Fora de linha

Entre quatro paredes

Os casos de abandono e isolamento social

2018-04-24
O Alentejo Litoral é a região com a taxa mais elevada de suicídios, em Portugal. A solidão continua a ser um dos principais problemas que afeta a maioria dos idosos, no concelho de Odemira

As pessoas estão cada vez mais conectadas através das redes sociais, a acompanhar a vida uns dos outros, sem refletir sobre a sua própria rotina. Atualmente, a maior parte das pessoas não tem tempo para descansar, apreciar os momentos, conviver e dar atenção à família. Esta é uma realidade que não escolhe idades e pode ocorrer a qualquer um, por diversos motivos. Segundo os últimos dados recolhidos pela GNR, no âmbito da Operação Censos Sénior 2017, existem 45 516 idosos a viverem sozinhos ou isolados em Portugal.

 

Muitos vivem em zonas rurais, sem uma ampla rede de contactos a nível social e com um fraco desenvolvimento no que respeita aos cuidados de saúde. O isolamento aumenta a mortalidade e origina depressões.

 

O Alentejo é conhecido por ser a região com mais casos de solidão. Os censos de 2011 indicam que existem 757 302 indivíduos e que a população continua a ser mais envelhecida, com taxas de suicídio elevadas a nível nacional, no concelho de Odemira.

 

Os dias costumam ser luminosos e árduos para quem trabalha no campo. Com o passar do tempo, os filhos crescem e vão construindo o seu caminho fora de casa. Já os pais anseiam por uma visita, que por mais curta que seja, significa carinho e uma dúzia de palavras.

 

Os mais velhos sabem que as coisas não vão ser como antes, porque o seu regresso não tem hora nem data marcadas.

 

A cada esquina, a história tem tendência para repetir-se. De acordo com o Comando Territorial de Beja da GNR, 102 idosos puseram fim à vida, entre 2003 e 2016. Este fenómeno só poderá vir a diminuir quando os profissionais entenderem que há que tomar uma atitude e atuar através de medidas de suporte.

 

Outros fatores como a pobreza e a violência doméstica contribuem para a acumulação de tristeza, o que contradiz a necessidade do ser humano estar integrado e ser valorizado. A evolução tem sido uma constante num mundo em que só se considera quem não está na reforma. Poucos são os que trabalham em prol dos idosos, com o objetivo de proporcionar uma melhor qualidade de vida. Os hospitais e os lares estão repletos de pessoas que se sentem sós, com uma autonomia reduzida, inclusive nas atividades relacionadas com a higiene diária e alimentação.

 

No entanto, o Alentejo também é conhecido pelos casos de viuvez, que são cada vez mais frequentes. A perda e a aceitação do sucedido levam alguns anos a passar e por vezes, a solução é determinada mais cedo.

 

Neste sentido, torna-se mais fácil entender o motivo pelo qual se registam tantas situações deste tipo numa única região de Portugal. Os idosos não podem continuar a ser vistos como um fardo que assim que não forem capazes de contribuir mais para a sociedade, só lhes resta aguardar por um caminho, o do abandono.

 

Existe uma certa dificuldade em estabelecer prioridades e esquecer os objetivos a alcançar no mundo laboral. Um dia vamos deixar de ser jovens e quando esse momento chegar, também todos gostaríamos de ser tratados com igualdade e atenção. Os conhecimentos e a experiência de vida que o ser humano adquire não desaparece apenas porque já não se tem 20 anos.

 

O apoio familiar e o trabalho das organizações e associações locais são determinantes no desenvolvimento de iniciativas, que garantam a continuidade da existência de princípios e valores, em nome da dignidade de cada pessoa. É necessário ter a capacidade de olhar pela janela, estar atento ao que rodeia, porque meros desabafos podem corresponder a sinais.

 

Viver significa integrar, partilhar e pensar em comum de forma a cruzar ações que criem oportunidades para todos. Quando não resta mais nada, a esperança perde-se e já não se acredita. A solidão não tem de ser eterna...

 

Os dados e as estatísticas são preocupantes. Cerca de 40% da população portuguesa com mais de 65 anos costuma estar sozinha durante 8 horas ou mais por dia.

 

Casos de abandono que não podem ganhar expressão e só podem ser combatidos através de medidas concretas. As universidades portuguesas já estão a começar a apostar em formação na área da gerontologia, demonstrando-se uma preocupação em criar profissionais competentes que saibam como agir perante as necessidades físicas, emocionais e sociais, típicas na terceira idade.

 

por Filipa Murta