PALAVRA DE PALHAÇO

Falsa Liberdade

Será que vivemos em ‘terras da liberdade’?


Por:Enano Torres

2018-04-24
Precisamos de regressar ao animal original que não consome nem comunica de forma desenfreada

Meu caro mês de abril. Aprendi em Portugal que és o mês da Liberdade mas, a cada ano que passa, sinto menos liberdade individual, quanto mais coletiva. Parece que sou livre e na realidade sou um escravo deste sistema. Eu não tenho chefe mas não ter chefe não inviabiliza a possibilidade de um qualquer indivíduo se explorar a si próprio de forma voluntária e consciente. Não tem diante de si um patrão que o obrigue a trabalhar mas, para ganhar o seu rendimento, resigna-se à vida e trabalha porque tem que ser.

 

Obrigamos os nossos filhos a ir à escola porque tem que ser. As crianças estão fechadas em salas a ouvir matérias que o professor também foi forçado a dá-las porque faz parte do sistema de ensino obrigatório. Não há liberdade de se faltar às aulas só por que apetece mas apenas só quando se está doente ou porque é o dia da liberdade, o 25 de Abril. No dia 26 já não existe liberdade. Volta tudo à normalidade das obrigações que, voluntariamente ou necessariamente, temos.

 

Uns celebram a liberdade de fato e gravata e com um cravo vermelho na lapela, como símbolo da revolução de 74. Milhares de cravos, dias antes, são colhidos para distribuir pelo nosso Portugal para comemorar essa liberdade mascarada. Conforme o dia avança, o cravo fica murcho até cair no chão, sendo pisoteado pela multidão aos saltos, num qualquer concerto “gratuito”, de alguma banda famosa que as Câmaras programam para anestesiar a nossa revolta. Muitos desses cravos ficam encharcados em cerveja, whisky ou talvez petróleo.

 

Qual Liberdade quando hoje nos expomos, por completo, sem qualquer tipo de coação ou regra? Colocamos na rede todo o tipo de dados e de informação sem saber quem ou o quê os irá utilizar. Dados às catadupas são lançados indiscriminada e voluntariamente, não se sabendo como nem para o quê nem em que ocasião ou em que lugar cairá esse saber a nosso respeito. Isto leva-nos a uma perda de controlo resultante de uma crise de liberdade que deve ser tomada a sério.

 

Já nem interesse real pela política temos. Somos votantes e consumidores sem capacidade de motivar a nossa comunidade para causas que realmente valem a pena para o bem do nosso planeta. Já não estamos capacitados para a ação política comum. Reagimos de forma passiva à política. Protestamos e queixamo-nos no sofá de casa, do mesmo modo que um consumidor perante as mercadorias e os serviços que lhe desagradam.

 

Achamos viver livres (eu sou o primeiro a achá-lo) mas para nada somos. Tudo está dentro de mim, dentro de ti. É dentro de nós que podemos resolver o problema. Precisamos revolucionar o uso do tempo. Precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter. Necessitamos de um tempo livre que signifique ficar parado, sem nada de produtivo para fazer, mas que não deva ser confundido com tempo de recuperação para continuar a trabalhar.

 

Precisamos de regressar ao animal original que não consome nem comunica de forma desenfreada e, como costumo dizer ao meu filho quando quer saber o que vamos fazer, “vamos desfrutar do facto de não ter que fazer nada”.

 

Será que vivemos em ‘terras da liberdade’?

 

por Enano Torres