OPINIÃO PÚBLICA

Os dirigentes e as instituições

Olhos postos no futuro


Por:Fernando Almeida

2018-02-28
“Os bons gestores, os que verdadeiramente sabem liderar e que procuram séria e consistentemente o sucesso das organizações, rodeiam-se dos mais capazes e competentes, sem receio que estes lhe façam sombra ”

Há dirigentes que procuram com o seu trabalho, com a sua criatividade, esforço e dedicação, prestigiar e engrandecer a organização que dirigem; há também os que com o trabalho, esforço e dedicação da organização que dirigem, procuram prestigiar-se e engrandecer-se a si mesmos. Infelizmente em Portugal ainda são muitos os que se encaixam nesta segunda categoria.

 

Desde o mais notável cargo dirigente da administração pública ao mais humilde chefe de secção, há-os dos dois tipos. Os primeiros, os que se dedicam a ajudar o coletivo a obter sucesso, quantas vezes com sacrifício dos seus próprios interesses e vantagens pessoais, passam geralmente despercebidos. Não trabalham para se exibir, não procuram ser notados, e aceitam mesmo arcar com as responsabilidades do que corre mal às instituições que tutelam, tanto por solidariedade para com os demais, como por honestamente sentirem que quem dirige deve assumir as falhas. Já os segundos, pela sua natureza vaidosa e pouco honesta, encontram sempre um qualquer bode expiatório para as suas próprias falhas e incapacidades, ao mesmo tempo que procuram as luzes da ribalta a cada oportunidade de brilhar à custa de méritos alheios.

 

Os primeiros, os que são gente altruísta e solidária, dão mais que o que recebem, não procuram vantagens pessoais nos cargos de poder, e por isso sabem que o exercício de direção é para eles apenas uma desgastante e árdua tarefa que não tem mais compensação que a sensação do dever cumprido. Por norma têm ideais (que não as vantagens económicas, o prestígio pessoal, ou outra qualquer causa vil), e tentam implementar projetos com os quais desejam facilitar a vida dos colaboradores, aumentando a sua produtividade, e otimizando o serviço prestado à comunidade que servem. Como servidores públicos tentam realmente estar ao serviço da comunidade e nisso encontram orgulho e realização pessoal. Já os outros, os que procuram vantagens pessoais no serviço público, estão geralmente despidos de ideias inovadoras, de projetos de melhoria do serviço prestado à comunidade. São burocráticos, fazedores de regulamentos e grelhas, vivem a produzir projetos inúteis que serão realizados por terceiros, lhes dificultarão a vida e retirarão produtividade e ânimo. Brilham compilando relatórios feitos por outros, relatórios esses do trabalho também feito por outros, tentando granjear para si mesmos o prestígio daí resultante.

 

Os primeiros fomentam o espírito de equipa e criam relações de confiança, repartem responsabilidades e méritos. Atrás de uma boa equipa está quase sempre um bom líder, mesmo que discreto, mesmo que quase desconhecido. Este tipo de dirigente elogia o trabalho dos que o acompanham, e assim reforça as melhores práticas, criando espírito positivo no grupo. Os outros, os chefes do passado, procuram descobrir erros e insuficiências, e tentam ao apontá-los ganhar o ascendente que ninguém lhes dá por bons motivos. Tentam intimidar, acusam, perseguem, criam obrigações inatingíveis como forma de manter os outros em posição de fragilidade. Com tudo isto criam grupos desunidos, desinteressados com o bem comum, e em que cada um pretende apenas sobreviver mais um dia a um trabalho que se torna um tormento.

 

Os bons gestores, os que verdadeiramente sabem liderar e que procuram séria e consistentemente o sucesso das organizações, rodeiam-se dos mais capazes e competentes, sem receio que estes lhe façam sombra. Sabem respeitar opiniões divergentes, procuram potenciar em benefício do coletivo a crítica, sabem ouvir os outros e sabem criar e partilhar projetos comuns. Os dirigentes incapazes rodeiam-se de quem não lhes possa fazer sombra, estimulam a subserviência e tentam impor as suas opiniões sem ouvir ninguém. Só se ouvem a si próprios, etilizados pelo narcisismo doentio de que padecem. Assim se fizeram purgas, se criou (e se cria) o culto da personalidade em regimes autocráticos, sempre com vantagem para o dirigente, mas sempre com desvantagem para as organizações que dirige, quantas vezes povos inteiros.

 

Não será preciso dizer que o primeiro tipo de dirigente domina nas instituições bem-sucedidas e dos países mais desenvolvidos, dificilmente se deixa corromper, promove o desenvolvimento da sociedade onde se insere. São verdadeiros líderes, que pela natureza das relações que criam, inevitavelmente obtêm progresso, modernidade e sucesso para si e para os seus. Os dirigentes do segundo tipo são os herdeiros do velho caciquismo meridional, dos reizetes despóticos que controlavam pelo medo e tentavam fazer sobreviver as arcaicas relações sociais e laborais de outros tempos. São chefes temidos, mas muitas vezes odiados ou desprezados. Com eles o progresso é sempre difícil pela sua essência conservadora e quase autista. 

 

No mundo em acelerada mudança, numa fase em que começamos a sentir orgulho em nós próprios, e em que queremos cada vez mais trilhar os caminhos do progresso e do desenvolvimento, devemos entregar a direção das instituições a quem efetivamente saiba liderar com os olhos postos no futuro, e não mais aos tradicionais dirigentes do passado.

 

por Fernando Almeida