MINERALOGIA

Uma Jahnesite nunca antes descoberta

Herdade dos Pendões em São Luís é o local do achado

2018-04-24
Pedro Alves, mineralogista e responsável do laboratório da EPDM, em Aljustrel, foi o primeiro português a submeter uma nova espécie de mineral para o IMA

Pedro Alves, mineralogista e responsável do laboratório da EPDM – Empresa de Perfuração e Desenvolvimento Mineiro, em Aljustrel, foi o primeiro português a submeter uma nova espécie de mineral para o IMA – International Mineralogical Association

 

Uma nova espécie de mineral, descoberta em pleno território odemirense, de momento com o código IMA 113/17, foi submetida no final do ano de 2017, pelo português Pedro Alves, e agora aprovada. A descoberta teve lugar na mina da Herdade dos Pendões, situada a cerca de cinco quilómetros a norte de Odemira, num caminho paralelo à EN120 que liga Odemira a São Luís.

 

Em Aljustrel há quase cinco anos, Pedro Alves confessa ao MERCÚRIO que tem por hábito, nos seus tempos livres, visitar as minas antigas da zona para ficar a conhecer a mineralogia local. Após descobri-las, faz uma espécie de inventário e um levantamento do material existente. “Fui visitar mais uma mina e encontrar esta espécie foi um puro acaso”, recorda.

 

Em resposta ao porquê de ser o primeiro e único português a fazer uma submissão de uma nova espécie de minerais, Pedro Alves argumenta que, em geral, os portugueses não se valorizam. “Num universo de cinco mil e quatrocentos minérios, nós temos doze espécies descobertas em Portugal,. Todas estudadas e submetidas a aprovação por estrangeiros. Portugal é um país pequeno mas tínhamos potencial para mais”.

 

 

A MINA DA HERDADE DOS PENDÕES

 

A mina da Herdade dos Pendões é considerada de pequena dimensão, como muitas minas de ferro e manganês presentes no Sudoeste Alentejano, e está desactivada há cerca de 70 anos. O mineralogista explica que as minas são cíclicas e por várias razões, entre elas por escassez económica ou porque o preço do minério não compensa a sua exploração.

 

Pedro Alves esclarece que aquela mina tem galerias e poços da época romana. O mineral descoberto não foi encontrado nessas galerias e poços, mas sim numa escombreira, isto é, num depósito de matérias extraídas das minas. “Muitas vezes é aí que se encontram este novo tipo de materiais porque estes minerais, como não têm interesse económico, ficam ali, rejeitados”, clarifica.

 

Os minerais que se encontram na Herdade dos Pendões podem já se encontrar por lá há centenas de anos, explica Pedro Alves. Reforçando a ideia de que uns se formam mais depressa de que outros, uns no interior da mina e outros à superfície, por dezenas ou centenas de milhares de anos. Formam-se pela erosão e exposição dos minerais (geralmente minerais de cobre, zinco, chumbo, etc.) que se formaram anteriormente a vários quilómetros de profundidade. Em termos geológicos, a sua descoberta trata-se de um mineral com relativamente pouco tempo.

 

 

A SUBMISSÃO DO MINERAL

 

Pedro Alves recorda que quando encontrou o mineral, inicialmente começou por ver a sua composição química (fosfato com ferro, manganês e zinco), porém, o mineral tinha uma forma diferente que o chamou à atenção. Decidiu enviar uma amostra para um colega, em Los Angeles, nos Estados Unidos da América (EUA).

 

O mineral foi analisado. Trata-se, sem dúvida, de um grupo de minerais já existente, a jahnsite, devido à sua composição mas uma nova espécie, devido à quantidade de zinco presente.

 

Foram também enviadas amostras para a República Checa e para a Rússia, onde se realizaram mais análises químicas, posteriormente enviadas para o IMA – International Mineralogical Association, entidade que gere todas as questões da mineralogia, desde 1959. A submissão do mineral consiste na descrição da espécie em questão (composição química, estrutura, local de encontro, entre outros).

 

Quando se submete um novo mineral, é-lhe atribuído um código, neste caso 113/2017, quer dizer que no ano de 2017 foram submetidas 112 novas espécies antes da jahnsite descoberta por Pedro Alves. A resposta demora cerca de dois meses.

 

O nome pode ser sugerido pelo proponente. A maior parte dos minerais, tem o nome de pessoas famosas, normalmente do mundo da mineralogia/geologia, da pessoa que o descobriu ou da localidade onde foi encontrado. Neste caso, como existe o grupo de minerais jahnsite, o grupo mantém-se e acrescentou-se-lhe os catiões e a sua posição na estrutura do mineral.

 

Pedro Alves confessa que prefere descobrir uma nova espécie e ser o autor da submissão do que seja atribuído o seu nome a uma descoberta, rematando, “além disso, há muitos geólogos que estão à minha frente para merecerem ter o nome de um mineral. Sou muito jovem e muito pouco importante para que um mineral tenha o meu nome”. 

 

A maior parte das submissões são aprovadas porque quem o faz, fá-lo com alguma minuciosidade. Com o evoluir da ciência, chega-se à conclusão que algumas espécies mais antigas são apenas variantes de minerais já conhecidos e, por isso, são desacreditadas, anualmente, três ou quatro espécies. A exigência da acreditação é cada vez maior, a informação e caracterização é cada vez mais difícil e cada vez menos pessoas são capazes de identificar uma nova espécie, de acordo com as exigências do IMA.

 

Pedro Alves remata: “melhor do que descobrir uma nova espécie é catalogá-la porque isso nunca se irá perder. O mineral até pode vir a ser extremamente comum no mundo (pouco provável devido às condições particulares que estão na origem da formação do mineral, desde as condições de formação do mineral, às condições físicas e químicas e a temperatura a que se formou) mas a localidade típica nunca deixará de ser a Herdade dos Pendões, no Concelho de Odemira”.

 

“Nos Pendões há uma encosta em que os materiais estão à vista até porque a vegetação tem dificuldade em vingar porque são pedras de grandes dimensões; não se cria solo e nalguns casos que contém sulfuretos, os terrenos ficam ácidos e só as plantas extremófilas é que se conseguem desenvolver. Mesmo quando se desenvolvem, não é uma vegetação muito densa e por isso os materiais que estão ali estão visíveis, estão-se a perder porque foram extraídos das galerias onde estavam estáveis no depósito e depois quando expostos às intempéries, já não são estáveis perante o ambiente. Então, em questão de décadas, acabam por entrar no ciclo novamente, vão dar origem a outros minerais. A recolha é uma forma de preservar o património.”

 

por Dário Loução (não usa AO)