ENCONTREI EM ODEMIRA

O ar que se respira, a luz que se vê

Custa adjectivar esta região


Por:Sara Serrão

2018-06-20
Este mês encontrei em Odemira Anabela Coimbra, 51 anos, empresária na área do turismo rural, a viver em São Teotónio

- Qual a sua ligação a este território?

 

Sou de Lisboa mas estou nos arredores de São Teotónio a explorar uma unidade de turismo rural e ao fim de 11 anos consegui ter uma licença de turismo!

 

Trabalhava na área técnica na SIBS, na rede Multibanco, na Payshop, onde estava disponível 24 horas por dia, e decidi mudar de vida para construir algo para mim própria em vez de trabalhar sem parar para outros. Passava cá férias e, sem ter muita consciência disso, tinha uma forte ligação a esta região apesar de não ter aqui raízes familiares. Foi o instinto que me fez procurar um terreno que visitei de manhã e onde voltei à tarde e me apaixonei pelo pôr-do-sol, já lá vão uns anos.

 

Quando me instalei por cá fui trabalhar para o campo, para as estufas, para me integrar e conhecer a região por outra perspectiva que não a de turista. Depois trabalhei na área imobiliária onde ganhei pouco rendimento financeiro mas muito conhecimento dos cantos da região e contacto com pessoas maravilhosas, que vivem por vezes isoladas e têm muita necessidade de conversar.

 

 

- O que tem esta terra de especial?

 

O que me encantou nesta terra foi a tranquilidade, a paz que nos transmitia, a sensação de que era uma terra algo selvagem, com segredos ainda por descobrir.

 

Costumava ser uma sensação única passear por aí e observar fauna e flora, cada praia com o seu “design exclusivo”, o ar que se respirava, a luminosidade. Enfim, para quem gosta da natureza, esta região cativava e ao mesmo tempo custava adjectivá-la. Aqui era possível fazer um “reset” pessoal e achei que poderia criar um lugar onde ofereceria a outros o sossego do qual eu tirei partido antes de ter esta actividade. Sim, porque desde que embarquei neste projecto, que requer muito tempo e dedicação, curiosamente eu é que deixei de ter férias! (risos) No entanto o trabalho não me assusta e é muito bom sentir o retorno das pessoas que aqui passam, por uma ou por quinze noites, é indiferente. Cria-se uma ligação com o espaço, com a região e há aqueles que saem daqui com uma lágrima no canto do olho, o que é muito recompensador.

 

 

- O que gostaria que acontecesse (ou não) no futuro de Odemira?

 

Quando trabalhei na área imobiliária, por esses montes fora, fiquei consternada por ver as condições em que vivem algumas pessoas, numa solidão tremenda, em casas degradadas – com frio, por vezes sem luz ou sem água canalizada ou sem condições sanitárias. Por outro lado, sei que existe um apoio social num caso de doença ou de necessidades básicas, mas a companhia e a partilha fazem muita falta. Vi pessoas cujo convívio quase exclusivo era com o seu rebanho e muito ocasionalmente eram visitadas pela família. Os meus antigos vizinhos que tomavam conta do monte ao lado não tinham cartão do Serviço Nacional de Saúde, não tinham os bilhetes de identidade em dia, não tinham acesso a qualquer tipo de apoio, por desconhecimento. Fiquei feliz por ter podido ajudá-los e portanto inquieta-me se chegam ou não respostas concretas e humanas a estas pessoas aparentemente esquecidas, porque a maior parte delas não tem forma nem força para se deslocar à procura de soluções. Da mesma forma também me questiono sobre as respostas sociais ao nível da infância e da juventude porque as iniciativas e as infra-estruturas estão concentradas na sede do concelho e nem todos os jovens têm a possibilidade logística ou financeira de chegar a Odemira.

 

Em relação ao turismo, preocupa-me a sazonalidade, não do ponto de vista da procura - porque tenho clientes todo o ano, mas do ponto de vista da oferta. Penso que a sazonalidade tem-se vindo a esbater mas ainda não há uma oferta consistente para dar resposta às necessidades turísticas no inverno e se não houver respostas, consequentemente não há turistas ou os que há vêm uma vez, não voltam e passam a palavra de que não faz sentido viajar para o sudoeste de Portugal na época baixa ou média. É claro que pode não compensar estarem todos os estabelecimentos abertos, mas deveria haver um calendário concertado entre os empresários ligados ao turismo para assegurar, com persistência e colaboração, “serviços mínimos” em cada localidade. Na minha opinião, é preferível conseguirmos trabalhar mais tranquilamente ao longo do ano e não estarmos dependentes da intensidade do verão.

 

Por fim, perturba-me o crescimento descontrolado da agricultura intensiva (tive oportunidade de trabalhar em estufas e sei que se utilizam químicos), as suas implicações ambientais e a descaracterização que esse desenvolvimento agrícola tem provocado na região e nas suas vilas e aldeias. Pergunto-me se existem infra-estruturas suficientes para tantas explorações e trabalhadores, ao nível de habitação digna, gestão de resíduos, saneamento básico, consumo de água, etc.

 

Tanto me apercebo eu dessa forte perda de identidade e do impacto negativo crescente na paisagem, como se apercebem as pessoas que são de cá, as que um dia escolheram esta região para viver, assim como todos os que nos visitam.

 

Penso que o slogan “as melhores praias de Portugal” não é compatível com esta nova realidade.

 

Acredito que a diversificação das actividades económicas é positiva mas que seja feita com conta, peso e medida.

 

#encontreiemodemira

 

 

Sara Serrão