PALAVRA DE PALHAÇO

Paragem divina

Decidi-me!


Por:Enano Torres

2018-03-28
André Maria da Silva (25 de Novembro de 1933) - 84 anos, trabalha no campo. 8 km de bicicleta

A maioria dos leitores não saberá quem ele é, mas muitos condutores habituais da estrada São Luís-Odemira vão reconhecê-lo. Há muitos anos que faço esse percurso (já agora: a estrada precisa de um bom arranjo). Quando passamos a ponte do Pego das Pias, seja de manhã, seja à tarde, podemos topar com ele e sua inseparável bicicleta. Numa qualquer curva, numa qualquer reta. Seja a subir ou a descer. Sem estarmos à espera, deparamo-nos com aquela imagem. Muitas vezes estamos a conduzir, a fazer contas à vida, a pensar nas tarefas diárias, recapitulando os últimos apontamentos para o teste que se tem a seguir, ouvindo música na rádio, ou simplesmente tirando macacos do nariz e o Universo presenteia-nos com esse momento, onde parece que o tempo para.

 

É curioso como uma imagem, um instante é capaz de poder mudar qualquer emoção, sentimento, pensamento, estado de ânimo. Ainda por cima, carregada de pureza, simplicidade, simbolismo que agradecemos à vida ter tido aquele encontro.

 

Fazer esta estrada e não encontrá-lo, é sinal de vazio. Posso dizer que faz parte da paisagem, da viagem, do percurso da minha vida nestas terras.

 

Por vezes encontro-o a pedalar, outras, a pé, levando com subtileza o seu estimado veiculo quando as cansadas pernas já não dão para mais, ou quando a chuva dificulta o caminho.

 

Foram centenas as vezes que me terei cruzado com ele mais a sua bicicleta. Por vezes transportava, à pendura, uma bela senhora com um lenço na cabeça e aquela imagem transformava-se num momento romântico. As suas fortes pernas pedalavam a bagagem da vida dos dois, até algum destino incerto. Talvez parassem no caminho para relembrar os primeiros beijos, nesse mesmo percurso, quando ainda eram jovens...

 

Confesso que há algum tempo não vejo a senhora. Francamente não desejo saber o que aconteceu. Gosto de imaginar que no regresso ao monte espera-o uma sopa quente e um amor partilhado.

 

Este senhor, sem saber, formou parte do meu universo imaginário, da minha família. Quem é? Onde vai? O que traz de volta? Por que já não viaja, junto a ele, essa senhora? Quantas viagens já fez com a sua bicicleta? Quantas situações de perigo já terá passado com malucos do volante?

 

Quando passava por ele, tinha vontade de parar o carro, descer e dar-lhe um abraço, mas nunca tive a coragem de soltar os meus desejos e seguia caminho.

 

Até que, na semana passada, cruzei-me com ele, como é hábito, inesperadamente. Eu, no caminho de volta de Odemira, ele, no sentido contrário. Logo a seguir a uma das curvas perigosas que existem. Cumprimentei-o, como de costume. Ele nunca reage pois está focado na estrada. Sorri para mim depois de o ver. Continuei e, passado 200 metros, pensei: “é hoje!”. Travei o carro e dei meia volta. Devagarinho, ultrapassei-o e, onde consegui encostar, fiquei à sua espera. Enquanto esperava, ficava cada vez mais ansioso por saber que ia acontecer algo que há tempo desejava e que apenas não o fiz por indecisão. Lá vinha ele, pausadamente. Desci do carro e pensei que, se ele parasse, tudo bem, senão, apenas acenaria, num gesto de cumprimento. Suas pedaladas eram constantes e, pouco a pouco, depois de me ver, começou a travar até parar junto a mim.

 

Cumprimentámo-nos “alentejanamente”. Não ia perguntar-lhe tudo o que desejaria saber, apenas iria deixá-lo falar. Aprendi isso nesta terra: ao alentejano tens que deixar ser ele mesmo, sem forçar nada... e assim foi e eu todo ouvidos.

 

Senti que ele tinha vontade de falar. Uma voz com 84 primaveras. Poderia transcrever, neste artigo, a nossa conversa mas não vou fazê-lo porque sinto que o melhor presente que se podem dar é quando se cruzarem com ele encostar o carro, parar e ouvir aquilo que ele tem para vos dizer.

 

E, se se lembrarem, digam-lhe que souberam dele através deste artigo pois, com certeza, vai ficar contente de saber.

 

Há pessoas que acreditam em Cristo, Buda, Mooji, até em coelhos da Páscoa. Eu por enquanto acredito nestes seres humildes, com sorrisos simples e olhos brilhantes que tanto têm para nos ensinar apenas a pedalar. Muito Obrigado pela sua existência, Sr. André Maria da Silva.

 

por Enano Torres