PALAVRA DE PALHAÇO

MasterQuê? Junior

Edição para crianças


Por:Enano Torres

2018-02-28
A televisão é uma ferramenta com grande poder de influência

Há anos surgiu no Reino Unido o programa de TV MasterChef, onde adultos mostram as suas habilidades culinárias amadoras, frente a um Júri, na sua maioria ‘doutorados’ na alta cozinha.

 

Com o sucesso de audiências pronto, o formato passou para América, Austrália e a alguns países Europeus, até chegar, como não, a Portugal.

 

Nunca fui adepto do programa e da sua ideia, embora goste muito de cozinhar, mas confesso que ficava perto do desanimo quando verificava que os pratos que os concorrentes tinham de confecionar eram dum estilo que para em nada se assemelhavam ao meu. Pratos que nem sequer sei pronunciar, pelo que pouco ou nada iria aprender construtivamente para o cozinheiro que existe dentro de mim.

 

A minha surpresa chegou no dia em que, perante tanto sucesso de audiência das sucessivas edições, apareceu o mesmo formato de programa destinado a crianças!

 

Menores mexendo em facas grandes, fogo, água a ferver, limpando peixe ou trinchando frango, isso é coisa de criança?

 

O incrível é que mais de cinco mil crianças com idades entre os 8 e 12 anos concorreram ao MasterChef em Portugal, com gravações aos fins de semana para não interferir no ano letivo dos miúdos. Dessas cinco mil, pergunto-me: quantas se inscreveram por iniciativa própria e não de seus papás?

 

Seja como for, o facto é que, nesta última edição, houve dois irmãos de Vila Nova de Milfontes (João e António). Para eles e sua família, terem sido selecionados entre tanta rapaziada, terá sido um motivo de orgulho e alegria. Também os residentes da zona terão tido os mesmos motivos por terem divulgado o nome de Vila Nova de Milfontes por todo o país.

 

Confesso que, mesmo assim, eu não vi nenhum programa inteiro. No entanto, não escuso o desejo de parabenizar os putos, os quais conheço pessoalmente, por terem participado e aos seus papás por aguentarem tantas viagens até Lisboa para as gravações e não só.

 

Por que não vi?

 

Para mim Masterchef Júnior é divertido, emotivo, didático e... Terrorífico! no sentido de ser altamente competitivo. Os rapazes sofrem, choram, padecem de míni ataques de ansiedade, por vezes discutem entre eles, lutam contra o tempo. Apenas pode ficar um.

 

Como aprendizagem de vida, na vida capitalista adulta, que não respeita zonas protegidas como a infância, tudo é suscetível de se converter numa carreira competitiva individualista.

 

Para mim é um míni laboratório do mundo laboral atual.

 

O júri utiliza o sistema de castigo recompensa que domina nas empresas.

 

Apertam com as crianças até fazer cair a resistência dos concorrentes, danam a sua autoestima, humilham (no caso do formato Júnior tudo é mais ‘light’: o júri é mais leve, carinhoso, crítica de modo positivo para haver lágrimas e sorrisos no ponto exato de cozedura, como exige um bom melodrama, fazendo-os sofrer o suficiente sem que os bons sentimentos percam o seu protagonismo; a receita nunca é má, é sempre “menos boa”) mas não deixam de ser os patrões. Quando os concorrentes estão em baixo, dão-lhes miminhos, sorrisos, e querem-lhes muito, com um “sentido” aperto de mãos ou abraços de coitadinho, incentivando-os a continuar pelo caminho do trabalho, sacrifício e empenho. Pura chantagem e manipulação emocional.

 

Reconheço que os tempos mudaram. Quando eu era criança, nos anos 80, nem pensar que pudesse estar na cozinha um miúdo em trabalhos de preparação alimentar. Quanto muito, com sorte, ficava-se ao lado da mãe, ou avó para ver como se cozinhavam os pratos. Ainda por cima, se fosses rapaz, a cozinha nem era lugar para eles.

 

Este formato de programas aposta também na rotura de alguns estereótipos: “as mulheres são as que cozinham” ou “os grandes chefs são homens”.

 

Aceita-se que os concorrentes estão realizando habilidades que usam diariamente: psicomotricidade, criatividade matemática, organização espacial e temporal, trabalho em equipa, quando são provas coletivas, mas esquece-se que tudo isto é sobre pressão que aumenta a cada programa que passa, pelo que, no momento que atuam com maior pressão, deixam de desfrutar daquilo que estão a fazer.

 

Parece incrível, surreal até, gente tão nova cozinhando magicamente, como se fossem míni génios da cozinha, executando pratos que nem sei pronunciar, usando ingredientes que nunca ouvi nos meus 43 anos de vida (alerto que sei alguma coisa de cozinha), com resultados de pratos que nem podemos imaginar que tenham sido eles a fazerem.

 

Cada elogio que a criança recebe comemora-se como se fossemos nós a realizar, orgulhamo-nos, emocionamo-nos com as primeiras eliminações. A imagem corta e segue para uma outra criança que, mesmo não sendo eliminada, chora aos soluços pelo colega que conheceu. Ela sentiu empatia. Desejamos ver todos com sucesso mas apenas um ficará. Para acalmar o eliminado oferecem-lhe um tablet para levar para casa e assim deixar de chorar...

 

Francamente é um programa altamente competitivo. Em muitos momentos os concorrentes sofrem pela falta de tempo, sentem frustração pelo limite escasso de tempo em realizar seus pratos, um deles até diz: “não suporto ver o relógio que corre todo o tempo”. Quando realizas uma atividade num tempo menor daquele que precisas, obviamente o produto não sai bem. Isso sucede com algumas crianças que apresentam comidas cruas, mal apresentadas e até pratos desfeitos.

 

Concordo que as crianças devam aprender a jogar, competir, perder. Não vejo nada de mal nisso, mas parece-me um erro que o programa seja uma competição continua. Repito que a pressão faz com que deixem de desfrutar.

 

A vida de um adulto já é suficientemente stressante e competitiva não havendo necessidade de transportar isso, tão cedo, para as crianças.

 

Queremos criar futuros trabalhadores extremadamente competitivos?

 

A televisão é uma ferramenta com grande poder de influência. Este programa visto e protagonizado por crianças não pode estar feito só para vender ou entreter. O fator moral é imprescindível. Apostaria por um maior conteúdo pedagógico, ressaltando a educação alimentar e a reciclagem, caso contrario continuaremos “cozinhando” crianças que no dia de amanhã vão-se preocupar com o seu próprio sucesso sem se importar com o bem coletivo ou a fome dos milhões de crianças que lamberiam, literalmente, o lixo alimentar que o “MasterQuê?” desperdiça em cada programa.

 

por Enano Torres