ENCONTREI EM ODEMIRA

A natureza ensina e cura

#encontreiemodemira


Por:Sara Serrão

2018-04-24
Este mês encontrei em Odemira Dora Simay, 26 anos, da Hungria, voluntária na Associação Rota Vicentina durante um ano, no âmbito do SVE – Serviço Voluntário Europeu

- Qual a sua ligação a este território?

 

Estudei comunicação e media, em Budapeste, e design gráfico e comunicação visual, em Itália. Estava à procura de oportunidades de voluntariado em Espanha, no âmbito do SVE – Serviço Voluntário Europeu, uma vez que aprendi espanhol, mas quando vi o anúncio da Rota Vicentina, gostei muito do projecto, candidatei-me e foi assim que vim viver para Odemira durante um ano. Nunca tinha estado em Portugal mas já tinha ouvido dizer que era um país que valia a pena visitar, com pessoas muito simpáticas, mas, mais do que o país ou a região, escolhi o projecto Rota Vicentina e estou a aproveitar cada minuto da minha experiência! Desde que estudei em Turim que tinha muita vontade de sair novamente da Hungria, não só pela perspectiva da viagem, mas sobretudo para ter a possibilidade de experimentar o dia a dia num país estrangeiro e, assim, vim pela primeira vez a Portugal para viver a vida em Odemira! Encontrei no projecto Rota Vicentina a vertente de natureza, fotografia, videografia e o lado humano, o que resulta numa combinação perfeita, então fiz uma busca no Google sobre Odemira e pensei: “tenho que ir para lá!”.

 

Dentro da Rota Vicentina o meu projecto é criar conteúdos de fotografia e vídeo sobre os vários aspectos da vida da Associação, mais concretamente através da criação de um blog intitulado stories through rota vicentina (storiesthrough.rotavicentina.com), em que entrevisto e fotografo pessoas que, de alguma forma, se cruzam com o projecto, decidiram trabalhar com a Rota, viajar até cá, voluntariar-se para a sua manutenção, etc. 

 

 

- O que tem esta terra de especial?

 

O que me surpreendeu muito foi o modo como me senti confortável a viver aqui desde que cheguei, de uma forma muito natural, quase como se estivesse em casa. E isso deve-se às pessoas: à sua maneira de ser acolhedora, gentil, sem ser apenas superficial, e à sua capacidade de gozar a vida, o que me impressionou bastante já que é muito diferente do que se passa em Budapeste. Aqui, mesmo que uma pessoa trabalhe muito e por muitas horas, não deixa de estar ligada às pessoas que estão à sua volta e faz outras coisas para além do trabalho, por prazer ou por interesse. As pessoas que me rodeiam estão muito conscientes do que fazem, de como e com quem passam o seu tempo, e isso sensibilizou-me.

 

O outro aspecto que me tocou foi a natureza. Lembro-me de me terem levado a uma praia no dia em que cheguei e de ter ficado de boca aberta, foi indescritível e senti logo uma empatia muito forte com este cenário. Antes de vir para Portugal já tinha feito caminhadas noutros lugares, noutros países, mas desde que estou a viver aqui, a natureza passou a desempenhar um papel importante na minha vida diária e se não vou caminhar ou desfrutar do ar livre, faz-me mesmo falta. A natureza ensina e cura, é incrível. Quando cheguei cá, fui caminhar durante quatro dias, deixei-me contagiar pela caminhada e pela paisagem e, no fim desses quatro dias, senti-me simplesmente cansada e feliz a desfrutar do pôr do sol.

 

 

- O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?

 

Vivi toda a minha vida em Budapeste, que é uma grande cidade, e, por isso, sinto que falta aqui alguma variedade de estímulos, mas ao mesmo tempo comecei a aperceber-me que mesmo que não existam muitas opções a nível cultural ou de entretenimento, esse vazio pode permitir uma conexão maior com as pessoas, e isso tem um valor acima de qualquer actividade. Por outro lado, acontecem mais coisas do que se poderia pensar à partida, mas tem que haver predisposição, vontade e mobilidade para ir à descoberta dessas iniciativas. Mas também acho positivo quando os jovens odemirenses partem à descoberta de outras realidades, se dão conta, mais tarde, de que este lugar é mágico e voltam trazendo algo novo para acrescentar à sua terra de origem. Há várias coisas a acontecer por cá, não só por parte de estrangeiros e pessoas de fora, com vontade de se estabelecer aqui, mas também iniciativas locais que querem criar condições para fixar gente nova, com uma influência positiva. Neste momento, tenho dificuldade em imaginar-me a voltar para Budapeste, gosto mesmo de estar aqui, deu-me novas perspectivas sobre a vida! Os dias cheios de sol também fazem parte deste fascínio, a luz tem um efeito psicológico enorme.

 

Tive alguma dificuldade em lidar com o espírito do “logo se vê”, porque venho de um país com uma mentalidade muito diferente, mas até a isso estou a adaptar-me. Embora sinta que os compromissos de agenda poderiam ser levados mais a sério, tenho observado um talento para a improvisação e resolução de problemas à última hora que me impressiona!

 

(entrevista traduzida do inglês)

 

#encontreiemodemira

 

por Sara Serrão