PALAVRA DE PALHAÇO

Bora apanhar boleias!

Confesso que sou um condutor “porreiro”


Por:Enano Torres

2018-05-23
Aproxima-se a época de começamos a ver com maior frequência nas estradas alentejanas pessoas com mochilas às costas a pedir boleia.

Aproxima-se a época de começamos a ver com maior frequência nas estradas alentejanas pessoas com mochilas às costas a pedir boleia. Confesso que sou um condutor “porreiro”. Daqueles que têm o hábito de parar e de me informar sobre o destino desejado, embora alguns já o tenham numa cartolina e poupem essa tarefa. Mas eu gosto de parar na mesma e falar com eles cara a cara, aceitando levá-los comigo, na maioria dos casos, se o destino coincidir ou se, pelo menos, for na mesma direção. Sei muito bem as sensações que se vivem quando se anda à boleia, pois na minha adolescência passei um verão inteiro a viajar pela Europa apenas dessa maneira. Mentalmente é cansativo ver passar carros até que um decida parar mas, quando algum para, é uma alegria tremenda, mesmo que a boleia não seja bem sucedida.

 

A cultura do “autostop” já foi mais popular pelo mundo. Era muito comum ver-se pessoas, ao longo da estrada, com o polegar para cima (atenção crianças, não se confundam com o símbolo “like” das redes sociais. Isso é outra coisa).

 

Mas, infelizmente, quer pela falta de confiança dos condutores ou pelo surgimento da cultura “o meu é meu” e do medo instalado que existe de não se viverem tempos seguros, andar à boleia foi perdendo adeptos. Muitos acham que, quem o faz, são só os “hippies” (em tom depreciativo) ou pessoal que deseja poupar alguns euros, mas não. Já dei boleias a idosos alentejanos que precisavam, por exemplo, de ir ao centro de Saúde ou fazer as compras do fim de semana e, pura e simplesmente, não tinham transporte.

 

Imagina que por necessidade precisas de andar à boleia. Começas levantando lentamente o polegar com um sorriso leve que transmita que desejas um lugar no lugar de trás. Depois os carros vão passando e nada acontece. Alguns condutores nem te olham. Outros fazem mau ar. Há quem devolva o sorriso mas continua. Passam 5, 10, 20 carros até que, enfim, um para dez metros mais à frente. Corres como um desesperado antes que mudem de opinião. Aceitas a boleia e enfias a mochila torpemente em qualquer lugar do veículo.

 

Aí começa um dialogo de duas partes que não se conhecem. Contas-lhe acerca das tuas viagens, quem és e de onde vens, para onde vais. E o condutor partilha a sua história. Nesse momento entendes que o sentido do “autostop” não é poupar dinheiro mas viver uma experiência de partilha com pessoas que permites que te conheçam e vice-versa.

 

Agora com a invasão das tecnologias voltou de novo o conceito de “Carpooling” surgido no pós 2º Guerra Mundial e a crise do petróleo e que consiste em partilhar um mesmo carro entre pessoas que tem uma rota de viagem igual ou parecida, partilhando entre todos os custos do gasóleo e das portagens.

 

É uma alternativa de poupança como uma das bases do consumo colaborativo relativa ao transporte, eu tenho um carro, tu precisas de te deslocar, por que não partilhamos? Além do forte impacto ambiental medido em emissões poupadas; fazendo despertar o objetivo da economia de partilha.

 

Sendo assim faço apelo para que, a seguir a leres este artigo e da próxima vez que encontrares uma pessoa a pedir boleia, sejas generoso contigo mesmo e experimenta a partilha. Se tiveres de fazer uma viagem longa, é melhor fazê-la acompanhado que sozinho. Com certeza a viagem será mais curta e até ficarás com saudades da próxima viagem ser partilhada até Mercúrio!

 

Enano Torres