OPINIÃO PÚBLICA

A catástrofe dos exames nacionais

O mundo de hoje é mudança


Por:Fernando Almeida

Fotografia: Chris Liverani (Unsplash)
2018-04-24
“É preciso ter a coragem para reconhecer que o “rei vai nu”, que os exames nacionais afinal não são a salvação da educação e ainda menos um veículo para o progresso do país”

Como é costume dizer-se, uma mentira repetida mil vezes passa a ser verdade. Efetivamente não passará a ser verdade, mas passa certamente a ser aceite como se de verdade se tratasse por grande parte das pessoas. Ora, por mais que se repita que os exames nacionais são um instrumento essencial para o rigor, exigência, e qualidade da educação, e mesmo que se repita isso mil vezes, eu continuo a achar que são um medidor medíocre das competências e conhecimentos dos jovens, e que além disso perturbam a própria aprendizagem por comprometerem a forma de aprender e condicionarem fortemente aquilo que se aprende.

 

A existência de exames nacionais, em que são direta ou indiretamente avaliados os alunos, os seus professores e as suas escolas, e em que o futuro de todos eles depende dos resultados das provas, leva a que se oriente cada vez mais todo o trabalho feito ao longo de anos para aquele momento, para aquelas duas horas de prova. Pode perguntar-se “em que medida isso pode influenciar negativamente a formação dos alunos?”. É simples, por conveniência e acordo tácito entre todos os intervenientes no processo, passa a só se ensinar e aprender aquilo que pode ser testado numa prova escrita. E, evidentemente, para que haja concordância entre as classificações da frequência obtida ao longo de anos e a nota de exame (tomada esta como a mais fiável avaliação), e para adestrar bem os alunos para a dita prova final, a avaliação passa a ser esmagadoramente determinada por testes escritos cada vez mais parecidos com os exames que os alunos farão no final. Os alunos mais bem-sucedidos no sistema e já bem treinados neste modo de trabalhar perguntam: “isso vem para o teste?” Se a resposta for negativa desinteressam-se; se for positiva, registam como coisa que um dia se irá “desbobinar” numa qualquer prova escrita. Mas o conhecimento assim adquirido é efémero não se inter-relaciona com o restante conhecimento do aluno, portanto, é quase sempre pura perda de tempo.

 

E o que acontece a todo um mundo de conhecimentos e competências que não se conseguem testar em provas escritas? É claro que tudo isso passa a ser desvalorizado e frequentemente ignorado. Para quê ensinar aos alunos aquilo que nunca lhes será perguntado? Quem, tendo em conta esta realidade, “perderá” tempo a ensinar os alunos a fazer pesquisas autónomas, a produzir trabalhos de investigação, a desenvolver capacidades de cooperação com os colegas, a ir para o campo realizar inquéritos, entrevistas, observação e registo de factos e fenómenos, a produzir trabalhos em vídeo ou áudio… De que serve tudo isso num exame nacional? É claro que desde os pais, aos alunos, aos diretores das escolas e até mesmo aos professores, todos encontram um entendimento de que a velha aulinha medieval, em que um fala ou escreve no quadro, e os demais copiam tudo direitinho para os seus caderninhos diários, deve continuar. E efetivamente, para dar resposta à necessidade de reduzir anos de aprendizagem a uma prova escrita feita em duas horas, dificilmente se encontrará um método mais adequado.

 

O problema de facto reside nas competências que são pedidas a cada um em cada momento histórico. Em séculos passados, em que o mundo era regido por leis divinas inquestionáveis, em que tanto os modos de produção como as relações sociais eram tendencialmente imutáveis, o sistema de ensino, em que os meninos “papagueavam” o conhecimento oficial estabelecido de modo acrítico, era o que fazia falta. Mas o mundo de hoje é radicalmente diferente do desses tempos. O mundo de hoje é mudança. O caos de uma sociedade já não resulta de haver mudança; o caos hoje resulta de não haver mudança. E a mudança que neste nosso século se impõe aos povos para que não sejam subalternizados e consigam ser reconhecidos no conjunto das nações, nasce do conhecimento. O conhecimento e o seu progresso são o elemento central e imprescindível da mudança, da descoberta, da inovação, do sucesso económico e social. Como queremos atingir os melhores níveis de desenvolvimento, de produtividade, de sucesso económico, social, ambiental, baseando o nosso sistema de ensino na repetição medieval? Sem desenvolver autonomia nos alunos, sem lhes desenvolver o espírito crítico, sem lhes desenvolver a alma de investigador, e reduzindo o essencial da escola ao “papaguear” antiquado de verdades que se espera vão repetir por mais mil anos?

 

É preciso ter a coragem para reconhecer que o “rei vai nu”, que os exames nacionais afinal não são a salvação da educação e ainda menos um veículo para o progresso do país. Acabe-se com este instrumento de avaliação do passado, evolua-se para modelos modernos de aprendizagem em que a avaliação não prejudique o que se aprende e como se aprende, e assim sim, podemos estar a construir as bases para um futuro melhor do nosso povo. Mas, se a falta de inteligência dos que foram ensinados a ser meros copistas não lhes permite perceber isto, ao menos copiem o que se faz por exemplo na Finlândia que é referência mundial no que respeita ao progresso na educação, e reparem que a OCDE se mostra muito crítica dos nossos exames nacionais. Já que não sabem pensar, copiem. Mas ao menos copiem pelos melhores alunos e não pelos outros que também não sabem pensar…

 

por Fernando Almeida