ENTREVISTA

A JUSTINO SANTOS

Médico

2018-03-28
Eleito presidente de câmara de Odemira, o primeiro depois da revolução de abril, no final de 1976

Justino Abreu dos Santos nasceu no Paúl do Mar, na Ilha da Madeira no ano de 1940. Formado em medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, durante a sua especialidade, muda-se para Odemira para fazer o Serviço Médico à Periferia. Foi eleito presidente de câmara de Odemira, o primeiro depois da revolução de abril, no final de 1976.

 

 

Quer falar um pouco sobre o seu passado?

Eu não gosto falar de mim. Zero, zero, zero. Uma pessoa quando fala de si ou se enaltece ou esquece coisas que até poderiam ser importantes dizer. Não gosto de falar de mim próprio. Os outros que falem. Digam o que quiserem, verdade ou não... mas eu não gosto de falar de mim.

 

 

Nem um enquadramento de como é que chegou ao concelho de Odemira?

 

Vim aqui parar em 1975 porque na altura, um grupo de médicos, defendíamos o Serviço Médico à Periferia (SMP), a obrigatoriedade dos médicos, tal como os juízes ou os professores, de serem colocados onde fazem mais falta. Normalmente, em medicina, as pessoas estabelecem-se onde têm os seus patronatos. Ficam lá nas cidades e depois a periferia, a província, fica sempre despovoada. Veja-se o que aconteceu quando acabaram com o SMP. A Ordem dos Médicos, na altura, opunha-se grandemente a isso, particularmente o Gentil Martins porque achava que os médicos não eram funcionários públicos. Eu não sei o que é que são, se não são funcionários públicos. Depois outra coisa, que ainda hoje se estabelece, era estarem duas ou três horas no hospital e o resto nas consultas particulares. É a própria falência da medicina relativamente à província. Veja-se quando há concursos de médicos para os hospitais que abrem três, quatro e cinco vezes sem as vagas serem preenchidas. A ideia era começar com os médicos de clínica geral para depois passar para as especialidades, esta questão da obrigatoriedade do SMP. Houve uma reunião magna, da Ordem dos Médicos da zona sul, onde participaram quatro mil e tal médicos para debater o SMP, que a Ordem não queria. O argumento era de que um grande número de médicos que estava no SMP, como era o meu caso, já estava na especialidade e os que estavam nesta situação já não iam para a província. “Vocês dizem aos mais novos para irem para fora mas vocês não vão”. Eu, sem pedir autorização a ninguém, passei ao passo seguinte (íamos andando à pancada! Foi uma reunião agressiva, nessa altura dos “ânimos exaltados”) “pois muito bem então fiquem sabendo que os médicos que estão aqui a defender o SMP vão fazê-lo”. E ganhámos por 11 votos. Por pouco perdíamos. Tempos mais tarde, o SNS tomou conta disso. A Ordem conseguiu, em 1981/82, a suspensão da obrigatoriedade do SMP. Eu por cá fiz um ano. Depois concorri à Câmara Municipal de Odemira (CMO) e lá fiquei 17 anos.

 

Porque é que eu vim para Odemira? Foram médicos para várias partes do país e eu e um grupo de colegas escolhemos Odemira porque era um concelho mais carenciado. Foi essa a ideia. Pensávamos que vínhamos uns seis meses. Quando fui para a Câmara, também pensei que não ficaria por lá muito tempo. Sempre que me refiro a Odemira refiro-me ao concelho, não à vila. Eu sou do concelho de Odemira e sou muitíssimo bem tratado, principescamente bem tratado.

 

 

Até tem algumas ruas com o seu nome.

 

Há uma em S. Luís, uma em S. Teotónio e uma em Santa Clara mas eu não dou muita importância a isso.

 

 

Está bem, mas faz parte desse carinho que as pessoas nutrem por si.

 

Pois, claro.

 

 

Quando chegou a Odemira estava tudo por fazer.

 

Havia nada feito. Nada, é uma força de expressão. Eletricidade, tinham as sedes de freguesia. Exceção feita à Zambujeira que também já tinha um pedacito. Águas, esgotos, eletricidade, estradas... nada feito. Nesta zona do interior de Odemira, S. Teotónio, Saboia... que é praticamente a área da ilha da Madeira, não tinham uma estrada, nem um telefone.

 

 

Não havia um telefone, sequer?

 

Zero. Não havia um telefone. Nada. Quando se conseguia um telefone, era uma maravilha. Passados dez anos os telemóveis estavam aí.

 

 

 

O Justino é comunista. O seu comunismo, na altura, era mais ortodoxo, alinhado com o Partido Comunista ou era um pouco mais “liberal”?

 

Eu tenho sido uma pessoa que sempre aceitou toda a gente, por educação familiar... Na minha família, tinha o meu pai que era um “salazaroso”, trezentos mil por cento, e tinha o irmão do meu pai, que era juiz, que era um antifascista mas o meu tio era elitista.

 

O meu pai, que era “salazaroso”, era perfeitamente socializante. O homem mais justo que conheci na minha vida foi o meu pai. Mais justo, mais humano, com um sentimento de lealdade e verticalidade para com as pessoas. Vivi sempre desta forma, numa casa grande, lá na minha terra.

 

Na base, tivemos sempre uma educação muito socializada. Hoje sinto um amor à minha terra natal como se fosse a capital do mundo.

 

Está-me a falar do comunismo mais ortodoxo ou outro. Há coisas que se transmitem que são muito erradas. Enquanto estive na CMO, o partido comunista sempre defendeu que o partido se associasse aos outros partidos, sempre defendeu que a CMO tentasse lidar com os outros partido metendo-os na política também.

 

 

Mas hoje é diferente.

 

As coisas mudaram mas penso que essa questão nunca foi alterada. Já pela minha educação... Tenho irmãos desde católicos, apostólicos, romanos até testemunhas de Jeová e mesmo agnósticos. Politicamente uns são de direita e outros de esquerda, portanto, isso foi sempre uma questão que fui admitindo e por essa razão fui sempre uma pessoa que nunca dividi as pessoas pelo seu partido. É evidente que fico muito satisfeito quando sinto alguém que tem ideias ideológicas e culturais iguais às minhas, com quem posso trocar impressões. Mas há pessoas que ideologicamente contrárias às minhas posições que admiro a sua construção mental. No fundo tem a ver com princípios. Fui sempre assim. Nunca deixei ninguém de fora.

 

 

As coisas mudaram. A minha pergunta era no sentido de saber, na sua opinião, se há comunismos mais ou menos ortodoxos.

 

Há. Um dos defeitos da União Soviética foi precisamente a falta de liberdade. E tinham umas ortodoxias perfeitamente tramadas. Eu sei que também era no tempo da Guerra Fria. Mas isso não justifica toda a falta de liberdade. Os povos da Europa de Leste, ex União Soviética, estão hoje na extrema-direita, como um comportamento por oposição à anterior política dos partidos.

 

Eu pretendi sempre o entendimento das pessoas. Descobrir sempre onde nos poderíamos encontrar nunca descobrir o que nos dividia porque isso era fácil de se fazer.

 

 

O PCP tem vindo a envelhecer e a reduzir os seus votantes.

 

É perfeitamente natural. Veja na televisão: quantos comentadores do PCP ou da esquerda, há. Na rádio, veja quantos comentadores há de direita e de esquerda. Nos jornais veja quantos jornais são de esquerda.

 

 

A impressão generalizada é a de que o jornalismo é mais de esquerda. Ou estou enganado?

 

Isso é um erro perfeito. É a extrema-direita que põe essa questão, aos comentadores e nos debates políticos. Veja se está lá alguém do PCP. Vão buscá-los a outros partidos mas não ao PCP.

 

 

Será conspiração?

 

Não há conspiração. É próprio do sistema que vai para aí. A própria juventude é levada pela propaganda. Não é por acaso que há para aí muitos socialistas e PSD, etc. As pessoas que pensam pela sua cabeça e que têm um raciocínio próprio são uma minoria. O resto é levado através do poder da televisão que bombardeia a torto e a direito as pessoas. Dizem que a “Venezuela é uma desgraça”. Não é que queira defender o anterior presidente, mas aquilo não estaria tão mal quanto isso. “O Chavez é uma desgraça”. Não! A média e a grande burguesia é que são contra aquilo porque nunca houve, na Venezuela, tanta liberdade como no tempo do Chavez. Claro que há corrupção. E na Europa? Pegue neste país à beira mal plantado e veja a corrupção e a quantidade de gente de colarinho que anda por aí. Quantos estão presos e quantos não estão mas que deveriam estar na cadeia? E não é por acaso. E a grande parte daquilo que está a acontecer agora é fundamentalmente devido a serem sempre os mesmos nos partidos políticos. Uns dizem que é mais verde outros dizem que é mais vermelho mas são sempre os mesmos. Depois aparece malta nova. Aparecem os “Podemos” em Espanha. Em Portugal aparecem outras organizações e em todos os outros países, precisamente porque esta sociedade não tem escape, está podre e leva as pessoas a esse sentimento. E mais, veja uma coisa simples: enquanto em casa as pessoas são educadas a não mentir, a serem leais e a dizer o que é verdade, veja o que acontece na política: há políticos que dizem de manhã uma coisa, à tarde já pode ser mentira. Mas em casa disseram-lhe para ele não mentir. Como até se safou, o pai e a mãe ficam vaidosos porque ele conseguiu convencer a população em geral. Portanto, isto é do próprio sistema. Isto tem de dar uma volta. Claro que quem esteve uma parte da vida noutros lados ou noutro tipo de sistema aborrece-se destas coisas e fica farto destas mentiras, da incapacidade da malta nova, das pessoas não raciocinarem.

 

Nunca gostei muito do Chavez porque era populista mas a base da sua política era boa. Eu também não gosto do Putin mas será que aquele rapaz se ia meter nesta alhada ou será que a Primeira-ministra inglesa quer desviar a atenção dos britânicos por causa do Brexit? Veja o que era o Sarkosy, que foi agora preso.

 

Ou um país, impressionante no aspeto literário, no aspeto literário e cultural, a Itália, onde provavelmente vai ganhar eleições, outra vez, o Berlusconi. Ouvi quem dissesse que na televisão vende-se tanto um sabonete como um presidente de república. Hoje a política é marketing. Nem mais, nem menos. Enganando as pessoas.

 

 

Há pouco dizia que na política eram sempre os mesmos. Quando terminou o seu último mandato, na altura, não havia ainda a lei de limitação de mandatos. Saiu porque quis?

 

Foi porque quis sair. A partir de certa altura o poder violenta. O poder é corrupto em todos os sentidos. A corrupção não é só económica. A corrupção pode ser intelectual, pode ser da própria pessoa. E a certa altura começamos a ver que começamos a perder a paciência por coisas que não têm razão para isso e a ver que nós é que temos sempre razão e os outros não e disse “alto lá!”.

 

 

Começava a desviar-se do seu caminho moral?

 

Exatamente. E por isso achei que devia sair. E saí.

 

 

É então da opinião que os políticos deveriam mudar mais vezes?

 

Sim. Mais vezes. Não para ser sempre a mesma coisa, mais do mesmo, mas para ter outras ideias, outros princípios e, fundamentalmente, saber ouvir. Há vinte anos ainda havia os “balhos” nos montes. Eu não ia aos “balhos” só para me verem lá, porque era campanha eleitoral, eu ia aos “balhos” fundamentalmente para dessacralizar a figura do Presidente da Câmara (como dessacralizo a figura do médico), ia lá porque as pessoas, quando me encontravam na rua ou noutro lugar, falavam cordialmente e com algum cuidado para não atingir sensibilidades, particularmente por eu ser presidente de câmara e particularmente por ser médico. As pessoas tinham uma certa inibição. Agora experimente meter em cima disso uns copos de cerveja ou alguns medronhos e veja como as pessoas já conversam e dizem tudo o que acham mal. Eu ia lá para ouvir e registava e corrigia os erros que poderiam existir e que, por acaso, existiam muitos.

 

 

Essa ida aos “balhos” não lhe traz à memória uma ida a um “balho” na Delfeira?

 

Na altura não havia passagem entre S. Teotónio e Choça. No regresso ficámos atascados no meio de uma lagoa. Tínhamos perguntado qual era o caminho indicado. Disseram-nos por ir pelo caminho de terra mais batida. Ora, como havia vários desvios para as casas das pessoas... À noite quem é que via o caminho mais batido? Fomos andando, de batida em batida, e atolámos a 4L e ficámos lá. Entretanto apareceu um senhor que tentou tirar a carrinha mas não conseguiu. Então, fomos a pé até S. Teotónio.

 

 

Como é que vê o tecido politico de Odemira nos dias de hoje?

 

Eu tenho uma opinião muito negativa desta câmara. Muito negativa. Principalmente deste mandato. Vivem afastados das pessoas. É o querem, podem e mandam. “Eu é que mando!”.

 

Houve um vereador usou um termo, a propósito de uma chamada de atenção que fiz e respondeu-me “eles habituam-se”. Mandam conforme querem e entendem. Vê-os aí, em alguma parte?

 

São muito opacos. Não têm nada de transparência. Uns dias antes das eleições aparecem muito nas comezainas, mas não as de convívio. É completamente diferente haver uma festa e uma pessoa ir lá e conviver. Não têm uma estrutura de desenvolvimento do concelho traçada. Não se sabe qual é. É tudo avulso.

 

Referem muito que o turismo se desenvolveu. O turismo no concelho de Odemira desenvolveu-se por indução da procura nacional do turismo, não foi por eles terem feito alguma coisa. As praias começaram a estar na moda e as pessoas vieram mais cá para abaixo. Mas ideias de base, coisas pensadas, estruturadas e com vistas de futuro e desenvolvimento não têm nada disso. Há estradas aí que eram fundamentais de se fazer. Projetos que vieram do meu tempo, que não foram feitas nessa altura porque não tínhamos dinheiro porque havia tantas outras coisas básicas para fazer. Agora, que há dinheiro, pouco se tem feito e nada está pensado. Fazem coisas fundamentalmente nas sedes de freguesia. Para as pessoas verem. Mesmo isso há muita coisa mal feita. Será que, para o desenvolvimento de Saboia, é tão importante o campo ter um relvado sintético? Mas será que em Saboia não há outras prioridades? O Orçamento Participativo: uma falácia perfeita! Participativo, porquê? Só participa, praticamente, quem tem internet. Quem mais precisa não tem internet. Um orçamento participativo faz-se em reunião com os moradores, no local, para saber as necessidades existentes. Essa é uma participação efetiva. Quantas pessoas teriam de ser transportadas para votarem? É uma heresia da democracia. Nas zonas urbanas até admito que possa ser assim mas a nível rural é um fingimento de que é democrático. Não me façam cócegas que eu não me rio.

 

 

Embora houvesse dias para receber as pessoas tinha a porta do seu gabinete sempre aberta. As pessoas entravam sempre que precisassem?

 

Sempre aberta. Não fechava a porta. Claro que havia momentos que eu não podia receber e pedia às pessoas para voltarem depois. Era no gabinete como era à minha porta, no café, ou nas ruas. Meia volta era abarcado por pessoas para resolver os problemas. Estava sempre disponível para ouvir as pessoas.

 

Hoje não. É preciso marcar reunião. É preciso marcar audiência para falar com um vereador ou com o Sr. Presidente. Não tem pé nem cabeça. É querer subir na escala social à custa de zero. Não querer fazer nada. Não ser incomodado? Acha que eu posso aprovar uma coisa destas? Não posso! Arrota-me a azia.

 

Revolta-me brincarem com as pessoas assim. Quanto tempo demora uma informação sobre as casas? O que sei é que há atraso do executivo relativamente às pretensões e às respostas que as pessoas querem. Eu quando quero uma consulta com um médico, não quero que ele marque para daqui a três meses. Se for possível que seja amanhã. As coisas são feitas para subirem na escala partidária e para não criar problemas aos de cima. “É um gajo manso”. Até lhes acenam com postos políticos. Acenam e dão-lhes. Há uns que ainda não os têm mas esperam vir a ter. É tudo uma teia de influências. É um sistema completamente burocrático. Não alinho nem suporto com esta forma de atuar. Tenho uma visão muito azeda desta câmara e uma visão muito negativa destas pessoas. Até se arrogam dizer que querem acabar com as ideologias. Quem não defende ideias, defende interesses. E eles estão lá apenas para defender os seus próprios interesses. Posso dar muitos exemplos disso.

 

 

Como Presidente de Câmara, foi responsável pela entrada do Município de Odemira na Área de Paisagem Protegida (APP), em 1988, hoje Parque Natural. Tinha consciência do que estava a fazer?

 

Quer o Ministério do Planeamento e da Administração do Território (na altura não havia Ministério do Ambiente), o Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, quer a Área Protegida eram completamente diferentes. É evidente que não queríamos que se construísse da mesma forma que se construía por todo o Algarve, mas não só, porque maiores crimes se fizeram no norte com construções em cima das dunas. Queríamos resistir a essas pressões e a proteção da natureza era fundamental. Quando foi feito a APP era no sentido de que aquilo que não recebêssemos do Fundo de Financiamento do Estado iríamos receber por compensação a termos restrições por sermos APP. Para arranjar as estradas, para colocar esgotos... para melhorar as condições das pessoas que cá estavam. 

 

 

Isso foi feito?

 

Não. Precisamente o contrário. Houve um ministro que, em duas semanas, reverteu completamente o sentido inicial. Os ecologistas também não queriam entregar isto aos presidentes de câmara. Houve erros. O que foi feito na altura com a APP foi uma profunda deslealdade para com as câmaras. Não se faz. Eu, contrariamente ao meu partido, defendo empreendimentos de alto luxo. Sobretudo nas zonas de Vila Nova de Milfontes ou Zambujeira porque subiria o nível de tudo o que envolve o turismo como o comércio e a restauração.

 

 

E hoje o que pensa do Parque Natural?

 

É mal governado! Mal orientado. São gente com pouca vontade. Parque e Câmara. Se eu estivesse num lugar desses iria saber onde é que nos poderíamos entender, onde é que isto poderia chegar.

 

 

Lembrando uma célebre frase, somos uma reserva de índios?

 

Não. O que revoltava era a “superioridade” dos senhores de Lisboa que queriam fazer querer que isto era para não tocar. Em África o racismo começava no prato de um restaurante.

 

 

A barragem e todo o Perímetro de Rega do Mira foi uma construção imensa para o concelho de Odemira.

 

Se não fosse a barragem, hoje estaríamos desgraçados. E isso deve-se a um homem por quem tenho grande estima e consideração que foi o Engenheiro Rafael Amaro da Costa que lutou enquanto Secretário de Estado contra todos os interesses do norte, que queria os investimentos todos para lá. E a visão dele, nessa altura? Hoje, a agricultura mais produtiva, está ali, na areia.

 

 

E como vê essa agricultura que hoje se faz em Odemira e todo o investimento que traz para a área de regadio?

 

É bom. Tirando o problema estético do plástico. Não sei como é que os solos são tratados mas também não me quero meter numa coisa que não conheço. Penso que dá emprego às pessoas. Agora não me digam o que o Presidente da Câmara diz que “em Odemira só não trabalha quem não quer”, que isso é uma frase que não sei onde é que ele foi buscar. O homem não tem vergonha? Se calhar cai bem nessa pequena burguesia rural que anda por aí.

 

 

Sei que é comunista mas que também passou pela Ação Católica. Ainda é católico?

 

Não. Isso é uma história engraçada. Fui católico, apostólico, romano. Ia à missa diária, com comunhão. Segundo reza, lá nos católicos, quem comungasse nove vezes seguidas não morria em pecado mortal e eu queria ter essa garantia de não ir para o inferno. Eu tinha uma grande admiração pelo Papa João XXIII que foi um homem fora de série. Quando estava em Coimbra, sensibilizou-me ver a indiferença do cónego lá da ação católica da sociedade diocesana de Coimbra, um reacionário de todo o tamanho. Mas o que mais me tocou, foi em África ver que a Igreja era totalmente racista, em toda a sua profundeza.

 

 

Hoje em dia é Ateu ou Agnóstico?

 

O Ateu pressupõe uma atitude mais militante. Talvez seja Agnóstico. Mas guardo com muito respeito a opinião dos outros. A minha cultura é católica, quer eu queira, quer não. Portanto, sinceramente, tenho que ter questões de estar relacionado com a religião católica, por exemplo, à sexta-feira, no tempo da quaresma, não como carne. Faz parte da tradição. É só por isso, mais nada.

 

 

Durante os seus mandatos houve duas obras em Vila Nova de Milfontes que causaram alguma polémica. Uma delas, os três apartamentos em frente ao Forte de S. Clemente.

 

Esse projeto foi discutido na Câmara e, tínhamos aí uma arquiteta, muito sensível (aliás, tivemos aqui belíssimos arquitetos), que apresentou o projeto e garantiu que esses prédios não passariam de um metro e meio de altura do caminho. Isso foi à Assembleia Municipal e foi aprovado. Ainda se gerou uma enorme discussão porque começou-se a dizer que o Vasco Gonçalves tinha comprado aquilo. Uma mentira daquelas descaradas, sem pés nem cabeça. O dono daquilo era um “reaça” do mais reacionário que se pode imaginar, ali do Cercal. O que é facto é que a arquiteta se enganou.

 

 

Mas foi construído na mesma.

 

Foi construído na mesma porque a Câmara já tinha dado parecer positivo e não queríamos voltar com a palavra atrás. E a Câmara não queria enfrentar um pedido de indemnização feito pelo proprietário.

 

 

E o “Monstro das Areias”, o edifício ao fundo, à direita, da Avenida Marginal, em cima das dunas?

 

Esse foi aprovado pela Câmara, pela Área de Paisagem Protegida, por todos. Aí não tivemos problemas nenhum mas que é um prédio mal feito é. Mas, posso-lhe dizer: foi feito por arquitetos (risos).

 

por Pedro Pinto Leite