SOCIEDADE

Comunidade Servos de Maria do Coração de Jesus

Uma casa cheia de alegria

2018-02-28
A levar o amor do coração de Jesus com a ternura da Virgem Maria

O MERCÚRIO foi visitar a Comunidade Servos de Maria do Coração de Jesus, em Colos. A porta abriu-se e um grupo de cinco Irmãs, Lucy, Clotilde, Paula, Layla e Joyce, de guitarra em punho, com um sorriso na cara, cantam uma alegre canção de boas-vindas: “De braços erguidos louvamos a Deus pela sua presença / de braços abertos queremos te acolher. / Abra um sorriso, a alegria quer te envolver. / Os Corações de Jesus e de Maria te acolhem com alegria. / Vamos cantar, o Pedro acabou de chegar / seja bem vindo à este lugar / o Pedro acabou de chegar, vamos cantar”. “Deus o abençoe”. Acreditem, só isso valeu a visita.

 

 

A FUNDADORA

 

Ana Rita Otaviano Tavares de Melo (Mãezinha), mãe de quatro filhos, casada com José (Paizinho). Natural do estado da Paraíba (estado no nordeste do Brasil, conhecido pela linha da costa tropical e pela arquitetura colonial portuguesa), Mãezinha considerava-se uma mulher feliz e realizada como mãe e empresária.

 

Uma mulher da alta burguesia, proprietária de uma fazenda de gado e de cavalos. Em 1995 diz ter recebido um chamamento especial de Nossa Senhora, para a “grande missão de cuidar dos doentes” que revolucionou totalmente a sua vida.

 

Mãezinha refere que um ano depois, durante uma oração, Jesus lhe disse que iria amar os seus filhos espirituais da mesma forma que amava os seus filhos naturais, coisa que nem imaginaria ser possível. Num dos primeiros retiros da Comunidade, ao visitar os quartos para abençoar as pessoas que nele participavam, estas diziam-lhe “Você é uma verdadeira mãezona!”, mas, por quererem tratá-la de um modo mais carinhoso, pediram-lhe para chamá-la de “Mãezinha” e, como a própria relata: “como poderia recusar esta demonstração sincera de carinho”. E assim ficou ao ponto de já achar estranho quando a chamam por Ana Rita. O seu marido e inseparável companheiro nas atividades da missão, José, também ele se tornou “Paizinho”. Mãezinha trata cada membro da Comunidade por “Filhinho”.

 

“Se algum dia tiver a oportunidade de conhecê-los vai compreender o porquê do ‘Mãezinha’ e do ‘Paizinho’; é que ela realmente consegue transparecer a ternura e o amor do Coração de Jesus e de Nossa Senhora de forma única”, afirma Irmã Joyce, “mesmo sendo casados, mesmo dentro da realidade do seu matrimónio, eles têm conseguido de uma forma muito simples e muito concreta, no seu dia-a-dia, transparecer esse Carisma que é o motivo pelo qual estamos aqui”.

 

 

COMO ACONTECEU

 

A comunidade Servos de Maria do Coração de Jesus, nasceu no Brasil há cerca de vinte anos (final do ano de 1997).

 

Tudo começou, no ano de 1995, com uma forte experiência interior de Mãezinha, que diz ter sentido no coração uma voz “belíssima e inesquecível” que lhe disse “suave e compassadamente”: “Filha, terás a grande missão de cuidar dos doentes”.

 

Ainda que surpreendida, acompanhada pelo Bispo e pelo seu Diretor Espiritual da Igreja Católica, ela não tinha dúvidas de que se tratava da voz e de um pedido de Nossa Senhora.

 

Mãezinha era uma mulher muito simples, ela diz no seu livro (As minhas experiências com Jesus vividas na fé) que “só entendia apenas de gado e de cavalo” e que o seu conhecimento espiritual e doutrinário era “apenas uma lembrança do catecismo”. A partir dessa experiência com a Virgem Maria, ela começa a visitar os doentes nos hospitais, discernindo depois, que o pedido feito estendia-se aos doentes não só do corpo, mas também aos da alma. Mãezinha começa então a visitar os presos.

 

Mãezinha conta que, no decorrer das missões, no ano de 1997, Jesus lhe pede para fundar uma comunidade. De visita ao Arcebispo, questionando-o sobre o que fazer, ele respondeu-lhe que “se Jesus te pediu uma Comunidade, Ele te mostrará como a quer e como fazer”.

 

Pouco depois começaram a aparecer os primeiros missionários, dava-se portanto início à comunidade Servos de Maria do Coração de Jesus, como Jesus lhe havia pedido.

 

Atualmente, para além do Brasil, a Comunidade tem missões em Portugal, França, Itália, Polónia, Colômbia e Ruanda; é uma Comunidade contemplativa e missionária, que atualmente conta com cerca de quatrocentos membros, dos quais vinte estão em Portugal. A maioria é brasileira, mas há também membros de Itália, Ruanda, Alemanha, México, Colômbia e Portugal.

 

 

COLOS

 

Irmã Lucy explica, “cada Casa de Missão, em qualquer país, é um pedido do Céu, é Nosso Senhor que coloca no coração de Mãezinha e que lhe providencia os meios necessários para que aconteça a missão”.

 

A chegada da Comunidade a Portugal não foi diferente. Mãezinha estava em França, de visita a um lugar religioso. “Por providência Divina”, encontrou-se com um sacerdote da diocese de Lamego e, por seu intermédio, abriu-se a primeira Casa de Missão em Portugal. Aproximadamente um ano depois, a comunidade foi acolhida na diocese de Beja, e posteriormente, em Fátima, diocese de Leiria.

 

Na diocese de Beja, inicialmente a comunidade esteve em Vila Nova de Milfontes, mudando-se depois para Colos, concelho de Odemira.

 

 

A COMUNIDADE

 

A Comunidade Servos de Maria do Coração de Jesus é uma comunidade mista, havendo Sacerdotes, Irmãos Missionários, Irmãos Contemplativos, missionários leigos, e casais. Todos fazem as orações e os trabalhos em comum, vivem na mesma casa, mas em instalações distintas. Quanto aos casais, vivem em sua própria casa dentro da comunidade.

 

Em Portugal há Irmãs Contemplativas de semiclausura, Irmãs Missionárias e missionários leigos. Em Colos há apenas Irmãs Missionárias e missionárias leigas.

 

 

A HIERARQUIA

 

Na Comunidade existe uma hierarquia que começa nos Fundadores, depois uma diretoria e as responsáveis por cada Casa, que são chamadas de mãe de casa. Cada Casa de Missão está sempre em comunhão com a casa mãe.

 

“É importante que haja essa hierarquia. A hierarquia na igreja não deve ser vista como um poder impositivo e esmagador, mas um auxílio para o crescimento espiritual”, esclarecem as irmãs. “É como se eu, na minha barca, no alto mar, precisasse de orientação e então eu vejo aquela luz, aquele farol que me dá a direção”, explica Irmã Joyce.

 

“A hierarquia da Igreja é para nos ajudar”, interpela Layla, “é para nos levar a Deus, é uma hierarquia paternal. Os nossos sacerdotes são como nossos pais, como pastores que cuidam das suas ovelhas, porque as ovelhas têm de ser cuidadas mas com sentido paternal e amoroso”.

 

 

O HÁBITO

 

Nas palavras da fundadora, “o hábito de um consagrado é muito importante, é como se dissesse a todos: ‘Deus existe e está aqui bem pertinho de si’! Quantas pessoas vieram até mim, por causa do hábito, para me perguntar o porquê de andar assim vestida? E pude então falar do amor infinito de Jesus! Isto para mim é uma grande alegria, porque o dia em que não levo ninguém a Jesus é um dia perdido!”.

 

 

CARISMA E MISSÃO

 

O Carisma é o dom extraordinário e divino concedido a um crente ou um grupo de crentes, para o bem da comunidade. Os Carismas da Igreja Católica existem para dizer que a Igreja é viva e atuante, que é o Espírito Santo que a conduz, e que nunca a deixará.

 

“Pode-se não compreender e achar que o dar-se a Jesus e viver em comunidade são coisas do passado e que já não fazem falta, mas é nesta entrega contínua, colocando-se ao serviço de Deus, que se pode testemunhar o Seu amor e levar cada pessoa a uma experiência de amor com Ele”, sublinham as Irmãs.

 

“Cada um de nós tem uma sede imensa de Deus, mas onde procuramos saciar-nos?”, interroga Irmã Joyce. “A sede do homem ainda não foi entendida como uma sede de Deus, procura-se, portanto, satisfação nos prazeres do mundo, afastando-se cada vez mais do seu Criador”.

 

A Comunidade tem uma forma própria de ser, “o nosso Carisma, ou seja, aquilo que nos identifica, é viver e testemunhar com alegria o amor e a compaixão do coração de Jesus através da ternura da Virgem Maria, isto é, nós tentamos no nosso dia-a-dia imitar Nossa Senhora, como Ela viveu, como Ela esteve com Jesus e o anunciou ao mundo”, informa Irmã Joyce.

 

A Comunidade procura viver o Carisma de forma ampla. Costumam fazer missões noutras paróquias, durante a semana, onde realizam a evangelização porta-a-porta, que se faz de forma mais direta no ambiente familiar, procuram portanto, “falar e transmitir o amor de Deus, ajudando as pessoas a se encontrarem com Jesus, através dos sacramentos da Santa Igreja”. Promovem encontros com crianças, jovens e adultos e ainda orientam retiros diversos; visitam lares de idosos, escolas, hospitais e associações e, por ser uma Comunidade Mariana, divulgam e formam grupos para se consagrarem à Virgem Maria pelo método de São Luís de Montfort. Propagam também a mensagem de Fátima.

 

A comunidade faz votos de pobreza, castidade, obediência e prontidão, em relação a este último, procuram viver na entrega e na disponibilidade à missão que lhes é pedida, e como elas mesmo o dizem “o nome da Comunidade é Servos de Maria do Coração de Jesus e um servo faz aquilo que é necessário, desde o mais ao menos notável. É essa a nossa missão, colocar amor de diversas maneiras: no falar ou no silenciar”.

 

No Brasil, há uma Casa de Missão que chega a acolher centenas de pessoas vindas do interior do Estado da Paraíba para se tratarem nos hospitais mais próximos, oferecendo-lhes estadia, todas as refeições e auxílio espiritual. Naquela casa reside um Sacerdote da Comunidade.

 

No Ruanda (África), a Comunidade tem um projeto - Projeto Indabo (Flor) - onde acolhem aproximadamente 100 crianças pobres, oferecendo-lhes ajuda pedagógica, catequese, refeições diárias e auxílios básicos. Há ainda um outro projeto onde as mães que se encontram em dificuldades financeiras aprendem alguns trabalhos para poderem de alguma forma obter rendimentos e restabelecer a sua vida, sendo também ajudadas espiritualmente.

 

 

PORQUÊ DEIXAR TUDO E SEGUIR JESUS?

 

Donde vem tanta fé? Como é que alguém se entrega assim com tanto amor e tanta alegria prestando-se a servir em nome de Jesus?

 

“Para já, a fé é um dom”, afirma Irmã Joyce, “diz-se que a fé entra pelo ouvido, pela escuta da Palavra de Deus e cada um precisa do seu tempo para desabrochar, é preciso ter, portanto, o coração sempre aberto. A fé é alimentada diante daquilo que Deus nos dá a experimentar a cada dia, e estas experiências fazem-nos perceber que vale a pena seguir Jesus e deixar o tudo que na realidade é nada, tudo é muito transitório, tudo é muito passageiro, só Deus não passa. Tenho a certeza de que realmente vale a pena e que temos de tentar alimentar isso cada dia, com cada missão, com cada pessoa”.

 

“No fundo é isso que nos faz, hoje, dar a nossa vida a Jesus”, diz Layla, “é um encontro pessoal em que nos damos conta, pela Sua Graça, do Seu amor infinito que não cabe em nós e, no meu caso, quando me encontrei com esse Amor, eu queria que as outras pessoas também O encontrassem, porque eu descobri que a minha vida até àquele momento, toda a minha vida, era ‘cheia de vazios’ e tudo começou a ter sentido a partir do momento que O encontrei, que fui encontrada por Ele e que aquela experiência me trazia uma felicidade que eu nunca havia experimentado, a verdadeira felicidade. Por isso louvo-O pela graça de ver Aquele que sempre esteve diante de meus olhos e eu não O enxergava. Posso portanto muito bem dizer como Santo Agostinho: ‘Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, eis que estavas dentro de mim e eu fora’… e na certeza de que Ele está vivo e me ama, tento dar todos os dias, ao amanhecer, uma resposta de amor a esse amor, ‘eu Te amo hoje’. Sabemos, é claro, que há momentos difíceis, momentos em que somos provados, que a nossa confiança é provada e, são verdadeiramente estas provas, que nos permitem conhecermo-nos, conhecer as nossas fraquezas e crescer no amor e na fé, caminhando na certeza de que realmente precisamos Dele e que ‘sem Ele nós nada somos e nada podemos’, não é só dizer ‘eu acredito em Jesus, eu amo Jesus’ quando tudo corre bem, mas sobretudo dizê-lo na dificuldade: ‘eu continuo acreditando, confiando e te amando nesta situação difícil’ e é aí onde nos encontramos, ainda mais, com Deus”.

 

É na aflição que as pessoas mais procuram a ajuda divina e se lembram de Deus,

 

“ou o contrário”, diz Irmã Paula, “no momento do sofrimento e do desespero há pessoas que se afastam e acabam por desacreditar no Deus que as ama e que convida a conhecer a dimensão que o sofrimento traz. Deus não quer que soframos, mas uma vez que sofremos, nós podemos colher os bons frutos que o sofrimento nos traz”.

 

 

A EVANGELIZAÇÃO EM PORTUGAL

 

“Aqui em Portugal, atingimos os corações de muitas pessoas através da evangelização”, diz Irmã Lucy, “costumamos promover retiros para casais, para jovens e crianças. Aqui em Colos, fizemos este ano o IV retiro de Carnaval, que contou com a presença de mais de 70 pessoas”.

 

Embora residam em Colos, a Comunidade não se limita apenas à evangelização local, mas percorre a diocese de Beja, e outras dioceses do país, realizando as missões já citadas.

 

“Há alturas em que estamos pouco tempo em casa, não ficamos à espera de convites para a missão, mas procuramos dar a conhecer o nosso trabalho e oferecer a missão, é como diz a nossa fundadora ‘fogo nos pés’”, conclui Irmã Joyce bem-humorada.

 

 

A MENSAGEM DE FÁTIMA

 

Faz parte da missão da Comunidade Servos de Maria do Coração de Jesus divulgar e difundir mais a fundo a mensagem de Nossa Senhora de Fátima: Oração, Conversão, Penitência, Sacrifício e Entrega.

 

“Aqui em Portugal, o Céu uniu-se à Terra, Nossa Senhora colocou os seus pés naquela bendita azinheira. Para trazer uma mensagem de paz e de amor? Sim, mas pediu, nas 6 aparições, de maio a outubro, para que se rezasse o terço todos os dias, porque é a oração que nos sustenta”, informa Irmã Lucy.

 

“Em todas as suas aparições, Nossa Senhora frisou muito a importância da oração, da oração em família, da conversão, do valor do sacrifício, da entrega, de reparar o coração do Seu Filho, ‘que é muito ofendido’”.

 

São muitos os detalhes das aparições de Nossa Senhora e é muito vasta a sua mensagem, “que eu aprendi a amar e gostaria tanto de partilhá-la com toda a gente para que todos a conhecessem”. As irmãs sublinham que sentem que há uma necessidade de conhecer e viver a mensagem de Fátima.

 

Nossa Senhora também perguntou aos pastorinhos se estavam dispostos a oferecerem-se a Deus. “Aquelas crianças procuraram espinhos para se magoar, passaram sede no verão para oferecer esse sofrimento a Deus. Sabemos que as dificuldades batem à nossa porta todos os dias e podemos, como eles, aceitar com amor os sofrimentos, oferecendo-os a Deus, crendo que esses sofrimentos, unidos à Jesus, darão bons frutos”, diz Irmã Lucy.

 

 

A PARTILHA

 

Perto do fim, as últimas palavras de agradecimento e de partilha.

 

“O Amor de Deus é mais visível quando passa pelo outro”, diz Irmã Lucy.

 

Layla continua, “muitas vezes para sorrir, para darmos uma palavra encorajadora ao outro, temos de passar por cima de nós mesmos, sair do centro e colocar lá Deus, para que seja Ele a fazer em nós e aí somos capazes de amar o outro mesmo quando nos custa”.

 

Um chá e uns biscoitos foram servidos e uma oração foi rezada e cantada pela belíssima voz de Irmã Lucy.

 

Já na despedida as Irmãs estranharam não lhes ter sido perguntado, “aquela pergunta que nos fazem sempre e logo no início: ‘do que é que vocês vivem?’”.

 

Há perguntas que não são precisas de fazer a um grupo de religiosas que se entregam de corpo, coração e alma na sua fé porque Deus providencia, não é?

 

No entanto as irmãs insistem em clarificar: “É belo experimentar o cuidado de Deus para connosco em todas as nossas necessidades. Ressaltamos que não recebemos ordenados e, quando fazemos as missões, nada cobramos, aceitamos aquilo que nos podem oferecer. Vemos o amor de Deus através de cada doação que recebemos dos nossos amigos benfeitores, inclusive nos ‘miminhos’. Aproveitamos aqui a oportunidade para agradecer a cada pessoa que nos ajuda, colaborando sobretudo na obra de evangelização, onde todos ganham. Que todos se sintam interpelados a contribuir”.

 

por Pedro Pinto Leite