OPINIÃO PÚBLICA

O Nosso Parque Natural

Há que mudar


Por:Fernando Almeida

2017-12-11
E será impossível conciliar a proteção da terra em que vivemos com o desenvolvimento das atividades económicas, como alguns pensam? Eu garanto-vos que não

Embora eu nos idos anos oitenta do século passado, quando se criou a Área de Paisagem Protegida do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, vivesse em Lisboa e trabalhasse na Quercus (ou talvez mesmo por isso) fui-me apercebendo da lógica quase colonial com que a gente de poder da capital decidia a vida dos da “província”. Muitos, cheios de razão, se queixam disso ainda hoje: as normas mais diversas são pensadas para a vida urbana e cosmopolita de Lisboa, e em seguida impostas a todo o país. É um certo centralismo histórico ancestral, combinado com o autoritarismo elitista que sempre desprezou o povo, ao qual nem o poder dos concelhos conseguiu resistir solidamente: a partir de certa altura o velho ditado transmontano que dizia que “para cá do Marão mandam os que cá estão”, deixou mesmo de ser verdadeiro. Esse esmagamento dos poderes locais antecipou-se ao desenvolvimento das estradas e telefones, e quando menos os povos das aldeias esperavam, antes da eletricidade, da escola e do posto médico, chegaram as imposições do poder central.

 

Essa lógica quase “colonial” que preside à relação do poder central com as regiões periféricas do país condiciona a forma de ver dos que decidem. Para muitos deles o campo está povoado de ignorantes analfabetos, agricultores atrasados, e demais gente incapaz de evolução se não lhes for imposta a “luz” civilizadora da intelectualidade urbana. Está bom de ver que esta maneira de pensar tende a fazer tábua rasa dos valores, dos princípios, da cultura, dos interesses e ambições dos povos das diversas regiões do país. Está bom de ver também que as normas vindas do estado central tendem a ser impostas aos do campo, parecendo a estes o que na verdade são: imposições exógenas, muitas vezes desajustadas do pensamento dos povos, imposições essas que são renitentemente cumpridas e dificilmente compreendidas e aceites. Instituições como o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina nasceram sofrendo desse pecado original, o que desde sempre condicionou a sua aceitação na comunidade.

 

De facto ainda hoje o Parque Natural continua a ser visto por grande parte de nós como algo estranho, que não é nosso, que não serve para melhorar o nosso futuro. Alguns de nós acham que nada de significativamente bom nos deu, e que, pelo contrário, nos criou um conjunto inaceitável de condicionamentos e proibições. Em resumo, para muitos, viver dentro do território do Parque Natural é mau, e seria preferível que ele não existisse. 

 

Ora esta relação entre o Parque e a população é precisamente oposta à que deveria existir. Viver dentro de uma área protegida deveria ser para os residentes uma mais-valia invejável, por lhes trazer vantagens objetivas e subjetivas. Os que moram fora deveriam estar a pedir o alargamento do Parque Natural para que pudessem também eles ter o privilégio de lá viver. Contudo nada disto acontece, e há mesmo quem não disfarce o desejo de ver o Parque Natural desaparecer. 

 

A vida ensina-nos que às vezes as coisas não nos correm bem, e que nesse caso teremos simplesmente que corrigir o que está mal, e seguir em frente. Passa-se isto com o nosso Parque Natural. Temos simplesmente que corrigir o que está mal, melhorá-lo de modo que sirva as nossas necessidades e as dos nossos filhos e netos, usando-o como aquilo que ele realmente tem que ser: um verdadeiro instrumento ao serviço do desenvolvimento sustentável da nossa terra, que permita criar trabalho e riqueza para que a nossa gente não tenha que continuar a emigrar, mas também para que possamos viver num ambiente saudável, com água não contaminada que se possa beber, com solos não degradados pela erosão nem pelo abuso de químicos agrícolas, protegendo e melhorando a nossa fauna e flora naturais… E que tudo isso atraia turistas nacionais e estrangeiros, que eles nos venham visitar (até porque nós sabemos receber como ninguém), mas respeitando-nos enquanto povo velho e sábio que somos, e sabendo eles que a terra que pisam é de quem cá vive. 

 

E será impossível conciliar a proteção da terra em que vivemos com o desenvolvimento das atividades económicas, como alguns pensam? Eu garanto-vos que não, e que todos os caminhos diferentes deste, em que não se consiga conciliar a economia com a proteção da nossa terra, estarão necessariamente condenados ao insucesso. Mas muito há que mudar no Parque Natural e na nossa relação com ele. Antes do mais temos que sentir que o Parque é nosso, e temos que participar na revisão do seu Plano de Ordenamento, para que sirva os nossos interesses. E se o Parque tem que existir para nos proteger a nós e ao futuro dos nossos, nós próprios teremos que o acarinhar e o apoiar como instituição que existe para nos ajudar. 

 

Se esta terra é nossa, somos nós os maiores interessados em viver num ambiente saudável, puro e harmonioso. E queremos a nossa terra assim, não porque os de fora gostam de ver uma coisa tradicional, um museu vivo de gente a viver como os seus avós viviam. Nós não queremos viver como viviam os nossos avós, com a agricultura tradicional que punha as famílias na miséria a dividir uma sardinha por três. Nós queremos a agricultura mais moderna, a que se vai fazendo no mundo mais desenvolvido, com proteção integrada das culturas, com o uso mínimo de agroquímicos, com proteção à água, ao solo, ao ar e às pessoas que lá trabalham, uma agricultura o mais próximo possível da agricultura biológica, para que se possa ter prosperidade num ambiente saudável. E um Parque Natural, conforme o concebo, tem que ser um instrumento para esse desenvolvimento sustentável, e mesmo um exemplo pioneiro a seguir pelas áreas envolventes. O Parque Natural que desejo é aquele que os residentes o sintam como um bem seu e precioso, e não como algo imposto por gentes de fora. 

 

por Fernando Almeida