A MÁQUINA DO TEMPO

A política não é para meninos!

Felizmente poderá não ser sempre assim


Por:Artur Efigénio

2018-05-23
Parlamento dos Jovens, um projeto muitíssimo interessante

“A política não é para meninos!”. Por certo conhecem a expressão segundo a qual, esta atividade estará reservada para os adultos, os não ingénuos, os não inocentes e, até numa leitura mais pejorativa, reservada somente aos espertalhões e gente de carácter duvidoso. 

 

Pois bem, felizmente poderá não ser sempre assim. Desde logo porque a verdadeira Política, aquela nobre e muito diferente da que orbita a esfera da partidarite, está cheia de gente com muito valor e com valores que prestam um verdadeiro serviço cívico, comum e público. Mas também porque existem jovens interessados e participativos. Estes sim, ainda com alguma ingenuidade e inocência, mas que já se interessam pelo bem-estar de todos e com uma sociedade justa que reflita os seus sonhos e anseios.

 

Refiro-me àqueles jovens que participam nas escolas nas associações de estudantes, nas atividades de voluntariado um pouco por todo o lado, ou em programas e projetos que estimulam o gosto pela participação cívica, política e de cidadania. E neste concreto, gostaria de vos dar o testemunho do acompanhamento de alguns destes jovens voluntários e voluntariosos. Neste caso alunos, que participam no projeto da Assembleia da República (AR) “Parlamento dos Jovens” dinamizado pelas escolas públicas e privadas que se inscrevem e são selecionadas.

 

Desde há já alguns anos que implementamos este projeto na Escola Profissional de Odemira – EPO. Faço-o com um particular gosto pela pessoal convicção de que através dele, podemos fazer a diferença na formação e educação dos alunos nos domínios dos valores e princípios. Estimulando uma cidadania plena, e tornando-os mais inclusivos através do respeito pela diversidade de opiniões e promovendo debates democrático de acordo com as regras da formação das decisões.

 

Este trabalho, que se inicia logo no princípio do ano letivo, por vezes não é fácil no seu arranque devido a algumas ideias, preconceitos e estereótipos já trazidos pelos alunos sobre a política, os políticos e os partidos, sem estabelecerem a desejável diferença entre uma conceção de participação política com benefícios pessoais ou com benefícios para a comunidade. “Eu não quero participar, nem saber disso! Na política, são só aldrabões e mentirosos que o fazem só para meterem ao bolso e terem empregos!” Estas são, de uma forma geral e abreviada, as expressões que mais se ouvem.

 

Ultrapassada esta resistência inicial referindo que são eles que poderão fazer essa tal diferença, consegue-se começar a ensinar a fazer a tal Política, de “P” maiúsculo que referi no início.

 

No âmbito e na sequência de implementação deste projeto, constituem-se listas em torno de ideias e medidas sobre um tema difundido pela AR e após uma campanha eleitoral e debates na escola, realizam-se as eleições. Os alunos eleitos, e agora já “Deputados”, com as suas propostas e medidas, rumam a Beja para uma sessão distrital onde as debatem, votam e elegem os representantes do distrito para estarem presentes em Lisboa na AR.

 

Este ano, em fevereiro, de um total de 16 escolas secundárias, profissionais e colégios do distrito de Beja que participaram, a EPO foi eleita com duas alunas, para estarem presentes na sessão nacional que se realizou na AR durante os dias 14 e 15 de maio representando o distrito. Foi para elas uma experiência talvez única e marcante, relatada nas páginas deste Jornal pela aluna-jornalista, que participará com essa mesma reportagem num outro concurso da AR destinado a jornalistas das escolas presentes. 

 

Numa reflexão pessoal, por já acompanhar o projeto há alguns anos, continuo a congratular-me com o facto de muitos alunos, com grande mérito, sem qualquer tipo de filiação em juventudes ou órgãos partidários, ombrearam e suplantaram em estruturação de pensamento, de conceitos e de ideias, outros que participam, mas que já foram “pescados” nestes fóruns para aquelas organizações. Na maioria das vezes, estes últimos, dotados somente de alguma capacidade de argumentação e oratória, muito trabalhada e manipulada mas muito superficial e vazia. São os tais que “falam muito bem”. Mas, que no fundo, encontram-se já desprovidos dos valores e princípios que deveriam nortear qualquer pessoa que almeja participar em processo de influência e de liderança de pessoas e organizações. Infelizmente, talvez venham a ser estes os nossos futuros políticos profissionais.

 

De qualquer forma, e em jeito de balanço, continuo a considerar o Parlamento dos Jovens, um projeto muitíssimo interessante e que pode ajudar a conhecer a verdadeira Política, desmistificando alguns conceitos e ajudando os jovens a encontrar caminhos onde possam exercer a sua cidadania plena, consciente e em prol do bem comum.

 

Afinal assim, numa salutar, imparcial e pedagógica aplicação de projetos deste tipo, poder-se-á então dizer que a Política também poderá e deverá ser para meninos. E, refletindo uma justa igualdade de direitos na sociedade, e por ter sido o tema deste ano do projeto, também para as meninas.

 

Artur Efigénio