OPINIÃO PÚBLICA

Fora da caixa

A escola fez-se para que os alunos possam aprender, não para os classificar


Por:Fernando Almeida

Antoine Dautry (Unsplash)
2018-06-20
Como se a classificação numérica que se atribui aos alunos fosse realmente uma avaliação que de algum modo ajudasse a corrigir falhas e a melhorar processos de aprendizagem

Grande volta teria que levar a educação deste nosso Portugal para que conseguisse evoluir de forma a satisfazer as nossas necessidades no século XXI. Mas infelizmente não vejo que tal venha a acontecer, tanto pela inércia das instituições e seus atores, como pela falta de capacidade crítica, de inovação, e mesmo de simples inteligência da massa dos envolvidos. E é confrangedor ver o futuro a escapar-se-nos entre os dedos pelo conservadorismo primário do sistema educativo, ver os países mais desenvolvidos a ganhar distância e a desaparecer num horizonte que para nós, prisioneiros do passado e do preconceito, se torna apenas um sonho inatingível. 

 

Por cá ainda muita gente não entendeu que a aprendizagem dispensa a classificação, e não é estranho porque vivemos numa sociedade muito pouco igualitária que sempre usou o acesso à cultura e ao conhecimento no geral como fator de diferenciação social. Será provavelmente por isso que a educação em Portugal se centra mais na classificação que na aprendizagem. Mais que ajudar todos a aprender, parece que entre nós o objetivo da escola é hierarquizar os indivíduos. Esta abordagem pervertida do processo de aprender tem conduzido a privilegiar a classificação em prejuízo da aprendizagem, e alguns imaginam mesmo que nada se aprendia se não existisse a coação das “notinhas” dos testes, do fim do ano, e do “passar ou chumbar”…

 

Esta obsessão doentia da classificação (a que costumam chamar de “avaliação”) é em boa medida responsável pela forma efémera e descartável que o conhecimento assume entre a maioria dos jovens. Entretanto, se o sistema se especializou na classificação, continua absolutamente incompetente no desenvolvimento de uma verdadeira avaliação, que possa contribuir para melhorar a aprendizagem. Estes dois conceitos, avaliação e classificação, embora andem frequentemente confundidos correspondem a meu ver a atitudes radicalmente distintas. Façamos uma comparação:

 

Imagine que leva o seu filho ao médico para saber qual o seu estado de saúde, fazer aquilo que se costuma chamar um “check-up”. Imagine que o médico pede apenas análises à urina, e nada perguntava sobre hábitos de vida, alimentação, não solicitava nenhuns outros meios de diagnóstico… Imagine ainda que numa segunda consulta o médico lhe diz apenas que o seu filho, numa escala entre 0 e 20, tem uma saúde de 12 valores. Se tal acontecesse, achava isso aceitável? Ficaria apenas a saber que há quem tenha uma saúde melhor que o seu filho, mas provavelmente também deverá haver quem tenha uma saúde pior… mas apenas isso. Que poderá fazer para melhorar a saúde do seu filho sem ter um diagnóstico qualitativo mais preciso? A saúde do seu filho não tem a desejável classificação de 20 porquê? Seria fígado? Seria estômago? Seria um problema de falta de exercício físico? Seriam erros de alimentação? Seria genético? E que valor teria aquela informação baseada num único meio de diagnóstico e ainda por cima transformada num valor numérico abstrato? Claro que é impensável que algo assim pudesse acontecer. Seria definitivamente uma coisa inaceitável, não acha?!

 

Se acha realmente que essa situação seria uma loucura inaceitável, por que motivo aceita de bom grado que o professor do seu filho o “avalie” em muitos casos quase só com base em provas escritas de “formato exame” e que no fim lhe diga apenas que ele tem, por exemplo, 12 valores? O que significará esse “12 valores”? Será que escreve bem, mas não estuda o bastante? Será que pelo contrário estuda demais, mas baseia o seu trabalho na memória e não na compreensão? Será que não compreende bem o que lê? Terá problemas de concentração? Será simplesmente desinteresse pelos programas escolares obsoletos? Serão problemas de integração na turma, ou alguma instabilidade emocional adolescente que lhe afeta o desempenho? Como poderá ajudar o seu filho se tudo o que lhe dizem sobre ele é um número, ou quanto muito uma grelha medíocre em que se aplicam cruzes sobre categorias genéricas?

 

O estranho é que parece que todos convivem com este absurdo com a maior das naturalidades, como se a classificação numérica que se atribui aos alunos, que de facto não é mais que uma seriação abstrata, fosse realmente uma avaliação que de algum modo ajudasse a corrigir falhas e a melhorar processos de aprendizagem, portanto que contribuísse para o desenvolvimento dos alunos. Ora não será necessário ser muito inteligente ou sábio para perceber que a classificação numérica atribuída aos alunos, e mesmo as informações dadas aos pais sobre os alunos quando baseadas em tabelas de classes (que são geralmente um instrumento burocrático inútil), contribuem muito pouco para que se possa corrigir e melhorar a aprendizagem dos alunos. Para os que andam mais distraídos, relembra-se: a escola fez-se para que os alunos possam aprender, não para os classificar.

 

Fernando Almeida