AMBIENTE

MAU FUNCIONAMENTO DA ETAR DE S. LUÍS INQUIETA SANLUIZENSES

Cheira mal, cheira à ETAR de São Luís

2018-01-31
Contaminação da Ribeira da Descabelada e cheiro a esgoto há mais de uma década deixa moradores do Bairro Azul “pelos cabelos”

Junta de freguesia aponta morosidade na reparação dos equipamentos e sugere manutenção preventiva enquanto se espera pela aprovação de verbas para construir uma infra-estrutura nova

 

A população de São Luís está inconformada com os maus cheiros da ETAR situada junto ao Bairro Azul, um incómodo para os habitantes e também para quem gosta de fazer caminhadas ao final do dia. Têm chegado ao MERCÚRIO vários relatos dando conta de situações de mau estar que obrigam mesmo alguns moradores a fechar as portas de casa quando o problema se agudiza. A empresa Águas Públicas do Alentejo, responsável pela ETAR, estuda soluções de curto prazo enquanto espera por financiamento para construir uma nova infra-estrutura.

 

A solução a longo prazo passa pela construção de uma nova ETAR, um processo moroso. A título de exemplo, recorde-se a recém-adjudicada ETAR de São Teotónio que vai demorar quase dois anos a ser construída, isto se não houver atrasos.

 

A ETAR em causa, em São Luís, é antiga, está em funcionamento e tem licença de descarga válida desde 1979. E a má disposição relacionada com os maus cheiros é antiga também (ver caixa). “Parece-nos que essa situação tem características crónicas e não advém só dos últimos meses”, relata Fernando Parreira, presidente da junta de freguesia de São Luís. “Sabemos, através dos residentes e das nossas idas ao local que os maus cheiros nos últimos meses têm aumentado, sobretudo nos meses de Verão até meados de Dezembro, mas que ainda se mantêm elevados”, esclarece o autarca.

 

Em causa estão alegadas avarias nos equipamentos que os impedem de funcionar. “Não compreendemos como é possível que as reparações não tenham sido mais rápidas quando estavam em causa a contaminação e a saúde pública”, reclama a mesma fonte aludindo a “descargas de águas residuais parcialmente ou não tratadas na Ribeira da Descabelada resultando não somente em maus cheiros mas também por uma consequente contaminação da ribeira”.

 

Para a Junta de Freguesia de São Luís a solução a curto prazo passaria por melhorias na infra-estrutura da actual ETAR, “mudanças operacionais e manutenção preventiva, melhor controlo da qualidade das descargas e monitorização dos efluentes”. A junta de freguesia local desconhece, no entanto, quaisquer “planos concretos para uma nova ETAR”.

 

Enquanto esperam, os autarcas alegam fazer pressão para a resolução do problema. “A Junta de Freguesia de São Luís tem interpelado regularmente o município de Odemira para que, conjuntamente, exijamos junto das Águas Públicas do Alentejo a resolução eficaz e urgente de uma situação crónica que é da sua competência”, garante o presidente da junta. “O município de Odemira, na pessoa do seu presidente, garante estar a fazer pressão junto Águas Públicas do Alentejo”, acrescenta.

 

Ainda de acordo com a junta de freguesia, alguns residentes têm apresentado formalmente queixas junto de várias instâncias e já terão sido aplicadas pelo menos duas multas ambientais à entidade responsável, Águas Públicas do Alentejo.

 

Entretanto, um grupo de residentes, que forma o Grupo da Água da Transição São Luís tem em elaboração o Relatório “Águas Residuais de São Luís - ETAR e Barranco da Descabelada” com observações, medidas de campo, análise, esboço de impactes e sugestões preliminares.

 

A comunidade escolar também se tem mobilizado. “A Associação de Pais e de Encarregados de Educação do Agrupamento de Escolas de Vila Nova de Milfontes mobilizou a comunidade escolar da Freguesia e realizaram uma visita de crianças, docentes e funcionários ao local e vai decorrer daí uma exposição dos desenhos das crianças que visa a sensibilização para o problema”, lembra Fernando Parreira.

 

A Águas Públicas do Alentejo relata ao MERCÚRIO que “a construção de uma nova ETAR aguarda financiamento” e alega que este facto “é do conhecimento da Agência Portuguesa do Ambiente”. “Entretanto, estão em fase de estudo soluções mais imediatas para fazer face ao problema existente, que estamos em crer se possam implementar num prazo relativamente curto”, promete a empresa responsável.

 

Está prevista, até ao final de Janeiro, uma visita ao local com a presença de representantes da Águas Públicas do Alentejo, da Câmara de Odemira, da Autoridade de Saúde e da Junta de Freguesia de São Luís.

 

 

UM CHEIRINHO MUITO ANTIGO

 

O problema dos maus cheiros da ETAR já é antigo. Corria o ano de 2007, quando o jornal diário Correio da Manhã noticiava “ETAR incómoda em Odemira”. Na entrada da notícia lê-se: “A Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de São Luís, no concelho de Odemira, está a deixar pelos cabelos os habitantes da localidade alentejana. Queixam-se dos maus cheiros e dos perigos que correm ao viver paredes meias com uma estrutura que a própria autarquia considera obsoleta e sem capacidade de resposta. Já foi posto a circular um abaixo-assinado pela junta de freguesia local que traduz essa revolta”.

 

Há pouco mais de dez anos, a Câmara Municipal de Odemira era a entidade competente pela gestão da ETAR. O actual presidente da autarquia, José Alberto Guerreiro, era então o vereador do Ambiente. E declarou ao jornal ser conhecedor do problema, que as populações tinham “razões para se manifestar”, embora a autarquia não previsse qualquer tipo de solução a curto prazo.

 

Ainda de acordo com a mesma notícia, uma candidatura a fundos europeus apresentada em 2001 e recebeu resposta negativa em 2005.

 

por Ricardo Vilhena (não usa AO)