OPINIÃO PÚBLICA

Entre a confiança e a desconfiança

por Fernando Almeida


Por:Fernando Almeida

Brittany Gaiser - Unsplash
2018-01-31
Neste nosso cantinho do mundo, os professores foram desqualificados e denegridos por todos os meios

Um livro escolar do tempo em que eu era menino (ainda antes de Abril ter chegado) contava a história de um cavador de enxada que era mal tratado pelo seu patrão e que por isso pouco trabalhava. Chegado ao campo com a magra merenda dizia: “O meu amo só me dá pão de rolão e vinho vinagrão. Deita-te para aí enxadão”. O patrão, depois de o espiar, percebeu o que se passava e passou a trata-lo dignamente, dando-lhe bons tratos e comida. Então voltou a espiar o homem, ouvindo-o agora dizer: “O meu amo já dá bom vinho e bom pão. Trabalha para aí enxadão”. Para se trabalhar bem não é preciso um capataz, um inspetor ou um supervisor; basta que haja respeito e confiança. Depois tudo acontece naturalmente.

 

Ainda que não estivesse nos livros, a vida ensina a qualquer um que ande no mundo acordado e tente perceber os mecanismos que o movem: a confiança gera confiança, induz espírito de cooperação e tranquilidade; fomenta entreajuda e amizade, e conduz ao sucesso de grupos e instituições. Já a desconfiança faz o oposto: cria desconfiança e medo, fecha o indivíduo em si mesmo, barrando os caminhos da cooperação e entreajuda, o entusiasmo, a criatividade e a inovação. A confiança é mãe de relações sociais e profissionais positivas, e de instituições bem-sucedidas. A desconfiança é geradora de relações sociais negativas e tensas, e de instituições que atingem difícil e penosamente os objetivos mínimos a que se propõe.

 

Ao contrário daquilo que acontece geralmente nos países do norte da Europa, em que as instituições são dirigidas com base em relações de confiança, aqui entre nós, ocorre exatamente o contrário. Por lá as relações de confiança geram um espírito positivo, empenho e trabalho cooperativo. As instituições são lideradas por gente nascida dessa cultura de confiança e são dirigidas por gente de visão, que sabe que a boa gestão é a que consegue criar um projeto comum em que cada interveniente se sente importante e reconhecido. Também nasce daí a responsabilidade coletiva pelo sucesso, e esse é um elo que liga o indivíduo a todo o grupo de que faz parte, e não apenas às chefias. Funciona, e funciona bem. As pessoas andam mais motivadas, as relações entre pares são melhores, andam mais felizes, adoecem menos, a produtividade aumenta…

 

Por cá, infelizmente, ainda prevalece em boa parte da nossa sociedade uma visão arcaica das relações sociais e laborais, baseada na desconfiança e na imposição. É a “governação do chicote”, sempre mais preocupada em inspecionar, controlar e supervisionar, que em criar condições materiais e afetivas para o bom funcionamento das organizações.

 

Este espírito de desconfiança também domina a escola, onde a figura do inspetor é temida, desde logo porque o seu papel é muito mais o de procurar algo que possa ter falhado, que ajudar a encontrar soluções para os problemas que existam. Na tão aclamada educação da Finlândia simplesmente não há inspetores, e não os há, apenas porque não fazem falta. Os professores são altamente prestigiados socialmente e o estado promove-os por todos os meios, e com razão: são eles que preparam as gerações mais novas; são eles que preparam o futuro do país.

 

Pelo contrário aqui, neste nosso cantinho do mundo, os professores foram desqualificados e denegridos por todos os meios, talvez para lhes poder pagar menos (enquanto se desperdiçavam fortunas colossais em PPP’s, em bancos, etc.), e com eles a própria escola.

 

É claro que os pais arruaceiros passaram a sentir-se confortáveis quando vão dar “uns tabefes” à professora, e que se cria um desrespeito geral em relação à escola, aos professores e mesmo ao conhecimento. O país teria ganho muito se alguns ministros, secretários de estado e outros dirigentes da educação tivessem sido pagos (mesmo que bem pagos) para deixarem a educação tranquila, e se dedicarem à pesca numa ilha deserta.

 

O mesmo espírito de desconfiança generalizado, que efetivamente causa estragos de grande monta quando envolve dirigentes de topo, também provoca estragos significativos quando impregna o pensamento e a prática dos dirigentes da base, onde alguns insistem em criar mecanismos inúteis e contraproducentes de controlo e supervisão, sem entender que com eles não se conseguirá mais que gerar desconfiança e todos os males que ela acarreta.

 

É pena que as vistas curtas de alguns não deixem o progresso e o desenvolvimento prosperar. As ilhas desertas são escassas para colocar todos os que precisavam de se dedicar à pesca…

 

por Fernando Almeida