PALAVRA DE PALHAÇO

Amor cão

Apenas tenho Saudades


Por:Enano Torres

2018-01-31
Quantos problemas poderiam ser resolvidos com o dinheiro gasto nos espetáculos pirotécnicos pelo mundo inteiro nas celebrações de passagem de Ano?

Chamo-me Cora. Sou uma cadela Galga como tantas outras que existem na Península Ibérica, especialmente em Espanha. Fui criada para caçar, com os meus 6 irmãos, pelo meu primeiro dono. Morávamos todos num lugar tão pequeno que para dormir tínhamos que ficar uns por cima dos outros. Apenas comíamos uma vez por dia, todos ao mesmo tempo, pelo que, por vezes, havia disputas entre nós para ver quem ficava com mais comida. Digamos que era uma repartição alimentar injusta; infelizmente eu quase sempre ficava com os restos.

 

Assim foi meu primeiro ano e meio de vida até que, numa manhã de inverno, umas pessoas que se intitulavam de resgatadores apareceram com a Polícia e fomos levados para uma associação de proteção de animais. Não ficámos com nenhumas saudades do nosso lugar de origem (Pamplona).

 

Fomos avaliados pelo veterinário desta organização de bem e diagnosticaram-nos maus tratos e desnutrição. Pelo que ouvi, o meu antigo dono foi denunciado e multado por estes factos.

 

No nosso novo refúgio (assim se chamava), que era partilhado com mais cães de diferentes raças, tínhamos mais espaço para correr. Em apenas dois meses ficámos muito jeitosos com todas as atenções diárias que nos davam estas boas pessoas - por acaso, reparei que a maioria delas eram mulheres. Comia duas vezes ao dia, numa tigela só para mim e introduziram um chip no meu corpo, ouvi que era para me localizarem caso me perdesse alguma vez!

 

Um dia de primavera fui adotada por um senhor que me viu começou a dar-me beijinhos como se já me conhecesse. Francamente não estava habituada a excessos de carinho. Levou-me a um novo lugar, um monte alentejano isolado onde tenho uma casota só para mim e um bom quintal para correr, pular, brincar; lá tenho novos companheiros a quem lhes chamam de gato, galinha, vaca e ovelha.

 

Foi lá que me começaram a chamar Cora. Tenho todos os mimos e atenções e até podia entrar dentro da casa do meu novo dono e mesmo subir para o sofá e até para a sua cama!

 

Quando “tá-se bem” num lugar diz-se que o tempo passa muito rápido e assim foi. Dizem que no Alentejo é tudo devagar mas este foi o ano mais rápido da minha vida. Fui muito à praia, onde corria livre mas também me habituei, quando era preciso, a andar de trela ou ficar no carro sem mijar.

 

O meu querido dono, no Natal, levou-me de viagem para a Andaluzia e no dia 24, à pala dum “petardo” (foguete) que explodiu perto de nós, sem dar conta fugi a correr sem destino pela Babilónia (cidade); é muito comum esta forma esquisita que tem o ser humano de comemorar, por tudo e por nada, quando menos esperamos lá estão os fogos-de-artifício e seu estrondoso barulho que tanto prejudica os bichinhos de estimação que possuem uma audição quatro vezes mais potente do que os humanos, pelo que é notável a traumática relação que temos, nós os cães, com os fogos-de-artifício.

 

Entramos em pânico! Fobia. Fugimos apavorados acabando perdidos ou atropelados. Os que estão presos (como ocorre muitas vezes no Alentejo) acabam enforcados nas próprias correntes ou coleiras. Um verdadeiro drama que, ano após ano, se repete e quase ninguém repara nem nada faz por mudar estes maus hábitos.

 

Ainda por cima o meu procurado dono sempre dizia: “- Quantos problemas poderiam ser resolvidos com o dinheiro gasto nos espetáculos pirotécnicos pelo mundo inteiro nas celebrações de passagem de Ano? Deviam era investir esse ‘guito’ em assuntos sociais e ambientais mais necessários para o Planeta”. Ele sempre dizia isso irritado.

 

Quantas vezes repetia: “- Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto de meu cão”.

 

Eu, Cora, ainda continuo viva. Passei a ser um cão vadio. Viver cada dia tornou-se uma celebração, uma sobrevivência. Por vezes, quando o “ser inhumano” me vê quer apanhar-me mas isso comigo é quase impossível pois agilidade não me falta para fugir, além de que sinto que cada humano deve levar um desses foguetes, no bolso, para comemorar se me apanharem.

 

Apenas tenho Saudades de meu último dono, o rapaz dos beijinhos, aquele que por vezes punha um nariz vermelho para me fazer rir.

 

Se alguma vez o virem, por favor digam que eu estou bem e retribuam com uma lambidela da Cora. Concordo com o que ele dizia e não entendo os de sua espécie e por isso o ideal é ir a melhores vidas.

 

Bom ano e poupem os fogos-de-artifício, se faz favor!

 

por Enano Torres