DE QUEM É O OLHAR

“A nossa pequena revolta cultural”

Rudi Dutschke *


Por:Monika Dresing

2018-05-23
Hoje já é difícil imaginar a sociedade fechada e autoritária que existia nos anos cinquenta e sessenta

O ano de 1968, ano quase mítico, ficou na memória colectiva como ano de uma explosão antiautoritária internacional (pelo menos nos países democráticos ocidentais), ano de revolta, de manifestações, sit-ins, fraternização entre estudantes e trabalhadores e muito mais. Mas esta explosão não veio do nada, cada país tinha os seus acontecimentos concretos que provocaram o acender dos respectivos rastilhos, sendo alguns dos acontecimentos, por exemplo a guerra de Vietname, um rastilho comum nos diferentes países. Além disso, todos os países tinham um denominador comum: Depois da Segunda Guerra Mundial, depois desta grande catástrofe da humanidade, a vida tinha voltado a “funcionar” como se nada tivesse acontecido. Logo a seguir à guerra ainda se tinha falado sobre as causas da catástrofe e as medidas necessárias a tomar, mas depois, com o advento da guerra fria, tudo isto foi esquecido e a vida voltou ao “normal”, quer dizer, as sociedades bastante autoritárias e pouco democráticas da primeira metade do século foram reestabelecidas.

 

Os movimentos antiautoritários de ‘68, que na realidade começaram uns anos antes e só culminaram em 1968, nomeadamente em França, no famoso mês de Maio de ’68, eram movimentos de jovens que não se queriam conformar com as mentiras sobre o passado e as crueldades do presente, procurando libertar-se de todas as restrições, emancipar-se, construir uma sociedade mais livre. Estudaram as diferentes ideias políticas, experimentando ao mesmo tempo novas formas de vida, desde a vida de convivência até a vida laboral ou universitária. De certa forma, foi uma festa colectiva contínua. “Foi uma revolta mental contra o estado industrial existente, tanto contra a sua estrutura capitalista como contra o tipo de sociedade de consumo que criou.” (Daniel Singer)

 

Na Alemanha, além do silêncio que continuava a tapar os anos nazis, os anos sessenta trouxeram alguns acontecimentos que provocaram os protestos dos jovens: em 1966 formou-se a primeira “grande coligação” entre SPD e CDU/CSU, ficando a oposição parlamentar reduzida a cerca de 10% dos deputados. Consequentemente e em protesto contra as leis de emergência que a coligação veio a aprovar formou-se a APO, a oposição extraparlamentar, um dos pilares do movimento antiautoritário. Outro acontecimento detonador foi a morte dum estudante que foi baleado nas costas por um polícia durante uma manifestação contra a visita do Xá do Irão. Por cima de tudo pairava sempre a guerra de Vietname que em 1967 tinha sido muito intensificado pelos EUA.

 

Na Alemanha, depois da reacção bastante brutal do governo, de grande parte dos média e de grande parte da população, a força dos movimentos diminuiu. Uns começaram a constituir pequenos partidos políticos que lutaram um contra o outro pelo caminho certo a tomar. Outros foram para a clandestinidade e começaram uma luta armada. Outros ainda aproximaram-se do sistema parlamentar e constituíram anos mais tarde o partido “Os Verdes”, tornando-se parte do sistema contra o qual tinham protestado. Muitos integraram-se simplesmente na sociedade existente, denunciando a sua participação no movimento antiautoritário como erro de juventude.

 

Alguma coisa ficou? Hoje já é difícil imaginar a sociedade fechada e autoritária que existia nos anos cinquenta e sessenta. Para nós, jovens na altura, ‘68 trouxe certas liberdades e um alargamento da consciência política e social. Fizemos a experiência de que os movimentos básicos podem realmente ter um impacto na sociedade democrática. Talvez por isso, na Alemanha de hoje, a extrema-direita tenta pintar um quadro negro de ’68 e das ideias libertadoras que na altura vieram à superfície. Temos que estar atentos e defendê-las. Como diz Noam Chomsky: “Penso que o impacto de 1968 foi duradouro e, no seu todo, positivo.”

 

* Rudi Dutschke era o líder carismático do movimento antiautoritário na antiga RFA, Alemanha ocidental. Foi baleado em Abril de 1968 por um jovem incitado pelos média, foi gravemente ferido, acabando por falecer 11 anos depois em consequência do ataque.

 

Monika Dresing