OPINIÃO PÚBLICA

A Educação e a perpetuação do obsoleto

No Século XXI


Por:Fernando Almeida

2018-03-28
O dia em que as pessoas se rirão deste modo de ensinar e aprender que hoje usamos já não vem longe, e em muitos locais da Europa a nossa forma tradicional de ensinar é já considerada obsoleta e risível

Em tempos muito recuados, na Idade do Ferro, a leitura e a escrita devem ter sido comuns entre nós. Pode perceber-se isso pelas inscrições da chamada “escrita do sudoeste” que foram recolhidas em muitos locais do sul de Portugal. São pedras gravadas num alfabeto próprio que não podem de modo algum ser associadas a grandes cidades ou a santuários magníficos, mas antes a múltiplos locais do mundo rural. Sobraram as pedras, porque mais resistentes, mas a leitura e a escrita devem ter sido prática e capacidade generalizada da população local. A sua distribuição sugere que estariam junto a caminhos, no limite das bacias hidrográficas ou em outras fronteiras de territórios da época. Fosse como fosse, grande parte das pessoas desse tempo deviam saber ler e escrever, embora não saibamos como se processava a aprendizagem na época, nem o que se aprenderia na “escola” desse tempo para além da leitura e da escrita.

 

As invasões romanas, ao contrário daquilo que se costuma afirmar, não trouxeram progresso e prosperidade a todos os residentes, mas sobretudo aos próprios invasores romanos. Por isso o povo deixou de escrever na sua própria língua, e efetivamente deve mesmo ter deixado de escrever de todo. Com o passar dos tempos a escrita e a leitura passaram a ser ministrados apenas em latim, e é necessário que o Marquês de Pombal venha instituir a obrigação de o ensino se processar em português para que o conhecimento se torne mais acessível. Em todo o caso o analfabetismo seria esmagador, e só as elites estariam de posse dessa enorme vantagem que é a escrita. O povo continuava iletrado. De qualquer modo a função da escola era sobretudo a de reproduzir um conjunto de conceitos quase imutável, e por isso também não fazia grande falta ao funcionamento da sociedade e à sua evolução que as letras fossem do domínio comum.

 

A revolução industrial vem massificar a produção, o consumo, generalizar a imprensa e impor a leitura e a escrita como condição imprescindível ao desenvolvimento da economia e da sociedade. No século XX, um tanto por todo o mundo desenvolvido, nasceram escolas e o ensino cresceu em termos de cobertura geográfica dos territórios, de generalização a todas as classes sociais, e em número de anos de escolaridade a que os jovens eram obrigados. Em Portugal, na generalização da educação andou-se mal e sempre atrás dos demais países europeus. Ainda que tarde, o ensino acabou por se massificar, e esse processo, muito influenciado pela própria lógica de produção industrial, procurou criar um “produto” uniformizado capaz de servir a economia da época. Era pouco produtivo, por desperdiçar o potencial criativo diversificado dos alunos, mas servia os interesses do estado e da economia. A escola passou a ser uma “linha de montagem” de meninos e meninas, com conhecimento predefinido e invariável, especificado e previsto em planificações rígidas e programas imutáveis. Podia ruir a escola com um sismo, que o professor continuaria a falar do que tivesse previsto e planificado para aquela lição. A planificação rígida era a regra de ouro desta escola.

 

Mas as revoluções industriais do passado são precisamente isso: passado. O mundo hoje vive o que alguns chamam de “quarta revolução industrial”. O robot substitui cada vez mais o braço humano, as redes de todos os tipos multiplicam-se no planeta, mas as alterações climáticas já são uma realidade e não uma possibilidade. O mundo mudou depressa como nunca o tinha acontecido antes, e essa mudança vai continuar a ritmo exponencial. O conhecimento já não é propriedade do livro ou do professor. Está disponível, democraticamente distribuído por todos, e o aluno atento pode estar bem à frente do professor. Alguns professores entram em pânico, habituados a ser donos do saber, de um saber às vezes bafiento porque durante decénios andou encerrado em velhas sebentas. E esses, incapazes de se renovar a cada geração que passa, lutam desesperadamente para evitar a mudança inevitável e imparável. E tudo tende a continuar como antes.

 

Mas o dia em que as pessoas se rirão deste modo de ensinar e aprender que hoje usamos já não vem longe, e em muitos locais da Europa a nossa forma tradicional de ensinar é já considerada obsoleta e risível. “Que pobreza”, dirão no futuro os que olharem para o nosso presente, e pensarão: “como era possível que pretendessem ensinar a uma criança de treze anos o que é uma analepse? E como eram tão pouco inteligentes que achavam que o desprezo das crianças e jovens por esse tipo de saberes era problema das crianças e jovens e não daquilo que à força lhes queriam ensinar? Como poderiam retirar por completo da educação o interesse, a motivação, e a utilidade prática daquilo que se aprende? Será que também ensinavam os próprios filhos com base numa planificação imutável, e também os avaliavam com recurso a testes escritos?”. E já os sinto, no futuro, a comentar uns com os outros a nossa estreiteza de vistas.

 

E eu, para que conste, e para que me possam vir a fazer justiça no futuro, escrevo estas linhas declarando formalmente a rejeição que sinto por esta aberração que mantemos até aos nossos dias. Sei que muitos outros o sentem, mesmo que não o escrevam. Tal como eu estão presos numa teia de interesses e incapacidades que os impede de fazer mais e melhor. Que o futuro também lhes faça justiça, mas que a realidade mude com urgência.

 

por Fernando Almeida