mas o número final de peticionários poderá vir a ser muito superior, uma vez que circulam já por vários sítios do concelho, e até em Castro Verde, versões em papel para quem mexe pouco na Internet e quer assinar por baixo no documento que defende esta pretensão.

 

Fernando Fialho é o autor da petição e conta ao MERCÚRIO que a ideia começou a ganhar forma depois do falecimento do seu amigo Joaquim Maurício da Conceição Rosa, presidente da Junta de Freguesia de Vale de Santiago entre 1985 e 2001. “O Maurício desejava ser cremado após a sua morte, mas em Ferreira do Alentejo a lista de espera era de cinco dias e havia sempre o risco de alguém passar à frente se fosse daquela localidade, pelo que o funeral acabou por ser no crematório da Quinta do Conde, no concelho de Sesimbra, impossibilitando que muitos amigos fizessem uma viagem tão longa para lhe prestar uma última homenagem”. O crematório de Ferreira do Alentejo fica a uma hora e um quarto de carro de Odemira, enquanto o da Quinta do Conde fica a pouco mais de duas horas.

 

No dia 11 de Novembro, Fernando Fialho decidiu colocar uma mensagem no Facebook para perceber qual o sentimento das pessoas acerca da sua reivindicação. “Em pouco tempo apareceram mais de três centenas de gostos e dezenas de comentários e partilhas, percebi que era tempo de avançar com uma petição”, relata.

 

No texto da petição, publicado na Internet (o endereço é http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT87450), podem ler-se os seguintes argumentos a favor da iniciativa: “vantagens urbanísticas que mitigam a necessidade constante de ampliar os cemitérios; despenalização da cremação por parte da Igreja Católica Apostólica Romana; aumento da procura da cremação ao longo dos anos, a nível nacional; instalações preexistentes no cemitério de Odemira que complementariam este projecto, com menos encargo financeiro”. Outro dos argumentos invocados é o de Ferreira do Alentejo dar prioridade aos funerais dos seus conterrâneos, situação que cria listas de espera que podem durar dias.

 

O documento contava, à hora de fecho de edição, com 366 assinaturas na Internet. A estas juntar-se-ão mais algumas centenas, uma vez que cópias do documento em papel foram levadas por amigos de Fernando Fialho para diversas localidades, incluindo Odemira (Café Central e Ervanária), Relíquias, Milfontes, Colos, Longueira, Cercal do Alentejo, São Luís, São Martinho das Amoreiras, Cavaleiro e Sabóia. O responsável pela petição adianta que os habitantes de Castro Verde veriam com bons olhos a existência de mais um crematório na região.

 

A contagem final será feita em meados de Dezembro, altura em que Fernando Fialho tenciona apresentar o documento em sessão pública de Câmara. Apesar de já ter sido vereador da Câmara Municipal de Odemira, eleito pela CDU, Fialho afasta qualquer assinatura ou conotação política da iniciativa. “Não se trata de uma iniciativa da CDU ou partidária, é uma iniciativa minha e que conta já com assinaturas e apoio de todos os quadrantes políticos, é uma questão transversal e todos serão convidados a estarem presentes na sessão de câmara”, esclarece. 

 

Na altura em que foi vereador, afirma ter proposto a ampliação do cemitério com um crematório. “Foi por volta de 2004 ou 2005 e na altura a mentalidade portuguesa em relação ao tema era diferente, eu era da oposição, factores que contribuíram certamente para o chumbo da proposta, ainda não era vista como uma questão pertinente”, lembra.

 

Entretanto, mudaram-se os tempos e também as vontades em relação à cremação. E a questão tornou-se pertinente. Dados colectados pelo jornal Expresso junto da Servilusa em Fevereiro último mostram que “há dez anos, foram cremados no país menos de sete mil cadáveres, o que correspondia a 6,6 por cento dos óbitos”, número que subiu para 17 mil (16 por cento dos óbitos). Ainda assim muito longe de países como o Reino Unido, a Suécia ou a Dinamarca, que têm taxas de cremação acima dos 75 por cento.

 

Também o número de crematórios tem aumentado. Refere a mesma fonte que “em 1991, havia um único, no cemitério do Alto de São João, em Lisboa; há uma década eram quatro (dois na capital, um no Porto e outro em Ferreira do Alentejo); hoje são 24 (21 no continente, dois na Madeira e um nos Açores)”.

 

Fernando Fialho acredita que a crise tem impulsionado esta mudança de mentalidade. As taxas de cremação são, em média, mais caras do que colocar um cadáver em sepultura. Mas, a longo prazo, há outros custos, tais como a colocação da lápide, a limpeza e a manutenção. Tarefas que, no entender do peticionário, os mais idosos dos tempos que correm querem livrar os filhos de fazer. “Muitos idosos querem libertar os filhos dessas tarefas e do controlo social que há ainda nas aldeias, especialmente no Dia de Finados, em ver que campas estão limpas e quais as que estão abandonadas”, explica. “Muitos destes idosos têm filhos que vivem longe, foram embora para as cidades há muitos anos, sabem que os filhos ficarão impossibilitados de realizar essas tarefas”, acrescenta.

 

Entretanto tornou-se pública a notícia que o Algarve vai ter o seu primeiro forno crematório. Uma empresa funerária irá pagar a obra em Albufeira, no valor de 600 mil euros. Em contrapartida, fica com a concessão das cremações durante 30 anos. Fernando Fialho já reagiu: “é a prova que se não for feito em Odemira, algum concelho vizinho o fará”.

 

 

por Ricardo Vilhena (não usa AO)