A MÁQUINA DO TEMPO

O mundo do futebol

Já começou


Por:Artur Efigénio

2018-06-20
Pode o governo e todos os que desejam que não sejam divulgadas notícias menos abonatórias, tais como sermos o país que menos cresce na Europa, se darem por contentes

Pronto. Já iniciou o campeonato do mundo de futebol. Podem dizer adeus a tudo o que é importante na vida, no país, nas televisões e nas redes sociais (para os que fazem vida por essas paragens). A partir de agora, vamos ter um mês e meio em cheio. Só se vai ouvir, ver e respirar futebol.

 

Mas essa empreitada não se iniciou agora, já começou há uns meses atrás, com todas as reportagens sobre a seleção, quem são os jogadores selecionados, quem vai jogar a titular, o que disse o selecionador, o que disse o Ronaldo, onde vão ficar, o que vão comer, e tudo o mais que rodeia esse circo. Tudo isto a acrescer ao que já existia de predominância do futebol na comunicação social.

 

Pode o governo e todos os que desejam que não sejam divulgadas notícias menos abonatórias, tais como sermos o país que menos cresce na Europa, ou sermos o terceiro país europeu, à exceção da Lituânia e da Letónia, com mais desigualdades, se darem por contentes, pois os noticiários televisivos, rádios e os restantes tempos de antena, estarão completamente saturados com fait divers (ia escrever notícias, mas a definição de notícia não se compagina com aquilo que normalmente acontece na espuma do mundo do futebol).

 

Antes de avançar, gostaria de fazer uma declaração de interesses. Gosto de futebol, sou um adepto da seleção nacional, e sou também um sportinguista (infelizmente, também já lá iremos!). Pretendo ver todos os jogos da seleção nacional, e sentir-me-ei muito agradado caso o nosso país ganhe o campeonato na Rússia. Mas, infelizmente detesto tudo aquilo que rodeia e é acessório a esse desporto. Mesmo que se esqueça isso, é simplesmente um desporto. E é um entre muitos, alguns até bem mais interessantes.

 

Pena é que a sociedade portuguesa esteja, a muitos níveis, cativa desse verdadeiro monopólio do desporto. Deputados que são comentadores, inenarráveis comentadores que se tornam políticos, políticos que se tornam presidentes de clubes, e clubes que tentam sequestrar a sociedade com o assunto futebol. Tudo boa gente, convenhamos! Amigos que se chateiam devido ao futebol, cidades que se odeiam pelo futebol e claques que espancam e matam pelo mesmo e fútil motivo. O futebol.

 

As claques, essas organizações pró-criminosas, compostas por energúmenos sem escrúpulos, mas acolhidas pelos clubes e pelos seus presidentes como a sua tropa de choque privada, são o corolário da violência afeta ao futebol. Basta ver as imagens que antecedem um jogo do FCP em Lisboa, ou um jogo do SLB no Porto, onde são montadas operações de segurança, dignas de uma situação de estado de sítio, ou de um cenário de guerra, para ver o quanto aqueles homens e mulheres, com muita necessidade de um sentimento de pertença, precisam de ajuda médica especializada.

 

Relativamente à novela do Sporting. Apresenta-se também como um verdadeiro case study daquilo que referi, pois é um reflexo do mediatismo e de tudo o que gira em torno do futebol. Poder e muitos milhões misturados com impunidade. Uma única pessoa, com a sua sede de protagonismo, aliada a uma vaidade desmesurada e uma falta de humildade e bom senso, consegue sequestrar um clube, destruir uma equipa e, no limite, até colocar o próprio Sporting enquanto instituição em risco.

 

Estes são os tempos que correm, e não sei como poderão ser alterados, pois quem verdadeiramente detém o poder em Portugal, com medo de perder uns votos numa qualquer próxima eleição, nunca desperdiçará uma oportunidade para se fazer notar junto do mundo do futebol e dificilmente o afrontará. Existiu em tempos um Presidente da Câmara que enfrentou um clube no Porto, mas talvez agora não tenha a oportunidade de o voltar a fazer como primeiro-ministro pois provavelmente não chegará lá. De resto, não estou a ver mais ninguém com vontade de o fazer.

 

Bem, por agora despeço-me cordialmente, pois está a começar um jogo da Seleção Nacional, e não o quero perder. Viva Portugal!

 

 

Artur Efigénio