SOCIEDADE

Encontro com José Ribeiro

“Perigoso comunista” da Rádio Renascença

2018-05-23
A reação de José Ribeiro teve origem na entrevista que o Dr. Justino dos Santos deu ao MERCÚRIO (última edição) e à resposta do Presidente da Câmara de Odemira. Mas quem é José Ribeiro?

Este encontro com José Ribeiro teve origem na sua reação à entrevista que o Dr. Justino dos Santos deu ao MERCÚRIO (ver última edição) e à resposta do Presidente da Câmara de Odemira, José Alberto Guerreiro, à mesma entrevista, no seu discurso na sessão solene da Assembleia Municipal dos 44 anos da revolução de Abril, no passado dia 25 de abril, que lhe fez (a José Ribeiro) “muita confusão”

 

José Ribeiro gostaria de se encontrar com o senhor presidente, “que conheço muito bem, e perguntar-lhe ‘quando é que vai fazer o discurso sobre o 25 de Abril?’ porque a função das sessões solenes do 25 de Abril são para isso mesmo, fazer discursos sobre o 25 de Abril e não discursos acerca do que se passa na comunicação social, que foi o que ele fez”.

 

José Ribeiro considera que o Presidente da Câmara foi “indelicado” e que “não era o momento nem o local” para aquele tipo de discurso. “Cada um pode dizer o que entende, como o Dr. Justino o fez com as suas declarações mas fê-lo num momento e num contexto completamente diferente”.

 

José compareceu em todas as sessões solenes da AM desde que vive em Odemira. Normalmente senta-se atrás “para observar bem toda a gente”. Diz ouvir os discursos com atenção. “Este ano houve uns com bastante interesse, até. Falou-se de crianças e de jovens mas não se falou de velhos. Esquecem-se que os velhos de hoje, foram os jovens de ontem e que os jovens de hoje serão os velhos de amanhã”.

 

Mas quem é José Ribeiro? “O meu nome existe na Torre do Tombo como perigoso comunista da Rádio Renascença”, diz.

 

José, tem quase 80 anos, é natural de Valença do Minho. O seu avô Luís Ribeiro era pessoa conhecida no meio político do Minho. “Eu cheguei a estar à mesa, várias vezes, de Bernardino Machado (terceiro e oitavo Presidente da República Portuguesa), em Paredes de Coura, onde conheci Aquilino Ribeiro, genro de Bernardino Machado, e a Casa Grande dos Romarigães (casa que deu título ao livro de Aquilino)”. O seu pai, Luís Ribeiro (mesmo nome do avô) era dono de uma farmácia em Paredes de Coura que ainda hoje tem o mesmo nome: “Farmácia Ribeiro”.

 

Em 1936 o avô, os tios e o pai de José, foram deportados para Espanha. “Tiveram a sorte de um médico os ter ajudado e terem sobrevivido”, repara. O seu avô esteve preso, por razões políticas, em Angra do Heroísmo. O seu pai foi preso, também por razões políticas, várias vezes.

 

“Quando o meu pai foi preso em Caxias a minha mãe quis ir para perto dele e mudámo-nos para Lisboa”, conta.

 

Aos 16 anos de idade, com a morte prematura do seu pai, José Ribeiro torna-se “chefe de família”.

 

“Mesmo tendo todos esses problemas, como foram aquelas páginas que eu não as apago, eu não apago nenhuma página deste meu livro, continuo a ser um estudante da universidade chamada ‘Vida’ e ainda farei o ‘mê-estrado’”, brinca.

 

Quando foi para Lisboa, José Ribeiro tinha a ideia de ir trabalhar em teatro e cinema. O destino deu-lhe um primeiro emprego numa tabacaria mas, rapidamente, foi trabalhar para um laboratório de cinema, os Estúdios Arnaldo Trindade, onde conheceu “grandes nomes do cinema como José Gomes Ferreira e o fascista António Lopes Ribeiro, essa figura sinistra, sempre acompanhado por um homem da PVDE” (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, mais tarde Polícia internacional e de Defesa do Estado – PIDE). “Foi um percurso muito engraçado”, comenta, “trabalhei com Aquilino Mendes, Fernando Lopes, Artur Duarte, Rogério Paulo, Maria Dulce (uma mulher linda como eu nunca vi na minha vida), Fernando Curado Ribeiro...”.

 

Em teatro trabalhou dois anos com Curado Ribeiro, no ‘Teatro de Brincar’ onde conheceu “toda aquela gente e aquela vida do Parque Mayer”.

 

Depois José foi trabalhar para a Rádio Renascença (RR). “Nunca tinha pensado ir para a rádio mas precisava de trabalho”, lembra. Depois de dois meses como telefonista, entra finalmente para operador de som. Manteve-se na RR durante sete anos.

Em 1965 é convidado para o Rádio Clube Português (RCP). “Fui com melhores condições e com um trabalho melhor”. No RCP José Ribeiro trabalhou com nomes como João Paulo Guerra, “um dos grandes jornalistas de investigação deste país”, Luís Filipe Costa, Cândido Mota ou Joaquim Furtado. Conheceu e foi amigo pessoal de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Carlos Paredes.

 

O dinheiro não lhe chegava para sustentar uma casa, a mãe e a irmã, a avó e um sobrinho. José foi trabalhar para a Emissora Nacional (EN) em alternância com o RCP. “Se trabalhava de manhã no RCP, trabalhava à tarde na EN”, conta. Chegava a beber 20 italianas por dia. Sempre com açúcar.

 

Na EN foi realizador e sonoplasta de peças de teatro e folhetins. No RCP foi operador de som e também sonoplasta. “O trabalho que eu mais gostava de fazer, porque eu tinha um critério muito especial que adequava muito bem a música a cada texto, a cada poema, a cada comédia, era ‘sublinhar’ musicalmente um texto”, salienta José.

 

Na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, José da Silva Ribeiro estava a trabalhar no RCP. Quando Joaquim Furtado leu o primeiro comunicado, José rebentou os armários “onde estavam as músicas amordaçadas” e foi ele quem, nessa madrugada pôs a tocar “a tal marcha que acabou por ficar conhecida como o ‘hino das Forças Armadas’, para sublinhar os comunicados do MFA. Eu sou o ‘culpado’”, desvenda, “e tive imenso orgulho em poder ‘oferecer’ isso ao meu pai e ao meu avô”, conta emocionado.

 

José reforma-se no ano de 1993. Queria viver “de uma outra forma”. “A minha mãe tinha morrido, eu tinha 55 anos, nunca tinha tido férias e foi a partir daí que comecei a gozar a minha vida”.

 

José mudou-se para o concelho de Odemira por causa da pesca. “Já vinha muito para cá”. Nessa altura já era militante do Partido Comunista Português (PCP). Ao chegar, foi bater à porta “de casa” para fazer parte da concelhia. Foi também membro da Direção da Organização do Litoral Alentejano, em Santiago do Cacém, ainda teve uma curta passagem pela Rádio Miróbriga, foi mandatário de Cláudio Percheiro (candidato pela CDU nas eleições autárquicas de 2009) e membro da Assembleia Municipal de Odemira (AM). “Não houve uma sessão da AM em que eu não interviesse”.

 

José diz-se assustado com o envelhecimento das pessoas do concelho de Odemira. “Não há meios para cuidar condignamente dos idosos. Sei isto de experiência própria por causa da minha mulher que está com Alzheimer há três anos. Eu, uma vez na AM, disse que se tivesse de morrer aqui, gostaria de acordar morto, para não ter problemas. A dignidade não se pode colocar de parte. Nada disto invalida toda a dedicação e todo o carinho das senhoras que trabalham nos lares dedicam aos seus doentes e velhotes”.

 

“Gosto de ouvir a voz do mar de Odemira, gosto de passear os meus olhos pelos lençóis de espuma branca sobre a areia. As suas falésias são varandas de sonhos-sonhados”.

 

“Eu sou militante do PCP, enfrento as situações e digo o que tenho a dizer mas quanto ao discurso do presidente só gostaria que ele indicasse à população de Odemira quando é que faz o discurso sobre os 44 anos do 25 de Abril, acho que não tenho mais nada a comentar acerca disso, porque ainda por cima o discurso dele foi tão gaguejante...”.

 

 

Pedro Pinto Leite