A MÁQUINA DO TEMPO

Odemira na Grande Guerra

Mas houve mais


Por:Artur Efigénio

2018-04-24
Três jovens não regressaram de França de um total de 140 homens de Odemira

José espreguiçou-se e calmamente olhou para o seu relógio de bolso pousado na mesinha de cabeceira, já era tarde. Mas… também não havia grande pressa. Hoje era domingo, e na aldeia de Relíquias pouco havia para fazer. À missa, hoje, não estava a pensar ir. A única tarefa já agendada seria tratar do seu rebanho de cabras que pernoitavam num alpendre junto à sua casa. À mesma hora, Manuel já descia a íngreme rua de Odemira, para ir ver o rio que levava uma bela maré cheia. Estávamos em junho e talvez, se encontrasse alguns amigos, fossem dar um refrescante mergulho para fazer fome para o almoço. Trabalhava na barcaça que fazia a passagem do rio para a outra margem, mas hoje estava de folga. Em Sabóia, Protásio também já tinha acordado e comia agora uma côdea de pão com azeitonas britadas que a mãe conservava numa bilha de azeite. Tinha de sair não demorando, para ir discretamente colocar-se na esquina da rua de acesso à igreja, onde tinha a certeza que Maria passaria com a madrinha para irem à missa. Talvez conseguisse hoje chegar à fala com essa sua musa para lhe dizer o quanto gostava dela, e quem sabe até, tentar um encontro para esclarecer os olhares e sorrisos que já tinham trocado.

 

Nessa mesma manhã de dia 28 de junho de 1914, à mesma hora, na distante cidade Bósnia de Sarajevo, Francisco Fernando, o Arquiduque e Príncipe herdeiro do Império Austro-húngaro era assassinado. 

 

Mal sabiam os três ingénuos jovens rapazes protagonistas do breve e fictício texto do início, que este facto que fez despoletar o início da Iª Guerra Mundial, ditaria a sua precoce morte nas terras de França ao serviço da Pátria passado três e quatro anos.

 

Foram eles, de acordo com o Arquivo Histórico Militar, os três soldados mortos do Concelho de Odemira integrados no Corpo Expedicionário Português - CEP que combateu na Flandres na Grande Guerra. Chamavam-se José Joaquim, natural de Relíquias, morto em 27 de junho de 1917; Manuel Matos Júnior, de Odemira, que morreria a 12 de setembro de 1918; E, por fim, Protásio dos Santos, natural de Sabóia, que morreria a 11 de março de 1918. 

 

Este conflito à escala mundial ocorreu entre 1914 e 1918, e comemorou-se em França, no passado dia 9 de abril os 100 anos da Batalha de La Lys, com a presença do Presidente Marcelo e do Presidente Macron. Foi a mais mortífera batalha travada por portugueses nessa guerra, e onde, num só dia, se perderam cerca de 7.500 militares lusos, entre mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros. 

 

Portugal participou na Grande Guerra, porque, saído da revolução de 1910 que tinha deposto a monarquia, necessitava, por um lado, de demonstrar a solidez e modernidade da jovem república e, por outro lado, afirmar o controlo das colónias africanas de Angola e Moçambique. E assim, imprudentemente, embarcou nesta aventura belicista, entregando às mãos das potências da época (o contingente português foi integrado num Corpo de Exército Inglês) toda uma geração de jovens portugueses que alguns meses depois de chegarem ao teatro de operações de França, seriam abandonados nos lamaçais das trincheiras pelo poder político de Lisboa e pelas suas mesquinhas politiquices.

 

Estes três jovens foram os que não regressaram de França de um total de 140 homens de Odemira integrados nos cerca de 55.000 homens do CEP. Mas houve mais mortos das freguesias de Odemira no contexto da I Guerra Mundial. Morreram 2 em Angola e 8 em Moçambique, onde também se combatiam os Alemães. Foram eles:

 

Em Angola:

Alferes Ilídio Alberto França e Silva/Odemira

Soldado José Jorge/Odemira

 

Em Moçambique:

1.º Cabo António Manuel Rosa/S. Martinho das Amoreiras

1.º Cabo Fortunato de Oliveira/Odemira

1.º Cabo Manuel da Silva Cavaco/Odemira

1.º Grumete Júlio Pacheco Botelho/Odemira

Soldado Francisco Inácio/Saboia

Soldado Francisco Lourenço/Odemira

Soldado Manuel Inácio Nobre/Odemira

Soldado António Tomé/Santa Clara

 

A história do início tenta demonstrar a volatilidade da segurança e paz, e como aquilo que damos por adquirido, seguro ou provável nas nossas pacatas vidas, de um dia para o outro se pode tornar numa dura e traumatizante realidade. Os dias de incerteza, que ocorrem com a escalada de tensão nunca antes vista nos últimos anos a nível internacional, levam-nos a pensar, invocar e homenagear os 13 rapazes das freguesias de Odemira que partiram há 100 anos na esperança de um dia voltarem para retomar as suas rotinas, mas que não viriam a ter essa oportunidade, pois a guerra roubar-lhes-ia a juventude e as vidas.

 

por Artur Efigénio