FORA DE LINHA

O endireita de Odemira

Uma vida dedicada à cura da dor


Por:Filipa Murta

2018-06-20
Manuel Ferreira, mais conhecido por “Ferreirinha”, herdou através do pai o dom de tratar dos problemas de ossos e ligamentos. Apesar de trabalhar na agricultura, há 40 anos que melhora a vida de várias pessoas

Nascido e criado no concelho de Odemira, “Ferreirinha” nunca esqueceu a freguesia de São Salvador e os Valinhos dos Ameixiais onde passou a sua infância. Aos 62 anos, considera-se um homem experiente e de muito trabalho. Dedica-se à agricultura desde sempre, mas também já passou pela construção civil, pela cortiça e ainda foi motorista depois de terminar o serviço na tropa. Entretanto, herdou um dom para vida. Desde pequeno que observava a forma como o pai resolvia apenas com as mãos e em poucos minutos, uma dor no pulso, no braço ou até nas pernas. Manuel Ferreira recorda-se bem das vezes que o pai teve de “amanhar” os seus ossos.

 

Atualmente, é o próprio a perder a conta do número de pessoas que recebe por dia e o mais impressionante é que não existe nenhum consultório privado, nem um local específico. A sala de um dos cafés mais próximos, a casa do endireita ou inclusive a berma da estrada, são por norma os locais em que costuma atuar. 

 

Como antigamente não existiam telemóveis, Manuel Ferreira tinha de se deslocar até aos mercados e sítios certos para poder encontrar-se com quem procurava a sua ajuda. Já há alguns anos que vai quase todas as segundas-feiras para Odemira, assim como, aos domingos e feriados está disponível para receber até à hora de almoço. Informações que eram transmitidas de “boca em boca” e que passaram a ser uma referência para o encontrarem. 

 

Na sua perspetiva, “cada caso é um caso” e por isso não toca em ninguém, sem começar por medir a pulsação, porque as batidas do coração determinam o estado de saúde das pessoas. Se a pulsação for fraca e estiverem mais nervosos do que é normal, opta por não avançar, sendo casos a encaminhar para o médico. 

 

No final, não é cobrado nenhum valor monetário. Para o endireita, o que importa é “ajudar quem precisa, de forma simples e honesta”. Fica à vontade de cada pessoa, contribuir ou não com algum valor simbólico. O convívio é uma das coisas que mais preza, uma vez que representa as amizades que se criam, só por melhorar um pouco a vida de alguém.

 

Muitos são os curiosos e os interessados em aprender as técnicas de Manuel Ferreira. Enfermeiros e massagistas de vários pontos do país, pedem-lhe para assistir a alguns encontros, na tentativa de captar certos pormenores. Por mais que tentem ainda não conseguiram repetir um único movimento das suas mãos. O endireita afirma que “não é fadista quem quer” e sobre o que sabe “não se aprende nem se ensina”.

 

Apesar de ter apenas o 4.º ano de escolaridade, “Ferreirinha” conhece o esqueleto humano de uma ponta à outra. Os dedos dizem-lhe tudo o que precisa saber e por vezes, até sente choques, sinais que o alertam para tomar as decisões acertadas no momento. Nesse sentido, costuma relembrar as vezes que as pessoas confundem as dores, referindo que se trata de uma tendinite ou dos rins, quando pode ser apenas uma vértebra fora do lugar junto ao nervo ciático. 

 

Em relação às fases de maior procura, afirma que não há dias nem meses específicos para as pessoas se aleijarem. Muitas quedas e deslocamentos podem estar associados à época da cortiça, à apanha de azeitonas, entre outros. 

 

Estima que já conta com 40 anos de reconhecimento por praticar o bem e por isso acha que o que tem qualidade não precisa de ser divulgado. Afirma que por vezes são cometidos erros, mas a maior parte dos casos são resolvidos com sucesso.

 

Relembra ainda um dos sonhos mais marcantes da sua vida. Houve uma noite em que sonhou estar a tratar de um joelho deslocado de uma senhora e sem esperar, bateram à porta da sua casa. Quando foi ver tudo era real. O problema ficou resolvido e a senhora ainda conseguiu apresentar-se, de manhã, no trabalho. 

 

Entre tantos outros episódios, “Ferreirinha” decidiu ir visitar uma prima ao Algarve, e eis que quando chegou teve logo serviço para fazer, sem nada estar marcado. Desta vez uma rapariga tinha caído das escadas… 

 

Assim sendo, espera poder continuar a curar a dor de muitas pessoas, sem receio que o dom lhe falte. Para si, “os endireitas nunca morrem de velhos, porque sofrem na alma”.

 

 

Filipa Murta

Estudante de Ciências da Comunicação da UAlg