ENCONTREI EM ODEMIRA

Diversidade Positiva

Este mês encontrei em Odemira Ana Gabriel Mendes (Gabi)


Por:Sara Serrão

2018-02-28
33 anos, actriz, empresária e activista pelos direitos dos animais, mãe de uma filha

• Qual a sua ligação a este território?

Sou de Lisboa mas mal pude sair de lá fui viver para o Algarve, para Faro, onde estive oito anos. Depois disso voltei à capital para estudar teatro e ser actriz, mas não desisti da ideia de viver fora da cidade. Num ano em que não tinha muito dinheiro para ir de férias vim com o meu companheiro da altura, pai da minha filha, para uma velha casa que ele tinha por aqui. Estivemos cá em Agosto e em Novembro mudámo-nos definitivamente. A ideia inicial era dedicarmo-nos à agricultura, mas não foi viável nessa altura e acabei por trabalhar na minha área, o teatro, com um projecto de expressão dramática nas escolas, para crianças do ensino básico. Mais tarde cumpri o plano original e tornei-me de facto agricultora: semeio e planto malaguetas e fiz uma marca de produtos à volta disso. Continuo também o meu trabalho como actriz, com uma companhia de Berlim, a Teatro Só, que, curiosamente, ensaia em São Luís.

 

• O que tem esta terra de especial?

Atrai-me muito o espírito de aldeia, o sentido comunitário e o sossego do campo. Faz falta mais cultura mas é uma ausência que se resolve saindo daqui ocasionalmente, portanto de vez em quando vou até Lisboa e rapidamente quero regressar a esta tranquilidade.

 

• O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?

Como conheço muito bem o ensino básico tal como tem sido até agora e discordo do modelo, que considero esgotado, posso dizer que gostava que houvesse uma revolução na educação para que a minha filha, que para já está num infantário de que gosta muito, pudesse vivenciá-la a partir da primária. Tenho esperança que Odemira possa ser um exemplo da mudança que é necessária na educação, aproveitando o ambiente multicultural que aqui se vive e tendo em conta que há na região uma experiência educativa alternativa com muito crédito, Tamera, assim como uma vontade do município de ser um concelho com um sistema de educação evoluído, no quadro da escola pública.

Para além disso, estando eu à frente da Associação Up, que tem desenvolvido trabalho de voluntariado no Canil Municipal de Odemira, e sendo o grande foco do meu trabalho a burocracia e a luta política para que haja melhoras nas vidas dos animais de companhia desta região, tenho muita esperança que Odemira dê o exemplo na forma como se encara a vida desses animais. O município já deu alguns passos, mas falta dar bastantes outros. A Up pretende essencialmente fazer campanhas de sensibilização para a esterilização de cães e gatos, porque achamos que é a única forma de acabar com o problema do excesso de população, do abandono e dos maus tratos. Porém, estão constantemente a aparecer novos casos urgentes, que necessitam de resposta imediata, e os objectivos estratégicos ficam por vezes para trás. Apesar de tudo, sinto que a lei de protecção dos animais já fez diferença e que as mentalidades estão, lentamente, a mudar. Quem ainda não percebia já começa a perceber que não pode pôr e dispor da vida de um animal como se fosse um objecto.

Culturalmente, gostaria que o Cineteatro Camacho Costa funcionasse mais e melhor: na minha opinião, a oferta de programação é normalmente pouco diversificada e quase sempre num registo comercial, que não acrescenta nem desafia mentalidades, e o espaço tem potencial para ter muito mais actividade.

Socialmente, preocupa-me a imigração, ou por outra, a integração dos adultos e crianças com dignidade. Outra questão preocupante que observo na região é o alcoolismo, que apesar de ser, infelizmente, bastante comum, não é sequer socialmente reconhecido como problemático. No entanto, é um fenómeno que salta à vista e tem muitas implicações familiares e sociais, como a violência doméstica, o desemprego ou a frequência de espaços de prostituição. Vejo o alcoolismo como um problema grave, instalado, mas do qual se fala muito pouco. Ainda há pouco tempo pedi apoio para um vizinho na minha aldeia, mas numa zona onde “estar tocado” é encarado como “normal”, torna-se muito complicado sair desse ciclo.

Finalmente, acho que a diversidade é a palavra que vai caracterizar Odemira no futuro, uma diversidade positiva.

 

#encontreiemodemira

 

“Encontrei em Odemira...” é uma rubrica (humildemente) inspirada no blogue “Humans of New York”, que pretendia na sua origem ser um “catálogo” exaustivo dos habitantes de Nova Iorque, com pequenos apontamentos das suas vidas, e que acabou por se tornar um projecto vibrante, abrangendo dezenas de países, com milhões de seguidores nas redes sociais e inúmeras causas filantrópicas. À nossa escala, esta nova secção tem o objectivo único de mostrar aos leitores a diversidade humana que habita hoje em Odemira, entre autóctones que sempre aqui viveram, forasteiros que escolheram este território para viver e até mesmo aqueles que vieram aqui parar quase ao acaso. A cada mês vamos encontrar habitantes de Odemira e colocar-lhes três questões:

• Qual a sua ligação a este território?

• O que tem esta terra de especial?

• O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?

 

por Sara Serrão