DE QUEM É O OLHAR

Alimentação - Uma abordagem em dois capítulos

Capítulo II


Por:Monika Dresing

David Vázquez - Unsplash
2018-01-31
Ao comprarmos produtos locais, regionais ou até nacionais podemos diminuir os impactos negativos da oferta global

Hoje em dia, quando se entra num supermercado, pode-se comprar (quase) tudo em qualquer estação do ano e a qualquer hora do dia. Alguém quer fazer uma tarte de morango em Dezembro, comer uvas em Janeiro, tomates em Fevereiro? Não há problema, as estantes estão sempre cheias com tudo e qualquer coisa. E mesmo os produtos que duram apenas um dia, tais como pão fresco, ervas frescas, etc., muitas vezes estão disponíveis em grande número até à hora de encerramento do estabelecimento para os clientes não verem estantes semivazias.

 

Mas quais são os custos globais desta oferta enorme que existe cá na Europa e nos outros países chamados ocidentais? Vale a pena olharmos para alguns aspectos.

 

- O problema dos transportes: Visto que a maior parte dos vegetais cresce em ciclos relacionados com os ciclos das estações do ano, é óbvio que muitos dos produtos, quando cá não crescem, têm que ser transportados para cá de outros pontos do mundo – maçãs da Nova Zelândia, uvas do Brasil, cerejas da África do Sul … e estes transportes causam naturalmente problemas ambientais desnecessários. Além disso, a maior parte destes produtos tem uma embalagem, portanto, também lixo desnecessário.

 

- O problema dos desperdícios: Depois de uma viagem prolongada, uma parte dos produtos chega ao destino já em mau estado e tem que ser jogada para o lixo. Outra parte, que vai para as estantes sempre cheias mas que não seja vendida, tem que ser tirada de lá e acaba também no lixo. Estudos mostram que as grandes superfícies produzem 500 a 600 toneladas deste tipo de lixo por ano. Num supermercado “normal” a quantidade diária ronda os 45 quilos. E os desperdícios não se limitam apenas aos próprios produtos, referem-se a todos os recursos, à mão-de-obra, ao gasóleo, ao trabalho das máquinas e dos meios de transporte, etc. Todos os anos, na UE, são jogadas para o lixo 90 milhões toneladas de alimentos. Postos em camiões, podia formar-se um comboio que conseguia dar a volta ao equador. Com os alimentos que jogamos para o lixo na Europa e na América do Norte todas as pessoas famintas em todo o mundo poderiam ficar satisfeitas – três vezes.

 

- O problema do metano: Outro ponto importante ligado ao lixo orgânico é o gás metano que surge na decomposição do lixo vegetal nas lixeiras. Este gás é 25 vezes mais prejudicial para o ambiente do que o CO2. 15 % da produção global de metano têm a sua origem na decomposição de material orgânico. Uma diminuição para metade dos desperdícios alimentares teria o mesmo efeito como a redução do número de automóveis para metade.

 

- O problema de estandardização: Para se facilitar o transporte, o armazenamento e a colocação nas estantes, os distribuidores exigem produtos estandardizados. As regras e leis estabelecidas na UE, p.ex., fazem-se por pressão dos lobistas da indústria agrícola e dos distribuidores. Assim surgem leis tão ridículas como a dos pepinos não curvados, leis que não são do interesse do próprio agricultor nem do consumidor. Os critérios de qualidade são determinados pelo comércio, são critérios exteriores que não correspondem necessariamente aos critérios de qualidade alimentar. Também a estandardização e os critérios de selecção, tais como o aspecto e o tamanho, levam a mais lixo. No caso das batatas são 40 a 50 % que não correspondem à “qualidade” exigida.

 

- Os problemas sociais e ambientais nos países pobres: As quantidades enormes de alimentos que chegam aos nossos supermercados só podem ser produzidas industrialmente, por grandes empresas internacionais e em áreas gigantescas. Estas áreas encontram-se muitas vezes em países subdesenvolvidos. São áreas que antes eram selvas ou áreas que pertenciam a pequenos agricultores mas que nunca foram registadas em nome deles. Assim, os agricultores são facilmente expropriados, ficando sem a possibilidade de ganhar a vida e alimentar a população regional.

 

Conclusão: Ao comprarmos produtos locais, regionais ou até nacionais podemos diminuir estes impactos negativos. E mais ainda: O dinheiro gasto continua a circular cá, na localidade, na região ou no país.

 

 

por Monika Dresing