ENCONTREI EM ODEMIRA

Liberdade com responsabilidade. E ecologia.


Por:Sara Serrão

2018-03-28
Este mês encontrei em Odemira Francisco Brion, 40 anos, empresário, pai de dois filhos

- Qual a sua ligação a este território?

 

Sou de Lisboa mas vivi em Inglaterra e chegou o dia em que eu e a minha mulher quisemos mudar-nos para Portugal para trabalhar com turismo. Um dia parámos em Odeceixe e sentimos qualquer coisa de muito especial. A partir daí tudo aconteceu, encontrámos a nossa terra aqui perto de São Teotónio, apegámo-nos e escolhemos este sítio para viver. Temos vindo a desenvolver um projecto sustentável chamado “A Terra” com tendas “tipis” e casas ecológicas, tentando produzir o máximo possível dos produtos que servimos. Cada uma das nossas casas está a ser feita com um material diferente - taipa, madeira, palha, pedra e pneus, todas as tendas são feitas por nós, com materiais locais, e apenas as telas vêm de fora. Tentamos utilizar tecnologias aplicadas à ecologia para reciclar materiais ou aquecer água. Por exemplo, as nossas casas de banho “secas”, ou de compostagem, têm como objectivo final  produzir composto para adubação natural. Para isso, utiliza-se estas casas de banho como qualquer outra casa de banho, colocando-se inclusive o papel higiénico, e acrescenta-se serradura, o que que irá retirar cheiros e acelerar o processo de compostagem. Posso afirmar que, apesar de requerer bastante mão de obra, é um sistema mais limpo do que aquele dito “normal” e, no final, devolvemos tudo à terra, fertilizando a floresta que temos vindo a enriquecer com espécies autóctones - não usamos esse composto na horta nem nas árvores de fruto. 

 

Além de ter uma vertente turística e económica, o que queremos mostrar neste projecto é que é possível viver de forma ecológica e sustentável, mas com conforto máximo. Temos tido visitas de escolas e jardins de infância de Vila Nova de Milfontes, Odemira e São Teotónio, e tivemos até um intercâmbio com escolas em Espanha. Já fizemos várias actividades ao nível da educação para a ecologia e queremos fazer ainda mais.

 

 

- O que tem esta terra de especial?

O que me agarra a esta terra é a sensação de liberdade que ainda se tem e que não existe nas grandes cidades. A principal razão para estar cá é haver espaço para criar uma família sem haver um foco constante na televisão, no controlo. Aqui consegue-se respirar.

 

 

- O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?

 

Considero esta região como um “oceano aberto”: há muitas oportunidades para trabalhar porque faltam trabalhadores em todas as áreas económicas que são desenvolvidas aqui. Temos a possibilidade de estar à frente a nível europeu em projectos de ecologia e sustentabilidade: temos sol, temos água, temos terra, temos tudo. Mas preocupam-me os fenómenos do petróleo na nossa costa, da agricultura e da floresta intensiva, perante uma aparente passividade. Penso que estes grandes negócios consomem os recursos da região e não lhe devolvem grande coisa; são na grande maioria empresas estrangeiras com mão de obra estrangeira, e desenvolvem actividade num território classificado como parque natural que neste momento é tudo menos um parque natural, é um mar de plástico. Não entendo como é que parece ser permitido tudo a estas iniciativas empresariais enquanto os pequenos projectos são sufocados com dificuldades e obrigações. Apesar disso, sente-se uma mudança no ar e as coisas podem mudar num bom sentido - existem muitas pessoas, nacionais e estrangeiras, que querem cá viver, dispostas a investir exactamente em projectos de sustentabilidade, ecologia e permacultura. A permacultura, tal como o nome indica, é um conceito que defende uma cultura permanente, depois de um planeamento adequado: 75% é design, 25% é manutenção, e tudo é cuidadosamente desenvolvido para colocar os recursos naturais – incluindo o ser humano - numa interligação e interajuda constantes, cada um desempenhando um papel de forma eficiente, equilibrada e harmoniosa. Cada planta ajuda outra planta e a água é canalizada de forma natural, de modo a que a intervenção humana seja a menor possível a partir do momento em que o sistema é implementado. Essa interacção natural e orgânica está sempre a funcionar num ciclo contínuo. Na realidade a permacultura não tem que ser aplicada apenas à agricultura, pode ser uma forma de organizar a sociedade com uma ética de dar e receber, num movimento constante, para deixarmos algo de valor às gerações seguintes. Quem está nesta região, como em qualquer parte do mundo e como na vida, não pode apenas tirar, tem que pensar em dar. No fundo, penso que a liberdade que ainda existe aqui, e que tem atraído novos povoadores, tem que ser usada com muita responsabilidade, porque qualidade de vida como a que temos não existe em mais lado nenhum.

 

#encontreiemodemira

 

“Encontrei em Odemira...” é uma rubrica do MERCÚRIO, (humildemente) inspirada no blogue “Humans of New York”, que pretendia na sua origem ser um “catálogo” exaustivo dos habitantes de Nova Iorque, com pequenos apontamentos das suas vidas, e que acabou por se tornar um projecto vibrante, abrangendo dezenas de países, com milhões de seguidores nas redes sociais e inúmeras causas filantrópicas. À nossa escala, esta nova secção tem o objectivo único de mostrar aos leitores a diversidade humana que habita hoje em Odemira, entre autóctones que sempre aqui viveram, forasteiros que escolheram este território para viver e até mesmo aqueles que vieram aqui parar quase ao acaso. A cada mês vamos encontrar habitantes de Odemira e colocar-lhes três questões:

  • Qual a sua ligação a este território?
  • O que tem esta terra de especial?
  • O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?

 

 

por Sara Serrão