OPINIÃO PÚBLICA

A CONSERVAÇÃO E A PROTEÇÃO

Muitos dos que se afirmam como progressistas acabam por ser profundamente conservadores


Por:Fernando Almeida

Henry Hustava - unsplash
2018-05-23
É frequentemente uma visão edílica de um mundo inexistente, porque efetivamente não é mais que recriação romântica de um passado que não se viveu

Talvez seja o fenómeno de “impregnação” que costumamos observar e descrever nos animais, mas que possivelmente, com roupagens mais sofisticadas, que nos atinge a nós mesmos. Konrad Lorenz criou o conceito exemplificando o que se passa com os gansos que se fixam no primeiro objeto que veem depois de sair do ovo. Alguns dias passados e as pequenas aves começam a desconfiar e temer o que é estranho, o que é novo, o que é diferente daquilo que conheceram ao nascer. Se os patitos passarem as primeiras horas de vida com uma pessoa, repudiarão a própria mãe que lhes seja apresentada mais tarde, e só confiarão plenamente no humano que os viu nascer. Muitas aves de rapina, por exemplo, depois de divagar na adolescência procuram, já no início da idade adulta a região onde nasceram. É uma saudade do passado ou o conforto do conhecido e familiar.

 

Esta “impregnação”, o chamado “imprinting” da linguagem da etologia e da psicologia, acontece com outros animais e, com significativas diferenças, também no ser humano. Os bebés a partir de certa idade começam a “estranhar” as pessoas desconhecidas e os espaços que não sejam familiares, e sentem-se mais confortáveis em ambientes conhecidos. Também parece que as imagens da nossa juventude nos dão conforto, parece que é daquilo que ficamos a gostar para o resto da vida. É como se também nós tivéssemos sido “impregnados” daquela ideia de mundo, das paisagens, dos cheiros, dos sabores, dos sons, das maneiras de ser e de pensar, e assim os tentássemos conservar para o resto da vida. Por isso ouvimos os mais velhos dizer “no meu tempo”, como se o “seu” tempo fosse coisa passada, e a vida atual já fosse o tempo de outros. Seja ou não um fenómeno associável ao “imprinting” da etologia, a verdade é que geralmente sentimos que o mundo dos nossos verdes anos era um mundo ideal, e que muitas vezes o tentamos conservar a todo o custo. 

 

É essa forma de pensar que torna o Homem conservador por natureza e conduz a um certo imobilismo das sociedades: muitos dos homens que mandam, geralmente homens maduros e às vezes mesmo velhos, acham que bom era tudo o que havia quando eram jovens, e assim têm grande dificuldade de mudar. Lembro-me do regulamento de cores vigente no bairro lisboeta em que nasci: só se podiam usar cores como o “rosa velho”, o “verde desmaiado”, o “amarelo pálido”. Passados anos percebi o porquê destas cores tristonhas e velhas. Quem tinha criado aquele regulamento de cores tinha crescido na cidade de prédios sem obras, por causa do congelamento das rendas e das crises sucessivas, e pensava que a tradição era realmente aquela das cores mortiças. De facto aquele tinha sido apenas um momento infeliz de degradação do tecido urbano, mas que os fazedores de regulamentos acharam que devia ser modelo eternizado para o futuro.

 

Outro tanto acontece com a perceção de elementos da paisagem que, quando surgem são repudiados pelo natural conservadorismo das pessoas, mas que depois de instalados passam a ser defendidos encarniçadamente por se entender serem património que deve ser preservado a todo o custo. Foi assim com as casas dos “brasileiros”, palacetes mal vistos por muita intelectualidade do seu tempo, talvez um misto de inveja e conservadorismo, mas que hoje se consideram património precioso e intocável. É assim a cada obra que implique mudança estética, como arranjo de ruas e espaços públicos, instalação de estátuas, etc. Os mesmos que protestam com a mudança, acabam por vezes por as defender energicamente mais tarde.

 

Tudo isto tem que ver com a vida, com o ser humano e com a sua forma de ver e usar o mundo. Tem por isso muito que ver com os problemas de ambiente e as diferentes formas de o perceber. Há quem julgue que os nossos cuidados com a natureza devem ser perspetivados enquanto “conservação da natureza”, mas há também quem pense que devemos ver o problema enquanto necessidade de fazer “proteção da natureza”. Pode parecer indiferente ou insignificante essa diferença, mas não o é, e o facto de dominar entre nós a ideia de que é necessário tomar medidas de “conservação” reflete uma visão saudosista e conservadora do passado, como se no passado tudo fosse bom e portanto digno de ser mantido. 

 

Essa visão que entre nós domina de “conservação da natureza” tem tendência a conduzir a medidas desfasadas do mundo atual, e assim impraticáveis e condenadas a criar conflitos na sociedade e ineficácia na proteção à natureza. Por exemplo, não se pode exigir a uma comunidade que pratique a agricultura tradicional que os seus pais e avós praticavam em meados do século passado, e esperar que medidas com essa orientação possam ser bem-sucedidas. Essa visão conservadora criará necessariamente conflitos e confrontações entre interesses que parecerão antagónicos e inconciliáveis. É frequentemente uma visão edílica de um mundo inexistente, porque efetivamente não é mais que recriação romântica de um passado que não se viveu.

 

É claro que uma visão de “proteção da natureza” proporciona uma outra perceção do mundo e capacidade de lidar com a mudança. Quem olha para a natureza com a perspetiva da “proteção” não reclama que se faça a agricultura do tempo dos avós, mas antes uma agricultura que protegendo os recursos como solo, água, fauna e a flora, consiga ser economicamente viável e apetecível para os agricultores. A visão da proteção à natureza é uma visão dinâmica e participada pelo tecido social e económico, e tem que recomendar práticas que sejam as melhores para o ambiente e para quem lá vive, o que não exclui os agentes económicos locais.

 

O mais curioso é que muitos dos que se afirmam e definem como progressistas acabam, sem perceber, por ser profundamente conservadores.

 

 

Fernando Almeida