EDITORIAL

O Céu e a Terra

Motivação Transcendente


Por:Pedro Pinto Leite

Clark Tibbs - Unsplash
2018-02-28
A motivação, aquilo que motiva alguém a fazer alguma coisa, aquilo que influencia o comportamento, é um assunto bastante complexo e bastante estudado e que, normalmente, se divide em dois tipos

1 – MOTIVAÇÃO EXTERNA ou EXTRÍNSECA

 

Neste caso o que motiva uma pessoa a realizar uma atividade é um fator externo a si mesma, por exemplo, a obtenção de um prémio (recompensa), como o dinheiro ou o poder; a obtenção de um privilégio, como o estatuto ou ter um carro da empresa; ou evitar um castigo (punição), como uma repreensão ou uma privação.

 

Este tipo de motivação não só é inconstante como insustentável uma vez que depende de fatores externos ao indivíduo e porque não vai ao encontro das suas reais necessidades. 

 

Quando alguém age por motivação externa é mais dependente, mais vulnerável e mais insatisfeito. Move-se pela recompensa, pelo interesse próprio, só satisfeito por algo em troca das suas ações onde tudo tem ‘um preço’, e não pela tarefa em si, o que implica pouca satisfação e prazer na sua realização.

 

Catherine L’Ecuyer resume, de forma muito clara, o “tipo de pessoas que se move por motivações externas: Em vez de compaixão, há tolerância. Em vez de generosidade, há cumprimento. Em vez de agir em consciência, age-se por conveniência. A ética reduz-se ao que é legal”.

 

 

2 – MOTIVAÇÃO INTERNA ou INTRÍNSECA

 

Neste caso o que motiva uma pessoa a realizar uma atividade é um fator interno de si mesma, por exemplo, a sua maneira de ser, os seus gostos, a curiosidade e/ou o prazer da sua realização, o seu usufruto. As atividades representam o fim em si mesmo e não um meio para atingir um fim.

 

A pessoa escolhe a atividade por ser interessante, atraente, geradora de satisfação ou por puro entretenimento. Procura novidade e desafios.

 

Este tipo de motivação é constante e gratificante uma vez que depende apenas da vontade do indivíduo. Não há troca. O que há é maior autonomia, maior empenho e melhor desempenho e, na adversidade, a força interior mantém-se, o que leva à realização pessoal e à felicidade.

 

Neste caso Catherine L’Ecuyer diz que este tipo de motivação “não é suficiente” porque quando alguém age por motivação interna “age por si e não necessariamente pelos outros”, “não tem em consideração o ‘porquê’ e o ‘para quê’ de se fazer o que se faz”.

 

 

MOTIVAÇÃO TRANSCENDENTE

 

Catherine L’Ecuyer aborda um novo tipo de motivação assente na motivação interna: a motivação transcendente que diz respeito a uma “motivação de serviço, de contribuição para com os outros”.

 

Quem age sobre este tipo de motivação age não só para si mesmo como também “age a partir do sentido, pensando nos ‘para quê’ e nos ‘porquês’ das suas atuações”.

 

Uma pessoa que age por motivação transcendente, tem em conta as consequências dos seus atos nos outros. “Chama-se ‘transcendente’ porque acarreta motivos que vão além da pessoa, como, por exemplo, os ideais de verdade, bondade e beleza”.

 

Uma ação com este tipo de motivo é verdadeiramente livre.

 

É este último tipo de motivação que move a generalidade dos grupos de jovens ou de adultos, as comunidades religiosas ou não, ou outro tipo de organizações que visam o bem-estar social, emocional e espiritual do próximo.

 

São instituições feitas de pessoas que estão seguras do que querem, do que as faz felizes porque já encontraram a resposta e já se encontraram a elas próprias. Estão em paz para se dedicarem aos outros, estão motivadas e acreditam que a sua ação pode fazer a diferença e a sua recompensa é a sua realização pessoal e a sua felicidade duradoura.

 

Há efetivamente quem troque o conforto da sua casa, o seu tempo, a previsibilidade e os bens materiais por momentos ou mesmo por uma vida de entrega e serviço.

 

Estes grupos, estas pessoas, fazem verdadeiros milagres com orçamentos parcos. Vivem e ‘constroem’ as suas ‘obras’ com donativos e da generosidade de pessoas igualmente e intrinsecamente motivadas.

 

Movem-se pelo bem. Trabalham em prol do outro. Agem de livre vontade. Para elas, servir não é vergonha.

 

Seria bom que, em Portugal e no mundo, existissem mais políticos com este tipo de motivação. Porque são raros.

 

Que os donativos, dados por cada cidadão (contribuinte) estivessem efetivamente ao seu serviço.

 

Que os orçamentos dos organismos do estado (central ou local), que não são parcos, deixassem de ser usados extrinsecamente e que fossem canalizados para um serviço público (o conjunto de atividades e tarefas destinadas a satisfazer as necessidades, essenciais ou não, da população) de qualidade, em consciência e não por conveniência.

 

por Pedro Pinto Leite