EDITORIAL

O braço de Ferro

Descubra as diferenças


Por:Pedro Pinto Leite

Ilustração: EMA FALCÃO
2018-04-24
Os ‘ícones da Nação estadonovista’ identificados e utilizados pelo diretor do SPN continuam a ser os mesmos, ainda que revestidos de uma roupagem de acordo com os gostos, as cores e as linhas estéticas deste século

António Ferro foi o homem responsável pela política cultural e de propaganda do Estado Novo, denominada “Política do Espírito”.

 

Nasce em 1895, numa família da pequena burguesia de Lisboa. Frequenta o curso de Direito na Universidade de Lisboa. Convive intensamente com Mário de Sá Carneiro, Fernando Pessoa, Alfredo Guisado e Almada Negreiros. Fascina-se por Sidónio Pais. Escritor e poeta ‘controverso’ e fora do seu tempo. Crítico de teatro, jornalista e editor. Morre no ano de 1956.

 

De 1933 a 1949, dirige o Secretariado Nacional de Propaganda (SPN) - transformado no Secretariado Nacional, Cultura Popular e Turismo (SNI), em 1944 - que culminou com a Exposição do Mundo Português em 1940 onde o “povo português é representado em todos os seus aspetos: nos seus costumes, no pitoresco da sua vida, na superstição dos seus anseios, na riqueza dos seus contrastes, na ingenuidade colorida da sua crença, no embelezamento da casa, do trabalho e da alma”. (Luís Chaves)

 

António Ferro escreveu várias peças de teatro mas foi na encenação (do território nacional) que mais se destacou. Idealizava um Portugal como deveria ser, um faz de conta onde tudo corria bem e passava bem essa ideia. O postal turístico que não mostra a realidade. Divide os portugueses em povo e intelectuais, entre o campo e a cidade, valoriza as tradições, o artesanato e o folclore.

 

“Ferro (fascinante por um lado e detestável pelo outro) é um manipulador da comunicação, um falsificador de hábitos e costumes, um inventor de tradições (...) introduz um quarto ‘f’, de folclore, aos três ‘f’ de Salazar - Fátima, futebol e fado. (Orlando Raimundo)

 

 “Fragmentos de memórias locais são criação de tradições centenárias. A confusão entre o falso e o autêntico era total. A promoção da cultura erudita junto do povo, foi neste contexto limitadíssima, pois a mesma correspondia a um desvio à integração do povo numa cultura popular que se lhe apresentava como exaltante”. (Carlos Fontes)

 

O programa da “Política do Espírito” usava as artes ao serviço da ditadura e a cultura como meio de propaganda e instrumento de controlo social; uma cultura nacional e popular com base nos ideais do regime; uma cultura simples que distraísse o povo, que o não fizesse pensar naquilo que não lhe dizia respeito. Era essencial mantê-lo “entretido” e ocupado nos tempos livres, para que não constituísse uma ameaça ao regime.

 

António Ferro é fundador do Museu de Arte Popular (“Museu do Povo”), da Sociedade Portuguesa de Autores, da Cinemateca, das Pousadas de Portugal, do Círculo Eça de Queiroz, da Companhia de Bailados Verde Gaio.

 

Cria e promove iniciativas como a Campanha do Bom Gosto, o Teatro do Povo, o Concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, as Marchas Populares, o Concurso de Montras em Lisboa, o Concurso das Janelas Floridas e o Concurso de Estações (caminhos de ferro) Floridas, o Concurso das Praias do Norte de Portugal, Concurso do Passeio Ideal, o Primeiro Concurso da Cozinha Regional. (re)inventa o Galo de Barcelos, as danças folclóricas, os trajes, as casas.

 

A sua influência estende-se à Fundação Nacional pela Alegria no Trabalho, ao Comissariado Nacional do Emprego, à Junta Nacional de Educação, à Mocidade Portuguesa e à Emissora Nacional (nomeado Presidente) e ao controlo da censura e da imprensa e de tudo o que era rádio, teatro e cinema.

 

Vê no turismo um instrumento privilegiado de promoção e de propaganda do regime, de manutenção da ordem interna e de consenso nacional. Projeta uma imagem de Portugal, para os estrangeiros, de um país tranquilo, seguro, onde passado e presente conviviam harmoniosamente.

 

As Pousadas de Portugal, um conceito avançado de Turismo Rural, têm a arquitetura e a decoração da região “mantém o pitoresco porque os citadinos se sentem bem na tranquilidade imóvel do campo (...) o turista apenas se move para visitar um determinado país, se ele apresenta suficientes motivos de atração, desde a paisagem às instalações hoteleiras, à arte, à etnografia e ao folclore”. (A. Ferro)

 

“O poder latente no discurso salazarista ainda hoje persiste, em alguns setores da sociedade portuguesa, pelo excesso de ideologia que contaminou, ao longo de décadas, toda e qualquer prática política”. (João Carlos Martins)

 

Até onde chega o braço de Ferro?

 

Hoje, a cultura erudita continua limitadíssima. Comemora-se o 25 de abril com bandas populares e festivais de ranchos folclóricos. As praias, as aldeias e a gastronomia estão, outra vez, a concurso. Vende-se Portugal, aos turistas, como um país pitoresco, tranquilo, seguro, de contrastes e de tradições.

 

“Os ‘ícones da Nação estadonovista’ identificados e utilizados pelo diretor do SPN continuam a ser os mesmos, ainda que revestidos de uma roupagem de acordo com os gostos, as cores e as linhas estéticas deste século”. (Carla Ribeiro)

 

 “Todos os dias, durante meses, crianças, jovens e adultos entregam-se de alma e coração à criação e ao ensaio das coreografias e canções, e à preparação de trajes e arcos que representam o seu bairro, o seu orgulho. Na noite de 12 de junho, a Avenida e a cidade enchem-se de música, cor, brilho e emoção, naquela que é para muitos a noite mais esperada do ano”. (in sítio da EGAC – CM de Lisboa acerca das Marchas Populares).

 

por Pedro Pinto Leite