VINHOS

Adega dos Nascedios

Produção de vinho

2018-04-24
Vinho Encosta da Fornalha

Fornalhas Novas é a primeira localidade que se encontra ao pé da estrada quando se entra no concelho de Odemira pela N262 (ou a última quando se sai). Tem apenas 5 ruas. Assim que se chega, logo depois da escola, vira-se na primeira à esquerda e desemboca-se na Adega dos Nascedios, a adega onde são transformadas as uvas do monte com o mesmo nome, em vinho, o Fornalha, o Encosta da Fornalha e o Anima de Fornalhas.O simpático Spot, o cão “de serviço” dá o sinal de aviso ao seu dono, Luís Ribeiro, o perfeito anfitrião

 

Luís tem 53 anos, é natural de Torres Vedras, casado e pai de 3 filhos. Vive no Monte dos Nascedios desde 1989. “Eu sempre gostei do Alentejo, especialmente aqui do litoral”, conta. A oportunidade de comprar a propriedade surgiu quando Luís e a esposa Elisabete estavam a fazer uma especialização em agricultura. A ideia inicial era a de criar algum gado e produzir uva de mesa. “Existe a ideia de que o Alentejo tem muito espaço aberto, bom para criar gado”. No monte não existia nenhuma cultura de vinhas. “Começamos por plantar uma vinha de uva de mesa com cerca de sete hectares”. Quando Luís se apercebeu de que as suas uvas eram “tão boas, tão doces e com uma maturação excelente” realizou que ali se poderia produzir um bom vinho.

 

“Não foi  por acaso que começamos a vinha”, revela. Em Torres Vedras Luís já tinha algumas vinhas e trabalhado nelas também com o seu pai e com o seu sogro. Ficou o sonho de produzir o seu próprio vinho, e a sua experiência fê-lo ver que o clima e o solo de Fornalhas tinham potencial para a produção de vinho de qualidade.

 

“Esta zona faz o casamento entre a influência da humidade do litoral com o interior seco do Alentejo. Tem a vantagem de não ser demasiado seco nem ter tanta humidade. Também nesta zona, em relação ao Oeste, é muito mais fácil de tratar a vinha.

Conseguem-se melhores maturações. O tempo quente, a temperatura relativamente alta, e a ausência de chuva na altura da colheita têm sido um fator importante.”

 

 

A EXPLORAÇÃO

 

O Monte dos Nascedios tem cerca de trinta hectares. Luís arrenda mais duas parcelas com cerca de dezoito hectares cada uma para a sua exploração de gado bovino. “Tenho quarenta cabeças de ‘limousine’. Não quero ter muitas para que elas tenham pasto suficiente e assim mantemos o campo limpo e equilibrado”.

 

A Adega dos Nascedios é uma exploração familiar. Para além da família, trabalha uma pessoa o ano inteiro e cerca de dez pessoas, em trabalho sazonal, para podar, fazer a empa, atar e plantar a vinha. A plantação de vinho começou com quatro hectares e foi crescendo até aos 15 hectares de hoje.

 

“Fomos aumentando porque fomos vendo que o vinho tinha saída”, diz Luís.

 

Parte da vinha foi enxertada na existente mas a restante foi plantada.

 

“Aqui fazemos o ciclo todo da vinha, desde a plantação até à transformação e à colocação no mercado. Somos vitivinicultores”.

 

“Na altura não pensei fazer logo a adega mas acabei mesmo por fazê-la. Foi um investimento considerável porque a parte da transformação exige muito. Transformei alguns dos pavilhões da pecuária antiga que existia aqui e recuperámos um outro. Felizmente conseguimos dominar bem essa tarefa”, conta.

 

Luís não tem pressa de fazer crescer a produção. “Uma área assim controla-se mais facilmente e mantemos a sensibilidade para o vinho e faço isto pelo prazer de produzir bem e com gosto”, confidencia.

 

Luís pretende aumentar a adega para poder receber melhor os cliente que a visitam. “Cada vez mais há a cultura do vinho, mesmo nas camadas mais jovens, portugueses e estrangeiros. As pessoas gostam dos pequenos produtores pela proximidade. Querem saber tudo acerca da nossa produção, e querem estar um bocadinho a provar o vinho. As adegas estão a transformar-se em lugares de visita e de comunicação da cultura local”. Por esse motivo a ideia é fazer uma sala de provas maior e um terraço por cima para se poder provar o vinho com vista para a vinha.

 

Há ainda a intenção de, no futuro, criar ali uma pequena unidade hoteleira. “Mas por enquanto ainda não. Preciso de ajuda e os meus filhos ainda estão a estudar”.

 

 

O SOLO

 

“Estes terrenos não são muito férteis o que é bom porque obrigam a vinha a ter de ir para baixo à procura dos minerais e a desenvolver bem o sistema radicular. São terrenos franco argilo arenosos mas com calhau rolado (nuns lados menores, noutros maiores) o que é diferente de terrenos muito férteis”. Explica Luís.

 

Toda a vinha é de regadio. A rega é feita com sistema gota a gota. “O investimento é maior mas é necessário, nos primeiros quatro anos, para as plantas poderem vingar e depois para dar suporte até à maturação das uvas”.

 

A água vem da Ribeira da Gema, um afluente do Rio Sado e de uma barragem feita por Luís junto à vinha. “A área é pequena mas tem cerca de oito metros de profundidade”.

 

 

OS TALHÕES

 

Na vinha do Monte dos Nascedios faz-se o ciclo todo. A plantação é realizada com o bacelo já enxertado com o porta enxertos, com as castas bem definidas, que vêm dos viveiristas certificados, e bem separadas por talhões. “Isso tem interesse para podermos fazer a colheita por casta, podermos escolher cada variedade separada e fazermos os “blends” (misturas) à medida das necessidades e até para podermos fazer um vinho monocasta”.

 

“Normalmente a formação da nossa vinha tem entre setenta e oitenta centímetros do chão, que é uma altura ideal porque não puxa muito pela planta mas que, de certa forma, deixa-a arejar, correr o ar por baixo, e isso ajuda a que não tenha tantos problemas fitossanitários como o oídio, o míldio, a botrytis...”.

 

Os talhões são divididos em onze castas diferentes: quatro de uva branca – Antão Vaz, Arinto, Alvarinho e Viognier – e sete de uva tinta – Trincadeira, Touriga Nacional, Aragonês, Cabernet Sauvignon, Castelão, Alicante Bouschet e Syrah.

 

“O Alvarinho nesta zona não é muito vulgar mas foi uma experiência que quisemos fazer com a ajuda do nosso enólogo. Foi uma experiência muito boa! Não tem nada a ver com o Alvarinho do norte que é vinho verde. Tem baixas produções mas tem muita qualidade, é um vinho aromático”. O Arinto é já uma casta muito utilizada no Alentejo. “O Viognier também foi uma experiência que resultou com muita qualidade”.

 

Nos tintos a base dos vinhos da Adega dos Nascedios é Aragonês, com cerca de 40%. “Depois vem o Cabernet, a Touriga Nacional e o Alicante Bouschet que é uma casta com a qual se consegue obter uma boa qualidade no vinho, para além de ser uma casta muito generosa na produção”, explica Luís, “numa zona alta, onde haja competição do solo e agressividade do clima, o Alicante Bouschet concentra na cor e nos aromas”. Luís confidenciou que pretende, um dia, fazer um vinho monocasta de Alicante Bouschet.

 

 

OS TRATAMENTOS

 

Luís considera o seu vinho “quase biológico” pois a produção é feita em modo de “produção integrada”.

 

O míldio e o oídio são mais comuns em zonas mais húmidas. “Aqui nota-se às vezes, ao fim do dia, chegar alguma humidade mas é diferente de estar no litoral, que tem as suas vantagens mas também tem a questão dos fungos que atacam a vinha e a consequente aplicação de fitossanitários”.

 

Os solos do Monte dos Nascedios são bem drenados e não retêm muita água à superfície (encostas). O ambiente é um pouco seco e as carreiras são largas para um bom arejamento.

 

Para desinfetar a vinha e afastar os ácaros é utilizado enxofre, produto autorizado na agricultura biológica.

 

“Normalmente fazemos uma desinfeção apenas com enxofre e só em anos muito controversos, atípicos em que haja uma persistência muito grande de chuva, de calor e de humidade é que fazemos mais tratamentos contra o míldio, mas é raro e aplicamos sempre o mínimo necessário”, informa Luís.

 

O enxofre não é um produto sistémico, não entra na planta, não deixa marcas.

 

A fertilização das plantas é feita com o estrume do gado da exploração do Monte das Fornalhas. Por vezes, para ajudar a controlar as infestantes, o gado e os dois cavalos de Luís são colocados dentro da vinha, na altura do repouso vegetativo, desde as primeiras ervas até à rebentação. “Os animais andam linha acima, linha abaixo e vão controlando as infestantes e largando matéria orgânica. É um bom equilíbrio. Temos também uma escavadeira mecânica para limpar por debaixo da vinha e assim evitamos os glifosatos.

 

 

A UVA

 

Segundo Luís, para se fazer um bom vinho é necessária boa fruta. “A uva, em si, é fundamental”. Depois de fazer uma boa maturação, estar bem arejada para a manter em condições, o principal, é colhê-la com todo o cuidado nas horas mais frescas ao nascer do sol, e transportá-la logo para a cuba que já se encontra à temperatura ideal, para não haver degradação nem oxidação. “O segredo de um bom vinho também está na colheita ser realizada o mais rápido possível numa altura o mais fresca possível e no momento de se esmagar a uva e quando se dá o início da fermentação, não haver oxidação e, depois, controlar a temperatura”, revela.

 

A Adega dos Nascedios encontra-se mesmo junto à vinha, o que faz com que a uva chegue lá cinco minutos após a sua colheita.

 

Parte da colheita é feita mecanicamente, durante a noite ou de madrugada , até às nove ou dez horas, quando ainda não há calor. Quando a uva de alguma casta, em determinadas zonas, está melhor que outras, a colheita é feita manualmente para se fazer o vinho de colheita selecionada e reserva. “As maturações da uva aqui são muito boas e não há grandes diferenças entre os cachos, o que contribui muito para se conseguir fazer um vinho com muita qualidade, e não deixar que haja o mínimo de oxidação. Isto é mesmo o ponto número um”, explica Luís.

 

A orientação das plantas também ajuda à boa maturação da uva. Para isso, é importante proteger a uva do sol. No Monte dos Nascedios as plantas estão orientadas no sentido norte-sul. “De manhã o sol incide sobre um dos lados, ao meio dia está por cima e a uva é protegida pela vegetação, eliminando alguma tendência de escaldão e ao fim da tarde o sol, já com os raios mais oblíquos, incide mais sobre o outro lado. O vento aqui não tem muita influência. O mais importante é proteger a uva da incidência do sol”.

 

 

O VINHO

 

A vinha do Monte dos Nascedios produz anualmente uva para uma média de oitenta mil litros de vinho. “Se for tudo engarrafado já é um volume considerável”, informa Luís.

 

Uma adega tem de ter os dois vinhos, o tinto e o branco. “É quase obrigatório”, diz, “oitenta por cento dos clientes procuram tinto mas cada vez mais se procura o branco, sobretudo na época do calor”.

 

Para Luís, fazer um bom vinho branco é muito mais difícil que fazer um bom vinho tinto, tem de se ter cuidado redobrado com a oxidação para que o vinho fique cristalino, limpo e fresco. “Há que ter muito cuidado a produzi-lo. Por acaso, ultimamente, temos tido uns brancos muito bons”.

 

Os vinhos da Adega dos Nascedios, são:

 

Fornalha – Branco e tinto. Uma parte do vinho é embalada em “bag in box” (vinho numa bolsa plástica dentro de uma caixa de cartão) “para aquele cliente que quer um vinho mais acessível”. É um vinho da última colheita.

 

Há a ideia generalizada de que o vinho em “bag in box” é de qualidade inferior mas Luís garante que, no seu caso e noutros também, não é verdade.

 

Encosta da Fornalha – Tinto Regional e Branco Regional. “Consideramo-lo como um vinho alentejano mais básico, ou seja, um vinho bem feito, frutado, agradável e sem defeitos”. Tem o custo ao público de €4,50. Pela sua qualidade, é um vinho que poderia ser mais caro. “Mas temos que ter vinhos acessíveis e concorrentes no mercado para chegarmos a toda a gente”, explica Luís.

 

Encosta da Fornalha Colheita Selecionada – Tinto com estágio em madeira de carvalho francês. “A grande diferença aqui é que o vinho estagia em carvalho francês, conferindo-lhe mais estrutura, aroma, taninos aveludados, melhor amadurecimento, preservando sempre a fruta, neste vinho que enche o palato, e é redondo’”. É um vinho um pouco mais caro, €6,50, “devido ao tempo de estágio e ao custo das barricas”. Cada barrica de duzentos e vinte cinco litros, é fabricada em França, e tem um custo elevado, dá para três ou quatro utilizações. “Uma barrica ao fim de duas ou três utilizações deixa de fazer o mesmo efeito ao vinho. Quanto mais nova é a barrica, mais recente é a tosta, mais aromas são transmitidos ao vinho, assim como mais taninos. As barricas mais novas também permitem mais oxigenação do vinho do que as velhas uma vez que a madeira não está impregnada pelos vinhos antigos. Os taninos da madeira dão mais longevidade ao vinho.

 

Anima de Fornalhas – Tinto Reserva. Este é um vinho que custa cerca de €20,00 ao público. É um vinho com mais estrutura, mais aroma. “Consegui reunir nele, aquelas características que evidenciam um vinho de maior qualidade: muita fruta, muita estrutura, ‘redondo’, aromático”. O Anima tem um estágio em barricas de carvalho francês cerca de um ano e meio.

 

O Anima de Fornalhas já ganhou uma medalha de ouro, no concurso de vinhos nacionais do Crédito Agrícola, e duas medalhas de prata consecutivas (“portanto não foi um ano ‘por acaso’”, reforça Luís) na Mundus Vini, na Alemanha, considerado um dos maiores e mais importantes concursos de vinhos do mundo, onde concorrem cerca de dez mil vinhos (números de 2016) de cento e cinquenta regiões diferentes, do mundo inteiro, analisados por duzentos e setenta especialistas de vinho de quarenta e quatro países. “Tivemos 88 pontos, o que foi muito bom!”, repara Luís com algum orgulho e brilho nos olhos. “Estes concursos servem, essencialmente, para nos situarmos no mercado, para confirmarmos a qualidade dos nossos vinhos”.

 

Em breve a adega irá produzir um vinho com o seu nome: Nascedios. O nome Fornalha tem a ver com a existência de várias fornalhas de produção de carvão na região.

 

 

O CONTROLO

 

“Somos bastante controlados”, diz Luís. Os vinhos da Herdade dos Nascedios são certificados pela Comissão Vitivinícola da Região do Alentejo (CVRA). De cada vinho são retiradas 6 amostras do depósito. Uma fica na Adega, cinco garrafas são levadas, uma vai para o laboratório, (análise química), 3 para prova organoléptica,  e sensorial a restante serve de contraprova. “O vinho regional tem de ser engarrafado com determinados padrões. Se, depois de estar no mercado, acontecer algum problema existe a contraprova para verificar se o vinho é igual ao analisado. Não podemos certificar um vinho e engarrafar outro”.

 

O controlo também é feito nas plantações. Verificam-se as áreas de plantação, se estas obedecem aos direitos concedidos ao produtor e verificam-se se os espaçamentos entre linhas estão corretos, porque há normas de plantação.

 

“Aqui optei por adensar mais na linha mas ter mais espaço entre linhas, três metros, e assim passa melhor qualquer trator, é mais fácil de trabalhar e há mais arejamento”.

 

 

A COMERCIALIZAÇÃO

 

Nas primeiras colheitas Luís colocou uma placa junto à estrada com a indicação da Adega dos Nascedios . “As pessoas que passavam começaram a saber que aqui havia uma vinha e vinham comprar vinho e foram espalhando a palavra”, recorda Luís.

 

Mais tarde o vinho começou a ser distribuído nalguns supermercados e restaurantes da região.

 

“Foi tudo devagarinho”, lembra, “no primeiro ano ainda pensamos em vender a uva mas não existem cooperativas por perto”.

 

A comercialização foi-se desenvolvendo sem pressas. Apesar de não gostar muito, é Luís quem a faz. “Nunca tive jeito para vendedor mas para vender o meu vinho tive de o arranjar”.

 

O vinho é vendido, maioritariamente, na região. Entre Setúbal e o Algarve “mas temos algumas encomendas para outros lugares, como um restaurante na zona histórica de Sintra. Também exportamos algum vinho”.

 

O concelho de Odemira não é grande consumidor do Fornalha. “Santos de casa não fazem milagres”, brinca Luís, “mas também é verdade que não há muita tradição de vinha neste concelho”.

 

Felizmente, segundo Luís, o vinho é todo escoado no mercado, o negócio está a funcionar bem. “Nas duas últimas colheitas houve falta de vinho alentejano, a procura foi muita e a produção foi inferior a esta. Houve geadas tardias”, explica Luís, “nós não fomos afetados porque estamos aqui num ponto médio que nem é litoral nem interior e não se verificaram essas geadas”.

 

No futuro Luís quer aumentar o engarrafamento e diminuir o vinho de “bag in box”.

 

 

NOTA FINAL

 

“Os meus filhos estão motivados para vir para aqui e é outro conforto sentir que alguém irá dar continuidade a isto tudo. O mais difícil já está feito”, sorri, “temos a confiança e a confirmação de que o nosso vinho é muito bom”.

 

 

por Pedro Pinto Leite