ENCONTREI EM ODEMIRA

O que nos reserva o futuro

37 anos, ceramista, professor de yoga, terapeuta de massagem ayurvédica, pai de três filhos


Por:Sara Serrão

2018-01-31
Este mês encontrei em Odemira Tiago Jesus

• Qual a sua ligação a este território?

 

Fui professor de educação visual e tecnológica durante onze anos nos arredores de Lisboa, de onde sou natural, e abandonei essa profissão por um misto de razões: eu cansei-me do peso e da densidade do sistema e ele mandou-me para fora. Quando este ciclo se fechou abriram-se portas para uma mudança e, desta ruptura até encontrar um novo enquadramento profissional, deu-se também a minha saída e da minha família da cidade para o campo. Tudo aconteceu de uma forma bastante intuitiva porque há muito tempo que sentíamos o chamamento para viver mais perto da natureza e o nosso sonho era viver num moinho ou numa escola primária antiga. Apareceu nessa altura uma casa na aldeia de Troviscais que nos interessou imediatamente, fizemos uma caminhada de três dias a partir de Santiago do Cacém, pela Rota Vicentina, para vir conhecer essa casa, que sentimos imediatamente como nossa. Iniciámos todo o processo para nos desligarmos do que tínhamos, para mudar de vida, e cá estamos há três anos.

 

 

• O que tem esta terra de especial?

 

De forma abrangente, considero que este concelho é imensamente rico. Às vezes tenho dificuldade em verbalizar em que consiste essa riqueza mas posso enumerar: temos o mar, a praia, o rio, os ribeiros, os pegos, a serra, os campos, as hortas, os trilhos, as arribas, mas, acima de tudo, temos lugares ainda imensamente virgens. Adoro aquela sensação que tenho em Troviscais de que aquela paisagem está ali desde sempre, povoada por pessoas genuínas e acolhedoras. Temos ainda aldeias muito típicas, vilas com alma, onde é muito fácil chegarmos e sentirmo-nos bem. Existe sempre um lado menos bom em todas as situações e sinto que há muita gente, de cá e de fora, que não sabe ou não consegue valorizar o que existe aqui, mas para mim o balanço é muito positivo. É engraçado quando me cruzo aqui com “cidadãos do mundo”, que já viajaram pelos quatro cantos do planeta, que me dizem o quanto somos sortudos por vivermos no “paraíso da Europa”; é uma bênção quando, não havendo consciência de quanto esta terra é boa, vem alguém de fora para nos abrir os olhos e fazer apreciar o que temos. Claro que faltam muitas coisas que existem em abundância numa cidade, mas não são assim tão significativas e estão à distância de uma hora ou duas de carro. Em relação ao que esta terra tem de especial, falta ainda referir a óptima comida (as melhores batatas fritas que alguma vez comi!) e o ar puro - quando o vento não nos presenteia com os gases de Sines...

 

 

• O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?

 

O que mais me preocupa é sentir que, aos poucos, este “oásis” pode estar a sofrer alguns danos, com um aproveitamento massivo dos recursos naturais, sem consciência e sem pensar nos dias que ainda hão-de vir. Se formos a ver bem, é aqui que vivemos, é daqui que vem o que comemos e é aqui que respiramos e nos energizamos. A substituição da floresta autóctone por eucaliptais, a agricultura intensiva, o turismo de massas, são temas que me preocupam. Em relação ao turismo, tenho visto exemplos belíssimos de alojamentos com pequena ou média dimensão, com uma qualidade soberba, cheios de personalidade, mas sinto que no verão já se atropela muito esta fórmula saudável, sem respeito pelo próximo, pela natureza e pelo território. Preocupa-me também preservar as qualidades e encantos desta terra alentejana tal como ela é, as suas tradições, a sua identidade artística, cultural e natural. Já para não falar do potencial das crianças e adolescentes do concelho. Estando eu a criar uma família cá, penso que, em termos culturais e desportivos, Odemira consegue ter uma oferta de qualidade sobretudo na infância; sinto, no entanto, que existe um “fosso” na adolescência e que não existem respostas e mecanismos para envolver os jovens na comunidade. Participei nas Montras de São Luís e só nessa iniciativa é que conheci adolescentes dessa localidade, que se reuniram num grupo de voluntários e trabalharam diariamente na preparação das Montras, com empenho e alegria. Faltam, portanto, elementos agregadores para que estes jovens não andem por aí perdidos, ainda por cima tendo em conta que o concelho é vasto e a mobilidade é difícil; é deixar que o “coração” de Odemira se expanda pelo território, com pessoas qualificadas que façam coisas acontecer, que abram novos horizontes.

 

#encontreiemodemira

 

“Encontrei em Odemira...” é uma rubrica do Mercúrio, (humildemente) inspirada no blogue “Humans of New York”, que pretendia na sua origem ser um “catálogo” exaustivo dos habitantes de Nova Iorque, com pequenos apontamentos das suas vidas, e que acabou por se tornar um projecto vibrante, abrangendo dezenas de países, com milhões de seguidores nas redes sociais e inúmeras causas filantrópicas. À nossa escala, esta nova secção tem o objectivo único de mostrar aos leitores a diversidade humana que habita hoje em Odemira, entre autóctones que sempre aqui viveram, forasteiros que escolheram este território para viver e até mesmo aqueles que vieram aqui parar quase ao acaso. A cada mês vamos encontrar habitantes de Odemira e colocar-lhes três questões:

• Qual a sua ligação a este território?

• O que tem esta terra de especial?

• O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?

 

por Sara Serrão