MIRADOIRO

Fotografia

O que se pode perder


Por:António Quaresma

2018-02-28
Tem-se assistido a alguma delapidação do património fotográfico, privado e oficial, do concelho

Hoje vou voltar à fotografia. Concretamente à fotografia antiga, a preto e branco, de paisagens, de cenas do trabalho ou do lazer, de acontecimentos marcantes, enfim de ambientes já desaparecidos. No que diz respeito ao litoral alentejano, Odemira, Sines, Santiago do Cacém, alguns fotógrafos, como Hidalgo Vilhena (Santiago), Higino Espada (Sines) e Policarpo Godinho (Santiago e Odemira), deixaram um assinalável espólio. Mas a maior parte da fotografia ainda existente é de amadores, muitas vezes anónimos.

 

No concelho de Odemira são conhecidos exemplares que remontam ao fim do século XIX, embora a maioria seja bastante mais recente. São quase todos positivos, mas também alguns negativos. Parte dessas fotos chegou até nós através de postais, muito utilizados desde o início do século XX, e de publicações como a Ilustração Portuguesa iniciada em 1903.

 

Recentemente as redes sociais descobriram a fotografia antiga e, no Facebook, surgem muitos exemplares, da mais variada origem. O problema está na escassa qualificação dos “descobridores” das fotos, que geralmente não se preocupam em citar a origem ou, quando o fazem, é frequentemente deturpada, além de que não as sabem contextualizar. Tudo muito “feicebuque”.

 

No caso do concelho de Odemira, faz falta uma instituição, de confiança, que tenha como missão a recolha, o tratamento e a salvaguarda deste precioso património. Quanto a mim, que integro a fotografia antiga nos estudos de história, tenho a preocupação de guardar cópias dos exemplares que vou encontrando. Estas e alguns originais que possuo serão imediatamente entregues a um serviço/instituição com responsabilidade para o efeito, logo que seja criado. Se isto não se verificar em breve, confiá-los-ei à Biblioteca Nacional.

 

Até hoje, tem-se assistido a alguma delapidação do património fotográfico, privado e oficial, do concelho. E não me refiro às perdas derivadas do desinteresse e do desconhecimento. Dou alguns exemplos, diversos, ilustrando com cópias que obtive antes do seu desaparecimento.

 

 

A foto n.º 1, que representa a Barbacã, em Milfontes, na década de 1930, faz parte de um conjunto, pertencente ao falecido Sr. Manuel Batista Brás, de Odemira, que uma metediça “comadre”, de Milfontes, subtraiu, sabe-se lá para quê, à sua viúva, D. Augusta; a n.º 2, foto aérea de Milfontes, ca. 1950, é de um pequeno conjunto pertencente ao, também já falecido, comandante Cabeçadas, cujos negativos, em vidro, acabaram abusivamente apropriados por alguém; e a n.º 3, de uma corrida de bicicleta, em Odemira, no dia 18 de Agosto de 1957, pertence a uma numerosa colecção de negativos e positivos, de Policarpo Godinho, que a Câmara de Odemira adquiriu ao fotógrafo, colecção que, desgraçadamente, acabou em casa de um desconhecido “apreciador”, que a ela teve acesso.

 

Mesmo que haja esperança de que ainda voltem a aparecer, é de temer que, pelo menos alguns destes negativos e positivos, estejam definitivamente perdidos, enquanto património local. Daí a necessidade da existência de um “centro”, onde este material possa ser recolhido, por doação ou empréstimo para digitalização, tratado, inventariado e colocado à disposição de estudiosos do património e do público em geral.

 

António Quaresma