MIRADOIRO

Os pilhos e o Facebook

Socrates para aqui, Pinho para ali, incêndios para acolá


Por:António Quaresma

Ben Rosett - unsplash
2018-05-23
Há exemplos de corrupção, suspeita ou confirmada, em todos os partidos do ‘arco da governação’

Socrates para aqui, Pinho para ali, incêndios para acolá, isto é o dia-a-dia, hora-a-hora do comentário político no Facebook, um dos “lugares” onde hoje este comentário mais se faz, seguindo, aliás, de perto, o discurso dos media e o dos chefes partidários de serviço. De facto, a agenda destes pequenos comentadores replica a agenda da guerrilha partidária.

 

Embora ainda não julgados pelo tribunal, acredito que os políticos na berlinda são uns pilhos e que representam uma situação muito grave no panorama político nacional. Aceito também que a estrutura para controlar incêndios enferma de diversas debilidades, exigindo reorganização e, possivelmente, o arredar de alguns figurões. O que acrescenta preocupação a estas questões é a forma como os partidos, hoje na oposição, as manobram para a guerrilha político-partidária. Não se trata de resolver problemas, sequer da normal oposição entre opiniões diferentes, mas, tão-só, de chicana. Convenço-me que, para eles, quanto pior, melhor.

 

O tema da corrupção de políticos não se esgota, é bom de ver, em Sócrates e Pinho, como esta última onda parece fazer crer. Há exemplos de corrupção, suspeita ou confirmada, em todos os partidos do “arco da governação”. Nem merece a pena citá-los. Claro que ela, a onda, só cresce desta forma, porque há uma multidão de diminutos sectários de base que a faz engrossar. É olhar o Facebook e, em geral, tudo o que, na internet, admite posts com comentários. Há muito quem veja os “corruptos” dos outros, mas não os seus.

 

Aliás, há servidores em todas as áreas, como no jornalismo: lembram-se do indizível Camilo Lourenço, “licenciado em Direito Económico” (!), a garantir a segurança do BES, na véspera deste “estoirar” em Portugal e quando, no estrangeiro, as coisas já estavam a descambar? O presidente Cavaco também o fez, o que mostra como estas questões atravessam os partidos do poder. O BES que, no caso Sócrates, está bem presente.

 

Claramente, a nossa democracia está afectada/infectada por um mal: a captura do aparelho de Estado pelos interesses privados, via partidos que ocupam o poder, como o caso Sócrates bem parece evidenciar. É nessa promiscuidade que assentam as malfeitorias que hoje se criticam – assim como outras que não é tão comum criticarem-se. Isto está dito e redito por quem verdadeiramente quer a solução dos problemas. Mas, evidentemente, com os interesses que continuam a existir e a agir, bem assim a incapacidade/recusa de “ver”, que contagiou esses partidos – do topo às bases – não parece existir grande possibilidade de melhorar. Enfim, talvez o “barulho” torne mais prudentes os prevaricadores, mas o caminho passa, naturalmente, por criar condições legais ou outras para limitar as possibilidades de perversão da acção dos governantes.

 

O mesmo se pode dizer dos incêndios, que têm como pano de fundo as tragédias que ocorreram em 2017. Alguém que pense pela sua cabeça imagina que, se os críticos estivessem no governo, tudo tinha sido diferente? Quando a situação económica e social conhece estabilidade, este é mais um tema propício para agitar.

 

Olhar para o tipo de “debate” político facebookiano é deprimente. Nesta plural e desigual plataforma, a própria confusão dos conceitos, que, a cada momento, se encontra, também o é. Há gente soi-disant social-democrata a publicar panegíricos a Salazar e ao Salazarismo e incríveis diatribes racistas! Cenário bizarro, ou talvez não, pois, no incerto tempo que corre, tempo de “pós-verdade”, tudo parece ser possível e, até, natural.

 

Dirão alguns, para despachar o assunto: “isto é conversa de esquerda”. Reconheço que tanto na escolha do tema, como na sua abordagem, há uma certa visão de esquerda. Mas o relevante no debate político não é a completa neutralidade, sim a lucidez sobre as questões e a capacidade de evitar o sectarismo. A disciplina de pensamento e, já agora, a honestidade intelectual parecem-me a base necessária para um debate sério. O que, convenhamos, nem sempre é coisa fácil de encontrar no Facebook, como fora dele.

 

António Quaresma