SOCIEDADE

O Pão que a Ercília amassou

Um dos preferidos dos Odemirenses e não só

2018-05-23
Pão regional alentejano ainda feito de forma caseira, que se coze em forno de lenha

O pão regional alentejano, aquele que ainda é feito de forma caseira, que se coze nos tradicionais fornos de lenha, é reconhecido em todo país. O concelho de Odemira é muito rico em pão de qualidade. Um dos preferidos dos Odemirenses (e não só) é o Pão da Ercília, ali na Venda Fria.

 

Ercília Vilhena Joaquina, mãe de dois filhos, Glória e José Manuel. Nasceu no ano de 1947, na freguesia de S. Martinho das Amoreiras, onde viveu durante mais de trinta anos. Depois mudou-se para o Cercal do Alentejo onde trabalhou, com o marido, numa vacaria. Uns anos mais tarde foi viver para perto do pai e do irmão, na Venda Fria, freguesia de Vila Nova de Milfontes. “E então fizemos aqui uma casita e foi assim os princípios disto”, conta. “Eu toda a vida fiz pão, desde miúda”.

 

Ainda em S. Martinho das Amoreiras, Ercília, trabalha numa exploração agrícola. “Eu é que fazia lá o pão, umas três ou quatro vezes por semana, porque naquela altura os trabalhadores eram muitos e tudo comia. Era sempre uma ‘mesada’ com umas 14 pessoas, todos os dias ao almoço”. Ercília sempre fez o seu próprio pão, também.

 

O seu pai tinha construído um pequeno forno na casa da Venda Fria. Ercília, quando se mudou, aproveita-o para fazer pão, agora para toda a família. Entretanto as vizinhas começaram a pedir-lhe: “vizinha, venda-me lá um panito”, lembra.

 

A palavra foi passando “e foi assim que foi começando e foi assim que foi crescendo”.

 

O tipo de fabrico do pão como o da Ercília, já em pouco lado se faz. “Isto é um pão que dá trabalho e leva mais tempo a fazer e a cozer”, explica.

 

Durante muitos anos, Ercília amassava à mão num alguidar, “que aquilo também levava ali massa para uns trinta pães. Depois fazia outra ‘massazita’ e ia-se empatando o dia de volta do forno, todos os dias do ano, exceto no dia de Natal, a partir das quatro da manhã até de noite”, lembra, “e tenho a dizer que o trabalho não mata ninguém”.

 

Agora, a massa já é amassada mecanicamente.

 

As sacas de farinha, neste momento de 25 Kg, pesavam na altura 50 kg. “Eu andava aí a ‘reboco’ com elas, não conseguia levantá-las no ar, tinha de rebocá-las. Quando a gente não pode, tem de ser tudo ‘por ideias’”, conta.

 

O Pão da Ercília leva farinha, água e sal e ‘massa velha’. “E é só o que se usa”. Não tem qualquer fermento químico.

 

(“Massa velha” é um fermento natural, biológico. Consiste na cultura caseira de micro-organismos que estão presentes no ar e na farinha e que se alimentam essencialmente de glicose. Mas o principal responsável pelo crescimento da massa é o dióxido de carbono. A fermentação natural acontece de forma lenta e o resultado é um pão com sabor e textura incomparáveis. O fermento industrializado não possui leveduras. Ao ser aquecido produz dióxido de carbono que expande aumentando o volume da massa. O seu papel é basicamente inflar o ‘produto final’, criando bolhas para que este fique macio/areado. Ao contrário do fermento natural a fermentação química acontece de forma rápida).

 

“Faz-se um bocado de massa hoje para se fazer o pão de amanhã”, explica Ercília.

 

“As farinhas já não são o que eram aqui há anos. O próprio trigo já não tem nada a ver com o que havia”. Parte da farinha utilizada no seu pão vem de São Luís, do moinho das lajes. É farinha artesanal, moída em mó de pedra. A restante, metade, é farinha industrial. “Uso a 65, que não é tão ‘grada’”.

 

Os seus fornos são a lenha que arde lá dentro. “É claro, são coisas que dão mais trabalho porque se tem que puxar as brasas e de se lavar a base do forno”. Os fornos não têm termómetro e a temperatura é controlada “a olho” e às vezes o pão sai com um “bocadinho de calor a mais”. “É mau de controlar no ponto certo mas eu toda a vida lidei com fornos de lenha, toda a vida, e a pessoa tem mais a noção do que está a fazer”.

 

A lenha usada é de eucalipto e de pinheiro. “Vai o meu filho ‘acarear’. Há por aí muita coisa ‘corta’ e aproveita-se tudo”, explica Ercília.

 

As pessoas já o conhecem e quando têm pinheiros cortados chamam-no. José Manuel, ao contrário das formigas, empenha-se nesta recolha durante o inverno para evitar o calor do verão. Vai na carrinha, leva a motosserra, corta tudo à medida de meter no forno e armazena no quintal.

 

No início, Ercília fazia pão duas a três vezes por semana. Mais tarde passou a fazê-lo duas a três vezes por dia e aos fins de semana e no verão, sempre mais.

 

Com o passar do tempo, o forno construído pelo pai que “levava uns trinta pães”, foi-se tornando pequeno. Há perto de quinze anos, foi-lhe dada licença para fazer um forno maior. “Um forno a lenha, na mesma”, frisa.

 

Agora, em ‘época baixa’, este forno trabalha duas vezes por dia. “Faz-se pão de manhã e outra vez por volta das quatro e meia da tarde. Há pessoas que gostam do pão quentinho e por isso fazemos assim para haver pão quente também à tarde”, explica Ercília.

 

Dependendo das épocas ao fim de semana e no verão o forno já trabalha mais vezes.

 

“Esta vida do pão sou eu e os meus filhos”. O negócio está agora em nome de Glória e de José Manuel. “Uma semana está um, outra semana está o outro e eu continuo por aí a dar um jeitinho, a dar uma ajudinha. Gosto muito do que tenho feito”.

 

Ercília continua a gostar de estar com os clientes, de falar com as pessoas.

 

“A minha vida é toda feita aqui de roda do pão e da horta. Tenho por aí flores e umas coisitas. Gosto, adoro!”.

 

Ercília viveu a sua infância em São Martinho das Amoreiras. Fez a terceira classe no Corte Malhão. Depois ficou em casa a ajudar os pais. “O meu pai sempre teve sementeiras, sempre teve animais e eu sempre fui muito ligada ao campo”.

 

Depois de casar, Ercília continuou a viver perto de São Martinho, também num monte. Ali, o seu marido também semeava trigo e outros cereais e também tinham animais. “Essas coisas que fazem parte do monte”.

 

O marido de Ercília, há três anos, teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Não anda e pouco fala. A mãe de Ercília também vive em sua casa. Tem 92 anos e também não anda. Ercília cuida dos dois com a ajuda de Leonilde, “uma moça que vem aí todos os dias dar uma ajudinha na higiene e no almocinho”, realça, “e o meu filho também ajuda muito o pai, muito!”.

 

“Eu na fase que estou a viver, se eu fosse uma pessoa que pensasse que não ‘dou feito’, que não consigo, então não fazia mesmo nada e acabava e parava por ali. Mas eu pensei ‘Deus é grande, Deus é grande e ajuda-me’”.

 

 “O meu marido foi uma pessoa criada no monte e sempre gostou de ter animais, sobretudo cabritas... ainda tenho ali umas três e três chibos e como sei que era uma coisa que ele adorava vou mantendo enquanto puder. O filho fez uma ruazinha até ali e muitas vezes levo-o lá, na cadeira, e damos comida às cabras e vê-se mesmo que ele é feliz em estar ali”, relata emocionada.

 

Ercília diz sentir-se “muito bem” com a sua vida.

 

Ercília transmite uma enorme paz interior. Segundo Glória “tem um coração do tamanho do mundo. Cabe muita coisa lá dentro”.

 

O Pão da Ercília é cada vez mais conhecido, dentro e fora do concelho, dentro e fora do país.

 

Há cada vez mais pessoas que vêm de fora e levam aos 4 e 5 pães para a semana. “Há quem o congele”.

 

Cada vez mais, chegam ao balcão estrangeiros para provar o Pão da Ercília. Um dia o neto ligou-lhe da Finlândia, onde se encontrava no âmbito do programa Erasmus, para lhe contar, com orgulho, que “o pão da minha avó até aqui é conhecido”. “Tinha visto num guia turístico”, conta Glória.

 

“Isto foi a minha vida”, diz. “e vou manter aqui o ‘meu’ pão e enquanto for eu a andar por aí não vai haver mudanças”, garante.

 

 

Pedro Pinto Leite