DE QUEM É O OLHAR

Mobilidade

O nosso querido automóvel


Por:Monika Dresing

Fotografia: Raybay (unsplash)
2018-04-24
Com tantos meios tecnológicos que o Homem tem nas mãos, não será capaz de desenvolver um modelo de trânsito que sirva todas as necessidades, não se baseando no conceito do automóvel individual?

Às vezes vêem-se fotografias e filmes feitos há cem anos que mostram ruas e avenidas, em grandes cidades ou vilas pequenas. Podemos ver as pessoas a andar em todo o lado e não apenas nos passeios que, aliás, em muitos casos nem existiam. Vemos também veículos de transporte, uns puxados por cavalos, outros já com motor. Vemos os prédios, do rés-do-chão até ao telhado, sem que o piso inferior estivesse tapado por automóveis estacionados. Conseguimos ficar com uma ideia do aspecto urbano. Os filmes daquela altura ainda não tinham som, senão podíamos reparar que não existia o barulho permanente de fundo, barulho que hoje em dia se ouve em todas as cidades e que provoca um certo nervosismo, impedindo que se sinta a tranquilidade que os filmes antigos parecem emitir.

 

Agora imaginem as pessoas que daqui a cem anos vêem filmes feitos agora, filmes que mostram filas intermináveis de automóveis, dentro e fora das cidades, grandes máquinas de metal, muitas vezes com apenas uma pessoa no interior. Às vezes, sempre a determinadas horas do dia, estas máquinas ficam paradas durante minutos ou até horas. As pessoas dentro das máquinas perdem horas e horas em que poderiam gozar a vida. O que vão pensar estes espectadores do futuro? Vão duvidar da nossa saúde mental? Em Munique, por exemplo, dentro da cidade, os automobilistas ficam parados em média durante 51 horas por ano, ou seja, mais do que uma semana de trabalho. Cidade “vencedora”, no entanto, é Los Angeles com 102 horas por ano! Os futuros espectadores vão ver os números dos acidentes rodoviários, com tantos mortos e feridos, e vão ficar ainda mais incrédulos.

 

Actualmente, as discussões sobre a utilização de automóveis e outros meios de transporte concentram-se quase sempre na poluição e os efeitos negativos para a saúde, para o meio ambiente e até para o planeta, ou melhor, para a vida humana no planeta. Sabemos que as emissões de CO2, NOx e as micropartículas têm efeitos nefastos e devem ser reduzidas drasticamente. Sem dúvida, as alterações climáticas são um dos maiores problemas que temos à nossa frente. Neste contexto, os carros eléctricos e híbridos são apresentados como a solução adequada. Mas além do facto de que também estes carros contribuem para a degradação do meio ambiente através do seu fabrico, da produção da electricidade necessária para o funcionamento do motor e do simples andamento que produz as perigosas micropartículas, eles não resolvem o problema da sobrelotação das ruas e estradas, nem o problema dos acidentes rodoviários. A promoção destes carros parece antes visar um bom negócio para a indústria automóvel que com pequenas alterações na produção conseguiria continuar a obter lucros enormes.

 

Há cem anos, quando os automóveis começaram a entrar no mercado, foram tomadas decisões que determinaram todo o desenvolvimento futuro do trânsito e das respectivas infra-estruturas. Os investimentos nas vias férreas foram drasticamente reduzidos, os investimentos nas estradas começaram a explodir. A emergente indústria automóvel já tinha bastante influência. Pelo menos até aos anos setenta/oitenta do século passado todos os investimentos nesta área tinham como objectivo principal, senão único, o melhoramento das condições para os automobilistas. Só mais tarde entraram na discussão outros argumentos: segurança dos transeuntes, bem-estar, tranquilidade e, no fim, poluição. Mas já era bastante tarde, o conceito de que só por automóveis individuais se conseguiria obter a mobilidade desejada já se tomava como facto natural que não se podia pôr em causa.

 

O homem que já conseguiu chegar à lua (isto foi há 50 anos com uma tecnologia que hoje se encontra em qualquer telemóvel…), com tantos meios tecnológicos que tem nas mãos, não será capaz de desenvolver um modelo de trânsito que sirva todas as necessidades, não se baseando no conceito do automóvel individual? É uma tarefa urgente!

 

por Monika Dresing