LEITE

Pronk & Derks, Lda.

Leite muuuuito bom!

2018-01-31
O MERCÚRIO foi visitar as instalações da vacaria Pronk & Derks, Lda.. Martine Pronk fez as honras da casa

Quando a família Pronk veio para Portugal em 1998 já tinha algum conhecimento do negócio da pecuária antes de se instalar na Herdade a-de-Mateus, na Freguesia de Almograve, Odemira. O MERCÚRIO foi visitar as instalações da vacaria Pronk & Derks, Lda.. Martine Pronk fez as honras da casa.

 

 

A IDEIA

 

Martine e Jos são de Brabant (sul da Holanda), uma região de agricultura intensiva onde existem muitas suiniculturas e bovinoculturas. Tanto Martine como Jos são ambos filhos de bovinocultores, por isso, lidar com vacarias foi algo que surgiu naturalmente.

 

Jos é formado em agronomia e no ano de 1993, já casado com Martine, herdou o negócio do pai: uma pequena exploração com cerca de 12 hectares, 30 vacas e alguns porcos.

 

Martine formou-se em enfermagem. Exerceu a profissão durante quinze anos. “Quando casámos ainda trabalhava no hospital mas quando decidimos vender a vacaria na Holanda larguei a enfermagem”, conta Martine, continuando, “estava tudo velho e era quase impossível rentabilizar o negócio”.

 

Numa visita de jovens agricultores holandeses, Martine e Jos visitaram a Dinamarca, a França e até o Canadá. “Foi quando começámos a pensar vender o negócio na Holanda mas não queríamos sair da Europa”, diz.

 

“Quem descobriu Portugal, por nós, foi o nosso contabilista holandês (risos) que nos aconselhou a investir aqui. Na altura, pensávamos que Portugal não era um país para trabalhar mas um país para fazer férias”.

 

Jos foi conhecer algumas vacarias em Évora, na zona de Lisboa e a sua última visita foi no concelho de Odemira. Martine não pode participar nessa viagem porque a febre suína na Holanda “estava a lançar o caos na exploração” e era preciso controlar a atividade. De qualquer maneira Martine confiava em Jos: “se ele gostasse eu iria visitar o lugar, se não, não iria”.

 

Jos ainda se encantou pelos pastos da zona de Évora mas o investimento nos estábulos, devido ao isolamento contra o calor, teria de ser elevado. Odemira foi a área eleita pela sua beleza, a proximidade do mar, o clima e a abundância de água e a possibilidade de se poder iniciar o negócio com um pouco de menos investimento.

 

O casal regressou ao concelho de Odemira com vista a comprar uma propriedade onde pudessem instalar a futura vacaria. Martine estava um pouco receosa em mudar-se com os seus filhos para um lugar que lhe parecia o “fim do mundo” mas a sua opinião mudou quando chegou à Boavista. “De qualquer maneira isso foi em 1998 e desde aí as coisas alteraram-se muito, não é?”.

 

 

A VINDA

 

A Herdade a-de-Mateus estava à venda. 60 hectares de terreno, de fácil acesso, em área do Perímetro de Rega do Mira, onde a água abunda para o regadio do pasto e para dar de beber às vacas.

 

Segundo Martine, compensou vender o que tinham na Holanda e comprar uma propriedade em Portugal. “Agora, que os terrenos já estão mais caros, dizemos que poderia ter sido melhor termos comprado mais área mas na altura não tínhamos dinheiro para isso”.

 

Martine, Jos e os seus três filhos, mudaram-se para Portugal no ano de 1998. Instalaram-se numa caravana num canto da propriedade, construíram uma sala de ordenha provisória e meteram mãos à obra. Eram ali ordenhadas cerca de 50 vacas.

 

Entretanto nasceu a quarta filha. Viveram os seis num espaço de quarenta metros quadrados durante quatro anos. “Fizemos uma casinha de madeira para pôr a máquina da roupa e essas coisas - foi um grande contraste”, diz Martine lembrando que na Holanda moravam numa casa grande mesmo em frente da sala da ordenha.

 

A licença para os armazéns estava pedida mas levou mais tempo do que o esperado. Em maio de 1999, a sala de ordenha definitiva ficou pronta.

 

 

A ESTRUTURA

 

Neste momento a Pronk & Derks tem 24 postos de ordenha. O conjunto das propriedades tem um total de cerca de 150 hectares. Martine e Jos têm também uma unidade de turismo em rural na freguesia de S. Luís.

 

Ao todo são oito pessoas, contando com o casal Pronk, para cuidar tudo isto.

 

“Este tipo de produção não precisa de muita mão-de-obra mas mesmo assim nós trabalhamos muito, é verdade”, informa Martine. Comparando com o seu trabalho na Holanda, onde trabalhava num hospital, por turnos, Martine, que andava sempre exausta, revela que apesar da quantidade de trabalho não se cansa muito. “Tenho uma vida muito saudável, levanto-me cedo, começo a trabalhar às cinco, à uma da tarde durmo uma sesta, às três recomeço e às dez/dez e meia vou dormir”, explica.

 

É na ordenha onde são necessárias mais pessoas. Martine e Jos começam a trabalhar na vacaria, todos os dias, às cinco da manhã para a primeira ordenha. Depois, às sete e meia, chegam os seus colaboradores que continuam com esse trabalho. De seguida limpam a sala, cuidam dos vitelos, fazem novas camas e cuidam do terreno.

 

Segundo Martine a vacaria não é ‘hi-tech’. “Há vacarias em Portugal e no norte da Europa com muito mais tecnologia daquela que nós temos aqui mas o meu marido preferiu fazer um sistema simples para que as ordenhas sejam feitas aconteça o que acontecer”, esclarece, “se por algum acaso há um problema técnico que não conseguimos nós próprios resolver, vamos ter grandes sarilhos porque se as vacas só forem ordenhadas uma vez no dia, a maioria vai ter ‘mamite’ (inchaço e inflamação do úbere - mama das vacas - que apresenta o leite de cor mais amarelada, com flocos ou coágulos), porque elas não aguentam o leite no úbere”.

 

Na herdade Monte Carrasqueira do Meio, onde pastam as novilhas, está mais um casal que cuida do campo e dos animais. Na unidade de turismo rural trabalham Martine e mais uma pessoa.

 

O casal Pronk só folga aos domingos e durante as suas férias o pessoal “toma conta do assunto”. “Tentamos ir nos períodos mais calmos e vamos só uma ou duas semanas”.

 

 

AS LICENÇAS

 

Todas as empresas pecuárias têm de ter licenciamento do REAP (Regime de Exercício da Atividade Pecuária - Regime jurídico que regula o exercício e o licenciamento da atividade pecuária). A exploração dos Pronk encontrava-se com cerca de cem animais a mais, como consequência, neste momento está a ser realizado um estudo de impacto ambiental (EIA). “Para nós não seria difícil de vender os animais a mais e ficar apenas com aqueles que podemos ter mas isso não foi aceite”, relata Martine, “um único dia com um animal a mais implica um estudo de impacto ambiental e se nós soubéssemos dessa lei nunca teríamos aumentado o número de cabeças”.

 

A razão da acumulação de animais na exploração prende-se com o mercado - “Ontem vendemos um vitelo de três semanas por setenta euros” – e vender a baixo custo um vitelo de boa genética não compensa. “Por isso, quando as fêmeas eram mais ou menos boas iam ficando por cá”. Martine acha que é útil e bom para a sua marca fazer-se um EIA, “mas custa bastante dinheiro e vamos ver se a DRAP (Direção Regional de Agricultura e Pescas) aceita o resultado”.

 

No decorrer do EIA tiveram de ser realizadas algumas alterações como a colocação de uma placa em betão para o depósito de estrume. “Temos também de ter licenças não só da câmara como de mais entidades com as burocracias de cada uma e a ‘bola rola’ e isto não se vai resolver tão cedo”, pressupõe.

 

 

AS VACAS

 

A Pronk & Derks, trabalha com vacas de raça Holstein Frísia, uma das raças com maior aptidão leiteira.

 

Uma vaca pode ter uma cria ao fim de dois anos e pouco de vida – engravida com um ano e uns meses e tem uma gestação de nove meses. A partir daí começa a produzir leite. “Se uma vaca não tem vitelos nunca vai dar leite e se não tiver um vitelo a cada dois anos (mais ou menos) o leite vai secar”, diz Martine, “as nossas vacas têm, em média um vitelo a cada ano e três meses. Aqui fazemos inseminação artificial mas na outra propriedade, onde estão os novilhos, temos lá dois touros”.

 

A esperança de vida de uma vaca Holstein Frísia desde que nasce até que vai para abate é de cinco a dez anos. Na Pronk & Derks uma vaca tem em média quatro crias durante a sua vida.

 

Para Martine, o clima, o tipo de solo e o perfil do terreno são “cinco estrelas” para as vacas. “Elas caminham bastante e por isso estão sempre em boas condições físicas, daí raramente precisarem de ajuda nos partos, só quando os vitelos estão virados ao contrários ou no caso de gémeos, de resto fazem-no naturalmente, assim usamos muito menos medicamentos”.

 

Quando os vitelos nascem são retirados das suas mães mas não de imediato. A sua separação é feita de forma suave. As vacas são ordenhadas e os vitelos alimentados com o leite da mãe durante algum tempo.

 

“Aqui não temos estrume suficiente para fertilizar o nosso terreno todo nalgumas épocas do ano e, quando o milho está alto e não conseguimos espalhá-lo, damos adubo com o pivot (sistema de rega mecanizada) e é por isso nós não produzimos biológico”, esclarece Martine, “se não pudéssemos usar adubos ‘morreríamos à fome’ porque os solos aqui são mesmo muito pobres. Usamos o mínimo necessário porque, para além do controle apertado, os adubos são muito caros”.

 

As vacas da Pronk & Derks estão sempre no campo, normalmente a pastar mas também comem ração.

 

A cooperação entre os sete produtores de bovinos do concelho é “saudável”. “Quando numa das pequenas explorações que têm criação de Limousine morre uma vaca que deixou um bezerro para mamar, nós vendemos uma das nossas vacas com leite para alimentá-lo”, exemplifica Martine.

 

 

A ORDENHA

 

Em média são ordenhados cerca de trinta litros de leite por vaca, por dia. “Temos vacas que dão dez ou doze litros e outras que chegam a atingir os cinquenta”.

 

De um total de 380 vacas, cerca de 50 estão ‘secas’ e cerca de 330 são ordenhadas. As ordenhas fazem-se duas vezes por dia (há quem faça três e as quintas mecanizadas com robots, chegam a fazer quatro), uma logo pela manhã e outra às quatro da tarde. Cada ‘sessão’ demora, na totalidade, três horas e meia. “Todos os dias do ano porque as vacas não têm Natal”, esclarece Martine.

 

As ordenhas são feitas por livre vontade das vacas, isto é, os animais estão no campo e quando sentem necessidade, deslocam-se à sala de ordenha.

 

As vacas não gostam que lhes mudem os horários. Por isso quando muda a hora na primavera ou no inverno, a vida na vacaria tora-se mais complicada. “Elas continuam com o seu horário de inverno e às cinco ainda dormem. De início somos nós que temos de nos adaptar e aos poucos vamos acertando os horários delas com os nossos”.

 

Normalmente, quando as vacas que já não produzem a quantidade e a qualidade de leite desejável vão sendo substituídas pelas novilhas porque as vacas com a idade vão produzindo mais células somáticas e podem ter maiores problemas de saúde. “São vendidas para abate, se não é deitar dinheiro fora”.

 

 

O LEITE

 

A Pronk & Derks, Lda. é membro da Associação Portuguesa de Criadores de raça Frísia, também conhecida por raça Turina.

 

Todos os dias são produzidos dez mil litros de leite. Cinco mil de manhã e cinco mil à tarde.

 

Todos os meses é realizado um contraste. Para isso é tirada uma amostra de leite, de todos os animais em ordenha, que é analisada. “Assim sabemos a qualidade do leite de cada animal, se tem células somáticas a mais, se a gordura está equilibrada ou se os níveis de proteína estão corretos”, informa Martine.

 

“As células somáticas são células que se encontram no leite com origem na vaca. Há sempre um número de células somáticas presentes mas um aumento significativo dessas células está sempre associado a uma infeção” (Rui Cepeda – Médico Veterinário, no site da Associação Agrícola de São Miguel).

 

Os procedimentos são muito controlados. Também a fábrica compradora do leite recolhe uma amostra do carregamento para análise. “Se por acaso tivermos algum lapso e ordenharmos uma vaca que tenha mamite e estiver a ser tratada com antibiótico e esse leite for para dentro do tanque e contaminar o lote, temos de pagar todo esse lote e o transporte”, explica Martine, “é tudo muito rigoroso, só podemos enviar leite limpo, leite puro. Em Portugal, em toda a Europa, ninguém bebe leite com antibiótico”.

 

As vacas que por acaso tenham alguma restrição, são marcadas com uma fita de cor nas patas e uma coleira com um chip. Assim, quando entram na sala de ordenha são ordenhadas à parte e o seu leite ou vai para uma fossa ou tratando-se de células somáticas excessivas é enviado para a pasteurização e depois é dado aos vitelos.

 

O mesmo controlo se passa com os vitelos e as vacas que vão para abate. “E ainda bem”, diz Martine.

 

O casal Pronk chegou a ponderar a possibilidade de produzir leite biológico. “Mas o mercado ainda é pequeno em Portugal, a produção é mais cara e as pessoas ainda não estão disponíveis para pagar o preço justo. Não é fácil”. Neste momento Martine mantém contacto a fábrica Parmalat para embalar à parte o leite das vacas que andam o ano inteiro na pastagem na zona de Odemira “Com a marca ‘Leite do Mira’, mais saudável!!”, diz.

 

 

OS MITOS

 

Ultimamente muito se tem falado acerca da intolerância à lactose, causada principalmente quando o organismo não produz suficiente lactase (enzima que transforma a lactose em glicose para ser absorvida pelo intestino), que tem como principais sintomas a diarreia, náuseas, flatulência, desconforto ou inchaço abdominal.

 

A lactose é o açúcar presente no leite (e só do leite e seus derivados porque é produzida nas glândulas mamárias dos mamíferos). Trata-se do seu único hidrato de carbono. O leite humano contém cerca de 7,2% de lactose e o leite de vaca 4,7%. Segundo a Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, cerca de um terço da população portuguesa é intolerante à lactose.

 

“Claro que há pessoas que não toleram a lactose como há outras que não toleram outras substâncias. Também se diz que o leite de vaca é para alimentar vitelos e não crianças mas ninguém aconselha ninguém a beber dois litros de leite por dia mas sim um copo ou dois”, sublinha Martine. “Os nossos filhos mamaram até ao ano de idade e depois disso sempre beberam leite das nossas vacas, cru. O leite não é a causa de todos os males, os alimentos processados são menos naturais e têm aditivos que podem fazer mal ao nosso organismo porque passam por processos que retiram as coisas boas dos alimentos”, remata.

 

Para Martine as produtoras de leite não têm tanto dinheiro para marketing como outras industrias e as campanhas contra as atividades agrícolas são demasiadas.

 

“Fala-se muito na lactose, no glúten e na carne para consumo e nós sentimos que o consumo do leite e da carne de vaca está a diminuir mas, porque há outros interesses, fala-se muito menos acerca do consumo de açúcar que é enorme. São milhões que se gastam na imagem das grandes marcas e nós, os produtores e fábricas de leite, temos muito pouco dinheiro para inovar e procurar novos produtos”.

 

Martine e Jos não se envergonham do que fazem. Dizem estar sempre alerta “para andar no caminho certo” e tratar bem os seus animais mas sentem que não são justas as notícias de ataque à agricultura constantes nos média. “Somos uns bandidos, roubamos dinheiro e tratamos mal a terra e os animais. Isso às vezes é difícil de ouvir, sobretudo porque as más notícias vêm sempre de outros continentes que não o europeu e nós aqui, que temos regras muito apertadas, levamos por tabela”.

 

Relativamente à separação dos vitelos das suas mães, Martine não a considera violenta e explica: “os vitelos juntos com trezentas e tal vacas, no campo, acabam por morrer porque não conseguem acompanhar a manada durante os cerca de dois quilómetros diários que caminham; quando nasce um vitelo morto a vaca não lhe liga nada e segue o seu caminho; e quando separamos o vitelo da mãe não há qualquer stress por parte das vacas nem dos vitelos”, Martine aponta para uma vaca que pariu há poucas horas e continua, “olha aquela ali, está completamente calma, daqui a pouco vai ter com o grupo e nunca mais volta para ver o vitelo”.

 

Na produção biológica os vitelos não são separados das mães.

 

Martine não tem a pretensão de que faz tudo perfeito. “Os produtores são os primeiros a quererem o bem estar dos seus animais para que estes deem boa carne e bom leite. O grande problema reside nas margens de lucro cada vez menores. Não se pode investir em melhores condições sem dinheiro”.

 

Todos os anos são necessários investimentos nos estábulos. O mercado paga ao produtor cerca de trinta e quatro cêntimos por litro de leite, muito pouco, segundo Martine.

 

Relativamente ao metano produzido pela digestão das vacas Martine afirma que “há algum exagero dos média e que os automóveis são muito piores agentes de poluição e ninguém deixa de conduzi-los”.

 

 

A CARNE

 

Até 1995 mais de 50% da carne para consumo tinha origem nos bovinos leiteiros mas com o aparecimento da BSE (Encefalopatia Espongiforme Bovina), a tão falada doença das ‘vacas loucas’, o consumo de carne bovina baixou drasticamente.

 

A partir daí notou-se um aumento da importância dos bovinos de raças de carne autóctones que, com as suas características de rusticidade, apresentavam excelente capacidade de adaptação ao meio onde viviam.

 

Hoje em dia, porque o desempenho produtivo das explorações é maior, grande parte da carne para consumo tem origem em animais cruzados.

 

“Há a ideia de que a carne da Limousine ou outras raças é melhor para consumo mas nos Açores, por exemplo, só se come carne de vacas Frísia e é muito apreciada”, diz Martine.

 

As vacas da Pronk & Derks são principalmente para produção de leite.

 

Para se poder começar a ordenhar, são necessários mais de dois anos. Até lá, o custo com a alimentação de um novilho são mais de mil e quinhentos euros (cerca de dois euros diários). “É um grande investimento por isso é bom vender alguns novilhos”.

 

Nem sempre há vacas para vender mas em 2016, por exemplo, quando foram impostas quotas por causa da crise no mercado do leite, foram vendidas sessenta vacas da Pronk & Derks num só mês.

 

O consumo de carne também tem vindo a baixar. Até as escolas começam a ter ementas com pratos vegetarianos.

 

Para Martine come-se menos carne também por causa das campanhas contra o seu consumo e das más práticas de alguns produtores fora da Europa. “Comer de tudo um pouco é o ideal”, diz, “mas o mais importante é que a produção da nossa alimentação é um circulo. Se só comermos vegetais iremos precisar, na mesma, de estrume e se não produzimos carne como é que vamos fazer? Vamos utilizar muito mais adubos químicos”.

 

Martine sente-se orgulhosa por o estrume da sua exploração ter sido utilizado nas vinhas do Cortes de Cima, junto ao rio Mira, cujo vinho foi premiado em Paris.

 

Também no Almograve, a Hortipor, utiliza aquele estrume de vaca na sua plantação de tomate.

 

“É importante haver produtores de estrume, sem estrume não se consegue plantar mais ecológico”.

 

 

O QUEIJO

 

PPara além do leite a Pronk & Derks produz milho e erva para alimentar as suas vacas.

 

Houve tempos em que o casal Pronk considerou produzir queijo mas ao fazer contas aos custos, à burocracia e ao trabalho, rapidamente mudaram de ideias.

 

“Fazer queijo exige muito trabalho: primeiro tem de se fazer o queijo, depois o marketing para vender e depois tem de se receber dos clientes o que é ainda o mais difícil”, argumenta Martine. “Eu sou enfermeira e agricultora e vender não faz parte da minha vida, nem do Jos. Faço aqui iogurte para os meus clientes do turismo e algum queijo para consumo próprio mas fazer disso negócio, não quero!”.

 

Um dos filhos do casal está a estudar agronomia na Holanda e quer regressar a Portugal após os estudos. “Pode ser que, se ele quiser, comecemos a fazer queijo se isso for uma oportunidade e lhe possibilite ter uma vida boa”.

 

 

OUTRAS ATIVIDADES E RESPONSABILIDADES

 

TTodos os anos a vacaria dos Pronk recebe algumas visitas das escolas locais e da APCO (Associação de Paralisia Cerebral de Odemira).

 

O estrume ali criado é enviado para vários estabelecimentos prisionais onde se fazem hortas. “E os legumes ali cultivados vão para o Banco Alimentar”, informa Martine.

 

No último verão o casal organizou, juntamente com outros agricultores e a Câmara Municipal de Odemira vários transportes de leite para a zona de incêndios que deflagrou no centro e norte de Portugal.

 

Já no outono foi enviado colostro para alimentar os bezerros cujas mães se encontravam com as tetas queimadas.

 

Todos os anos a família inteira junta-se na FACECO (Feira das Atividades Culturais e Económicas do Concelho de Odemira), com alguns exemplares das suas vacas que levam a concurso. Para Martine trata-se de uma “experiência familiar muito interessante”. 

 

 

NOTA FINAL

 

“Pode haver outras maneiras de alimentar o mundo”, diz Martine, “mas o melhor é ir trocando ideias e evoluir na forma de trabalhar a terra. Não se compara o que fazemos hoje com o que fazíamos há vinte anos”.

 

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por Pedro Pinto Leite