MIRADOIRO

“Quem lhe dói o dente procura o barbeiro”

O barbeiro foi durante séculos um “profissional de saúde”


Por:António Quaresma

2018-03-28
Estava, outrora, sempre presente nas nossas vilas e aldeias e nos hospitais

O título desta crónica pode parecer estranho a muita gente, nestes tempos em que há médicos dentistas um pouco por todo o lado. Na realidade, trata-se de um ditado português, numa das suas variantes, que reflecte uma antiga relação dos barbeiros com a odontologia, situação de que eu próprio ainda conheci vestígios. O barbeiro foi durante séculos um “profissional de saúde”, reconhecido pela sociedade e pela “estrutura” hospitalar. Além de arrancar dentes, ele era especialista noutros “actos médicos”, como adiante será referido.

 

O exercício da medicina estava, em tempos não muito longínquos, entregue a uma variedade de práticos, que, de forma empírica, tratava os doentes. O “físico”, isto é, o médico, frequentemente não tinha formação escolar. Com a inclusão da medicina nos estudos universitários, os “licenciados médicos” tiveram que se impor contra muitos concorrentes. A universidade colaborou, concedendo-lhes o título de “doutor” (etimologicamente, “aquele que ensina”), um título prestigiado, mas que não tinha relação com a medicina, para os distinguir de todos os outros “médicos”, curandeiros, benzedores, etc. No entanto, os médicos judeus, que, em geral, eram mais capazes e preferidos, não tinham direito ao título, mas apenas ao de “mestre”, num ambiente socio-religioso penetrado pela obsessão da “limpeza de sangue”. Foi assim que a expressão “doutor” se “colou” socialmente à profissão de médico, até aos dias de hoje, não se podendo, porém, confundir com o grau de “doutor”, atribuído actualmente aos possuidores de formação universitária avançada.

 

A designação de “cirurgião”, era também exercida, frequentemente, por um prático, muitas vezes o barbeiro, o que só se alterou de forma significativa com a abertura em Portugal das Escolas Médico-Cirúrgicas, de Lisboa e Porto, no século XIX, no contexto da evolução das ciências, em geral, e da medicina, em particular. Os cirurgiões por elas formados tiveram, no entanto, de lutar contra o preconceito geral e dos próprios médicos existentes que não os consideravam seus iguais. Em Odemira, foi isso que aconteceu, quando chegaram os primeiros “cirurgiões médicos”, por meados do século XIX. Passado algum tempo, a cirurgia ganhou, como se sabe, prestígio, estando hoje integrada na socialmente conceituada profissão médica, onde se tornou uma especialização muito respeitada.

 

O nosso barbeiro – com as suas competências de dentista, sangrador e cirurgião –  perdeu então o seu espaço e o seu tempo. A pouco e pouco, os seus serviços foram ficando reservados para círculos sociais mais modestos, como se vê no óleo do pintor Leonardo Alenza y Nieto “El sacamuelas”.

 

Mas é interessante recordar que, como perito devidamente credenciado e autorizado, o barbeiro estava, outrora, sempre presente nas nossas vilas e aldeias e nos hospitais. Além, naturalmente, de cortar cabelos e fazer barbas, era chamado, sempre de lanceta bem afiada, a abrir uma veia para sangrar o paciente, a lancetar um abcesso purulento, a arrancar um dente cariado e doloroso, a aplicar sanguessugas num membro varicoso, enfim, o trabalho “sujo”, que, aliás, os médicos licenciados, que falavam latim e citavam Galeno, consideravam desonroso fazer.

 

por António Quaresma