MIRADOIRO

O padrão pau

O pau é intemporal


Por:António Quaresma

Thought Catalog (Unsplash)
2018-06-20
“O euro é como se fosse feito de pau, ou de pau feito, pois é com ele que bem nos temos fodid, tramado”

Desde que a humanidade necessitou de um meio para facilitar e mesmo possibilitar as transações comerciais, surgiu a moeda, termo que deriva, imaginem, do nome de uma deusa romana, Juno Moneta. Nos tempos mais antigos usaram-se produtos considerados valiosos, como o sal, de que veio a palavra “salário”. Depois, durante muitos séculos, utilizaram-se uns discos de metal (cobre, prata, ouro), com o valor marcado na face, até que, surgiram, no meio da desconfiança geral, as notas de banco, pedaços de papel, sem valia intrínseca, mas que garantiam um certo montante em ouro.  Hoje, toda a gente as usa e nem repara que são apenas bocados de papel.

 

Vejam-se alguns exemplos de questões relacionadas com a moeda, na época contemporânea. O grande comércio internacional deu a origem ao sistema monetário designado por padrão-ouro, em que o valor da moeda estava alinhado com o valor do ouro, sistema entretanto abandonado. Mais recentemente surgiram os petrodólares, definidos como as divisas originárias do negócio do petróleo, o produto que tem feito andar o mundo e que tem sido causa de guerras humanitárias e outras virtuosas patifarias, em geral da autoria de respeitadas democracias, soi disant respeitadoras dos direitos humanos.

 

Bem, vou escambar para um registo mais caseiro, até porque o assunto atrás tem a sua complexidade, e o autor destas linhas arriscava-se a debitar asneira grossa. Hoje, em Portugal, usamos uma moeda, de nome Euro, comum a vários países europeus, mas muitos de nós recordam-se do Escudo, introduzido com a instauração da República, que era dividido em fracções, designadas por centavos. O escudo tinha cem centavos.

 

Muita gente continuava, porém, a utilizar designações anteriores, o que se tornava simples, pois o escudo valia 1.000 réis (plural de “real”, a moeda do tempo da monarquia). Assim, por exemplo, 100 escudos, diziam-se muitas vezes 100 mil réis, ou mais vulgarmente 100 mérreis. Um caso especial: 1.000 escudos era um “conto de réis” e assim por diante (dois contos, três contos, etc.).

 

Mas na linguagem comum, era o “padrão pau”, ou “sistema pau”: dizia-se, por exemplo, 10 paus, 100 paus, etc. O pau era o escudo, aliás usado sempre no plural, pois um escudo nunca era um pau, mas 10 tostões (outra denominação antiga). Qual a origem do pau? Há explicações, algumas delas bem elaboradas, mas não vou agora explaná-las, porque é chato. O leitor curioso pode buscar na Internet, onde, como se sabe, no meio da maior porcaria se pode encontrar a informação mais interessante.

 

O que me conduziu a este tema foi uma quase acesa discussão que tive com o meu filho Filipe, quando ele me informou do preço de um telemóvel: “200 paus”. “Que é lá isso?”, perguntei, quando me apercebi de que os paus dele correspondiam a euros. Soou-me bué de mal, pois vivi grande parte da minha vida no “padrão pau”, associado ao escudo. Explicou-me que não existia qualquer erro ou incompatibilidade no uso do antigo pau, sequer de anacronismo, pois o pau era intemporal. E interrogou-me: “como chamas então aos euros?”. E eu: “aéreos, porque, embora de valor mais elevado, voam mais depressa que os escudos, os verdadeiros, os eternos paus”. E ele, que não, que “o euro é como se fosse feito de pau, ou de pau feito, pois é com ele que bem nos temos fodid, tramado”.

 

A conversa avinagrou um pouco, eu na minha, ele na dele, numa insanável diferença com clara componente geracional. Na falta de argumento definitivo, acabei por puxar dos galões de pai, que é a última, mas vã, tentativa de um cota se impor à descendência. No entanto, sem acordo, o que nestas coisas da moeda é muito frequente, cambiámos o tema e acabámos a tagarelar sobre as gracinhas do Lourencinho, o seu filho e meu neto, mais novo, um tema pacífico e agradável.

 

António Quaresma