HORTICULTURA

AHSA – Uma nova dinâmica

Associação dos Horticultores, Fruticultores e Floricultores dos Concelhos de Odemira e Aljezur

2018-06-20
A AHSA nasceu em 1997, conta com 19 das maiores empresas produtoras da região que ocupam cerca de 10% da área cultivada do Perímetro de Rega do Mira

A Associação dos Horticultores, Fruticultores e Floricultores dos Concelhos de Odemira e Aljezur (AHSA), nasceu em 1997, conta com 19 das maiores empresas produtoras da região que ocupam cerca de 10% da área cultivada do Perímetro de Rega do Mira

 

AHSA tem novos corpos sociais. Nuno Madureira Simões, presidente da direção, e Margarida Carvalho, diretora executiva, explicam ao MERCÚRIO as novas estratégias desta associação que pauta a sua atuação pelas boas práticas agrícolas e pela responsabilidade social e ambiental das empresas associadas

 

          

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma das principais alterações no funcionamento da AHSA passa pela criação da posição de Diretor Executivo que assume a responsabilidade de representar a Associação em todos os temas de caráter operacional: “Eu e os meus colegas estamos cá para o que for preciso mas a interlocutora de base naquilo que é a gestão operacional da AHSA é a Margarida. Essa é uma das grandes diferenças que introduzimos”, esclarece Nuno.

 

Margarida é Engenheira Agrária. Já foi produtora de batata-doce mas a vida tem-na “empurrado” para a área da comunicação. “É uma pessoa com capacidade de gestão, com inteligência emocional e com capacidade de conduzir de um modo muito profissional os desafios que temos pela frente”, realça Nuno.

 

 

A AHSA

 

Associação dos Horticultores, Fruticultores e Floricultores dos Concelhos de Odemira e Aljezur é a nova designação social da AHSA “Sabemos que temos um âmbito regional e abraçamos esse âmbito. Nascemos no Sudoeste Alentejano e na Costa Vicentina como associação empresarial e é nesta região que a nossa atividade associativa e as atividades empresariais dos nossos Associados mais fazem sentido. Queremos ser cada vez mais o parceiro social que representa a voz das Empresas da fileira horto-fruti-florícola nos principais círculos relevantes para a horticultura da Região”. Neste momento a AHSA já tem assento no Conselho Estratégico do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV) e no Conselho Estratégico da Comunidade Intermunicipal do Alentejo Litoral (CIMAL). “E temos a ambição de ter voz ativa nos demais fóruns importantes para a Horticultura e Agricultura como por exemplo na Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP). A AHSA é uma força viva de intervenção regional com uma grande história e tem uma grande vontade de se constituir como um interlocutor forte em todos os temas respeitantes à vida dos seus associados, nunca violando aquilo que está na sua origem que são as boas práticas agrícolas em estrito respeito pela responsabilidade social e ambiental”, salienta.

 

 

OS ASSOCIADOS

 

A AHSA preza o cuidado que tem na admissão dos seus associados.

 

Os estatutos da associação consagram a obrigatoriedade de verificação das boas práticas agrícolas e de responsabilidade social e ambiental. “É por isso que os associados ao aderirem subscrevem um compromisso de responsabilidade dessas práticas, pois só assim é possível manter um elevado nível de rigor e respeito pelo ambiente e pela Natureza desta Região que é um valor que queremos muito preservar.

 

Não faria sentido termos na nossa Associação membros que fossem pôr em causa um trabalho sério e continuado feito ao longo de mais de 2 décadas pelas Empresas que fundaram a AHSA”, explica Nuno. “A AHSA afirma-se como um grupo de empresas responsáveis e será tão seletiva quanto quiser e precisar ser”.

 

O volume de negócios, consolidado, dos associados da AHSA ronda os 250 milhões de euros sendo cerca de 80% da produção destinada à exportação.

 

“Penso que todos os associados da AHSA se podem  orgulhar de ter visto os seus negócios crescer significativamente nos últimos cinco ou seis anos. Uns a taxas de dois dígitos generosos, outros de apenas um dígito mas todos a crescer”, informa Nuno.

 

A AHSA nunca teve tanta diversidade em termos do perfil dos seus associados. Há empresas de capital nacional, empresas de capital estrangeiro e empresas de capital misto. Há empresas que faturam 300 mil euros e há um grupo – uma Organização de Produtores, a Lusomorango, que é a maior do país - que fatura 48 milhões de euros. Tudo empresas de direito nacional, na sua maior parte com sede e com firma constituída no concelho de Odemira. Muito do investimento realizado é investimento direto estrangeiro e há uma aposta clara no sentido de continuar a investir por parte da maioria das empresas associadas. “A questão do investimento direto estrangeiro, em exclusivo ou em parceria com investimento português, está muito na origem daquilo que a AHSA é hoje”, informa Nuno.

 

Por outro lado verifica-se uma ligação afetiva e emocional por parte de muitos dos empresários por detrás destas Empresas : “Há aqui também uma questão afetiva. Muitas das empresas associadas são de cariz familiar, de pessoas – nacionais ou estrangeiras - que se estabelecem e que querem mesmo viver na região. Não estão cá só por razões meramente economicistas. Há associados nossos que vieram para cá e fizeram grandes empresas de excelência a partir do nada. Há também uma ligação emocional de muitos donos e quadros dessas empresas que decidiram viver na área. Estas pessoas arriscaram os seus capitais – económicos e afetivos – e tem compromissos sérios com a região que não podem nem devem ser desconsiderados”.

 

 

O NEGÓCIO

 

“A oportunidade de negócio da região é a exportação para consumo em fresco e não faz muito sentido procurarmos incorporação de outros fatores de produção que não estejam diretamente ligados à produção agrícola”, explica Nuno. “o objeto final da produção destas Empresas – frutos vermelhos, batata-doce, bambu, cenoura, folhas para saladas, tomate de especialidade, entre outros – são produtos naturais não transformados, fresquíssimos e embalados, produtos frescos que têm de ser consumidos frescos. É esse o objeto principal do negócio dos nossos Associados”, conclui.

 

Essa é a razão pela qual capitais e empresas estrangeiras como a Atlantic Growers, Camposol, a Vitacress, a Gemusering, a HallHunter ou a Driscoll’s vieram para esta região, onde, por vantagem do clima, do solo e da água conseguem produzir com muita qualidade.

 

A atividade transformadora destas empresas centra-se na seleção e embalagem em fresco. São os chamados produtos minimamente processados (mesmo os chamados de 4ª Gama), produtos hortofrutícolas frescos lavados e por vezes higienizados, cortados ou não e que mantêm as características da matéria-prima devido à atmosfera protetora da embalagem em que se encontram.

 

 

O CLIMA

 

Para Nuno há muito poucos lugares no planeta com o tipo de microclima existente na região de Odemira (“a conjugação de serras que começa na Serra do Cercal e acaba na Serra de Monchique que capturam o ar marítimo do Atlântico com a sua influencia suavizadora do clima e”), onde as culturas hortícolas destinadas ao consumo humano encontram condições tão boas para produzir, o ano inteiro, com qualidade. “É por isso, aliado ao know-how científico e técnico das Empresas, que a região é um sucesso para a horticultura. E não aproveitar esta enorme vantagem competitiva derivada do clima seria um tremendo disparate”, diz.

 

“É importante retermos que a razão pela qual as empresas começaram a vir para cá, há trinta anos ou mais, ainda hoje se mantém atual e, apesar dos desafios que temos para desenvolver aqui a nossa atividade produtiva (não vale a pena escamoteá-los,) continuamos a produzir com qualidade o ano inteiro porque mais importante do que apenas conseguir ter épocas de produção mais longas é a manutenção da qualidade ao longo desses períodos. É possível produzir alta qualidade durante mais tempo e isso é o grande valor que faz com que as empresas se mantenham por aqui”, repara.

 

Há empresas que têm produção noutras regiões, como a Hortipor ou a Campotec Agro, empresas do Ribatejo e Oeste, que vieram para esta zona, por razões técnicas mas também por paixão, produzir hortícolas de grande qualidade.

 

“Enquanto tivermos esta convicção, de que tecnicamente isto é um sítio muito bom para produzir, iremos continuar a pugnar para continuar a fazê-lo e com qualidade”, frisa Nuno.

 

Há coisas que não mudam. A maior parte das hortícolas que são consumidas sobretudo em fresco continuam a querer um clima ameno no verão e no inverno e isso continua a ser uma vantagem da região. Existem outras técnicas de produção mas têm mais custos de produção e não são ainda escaláveis a custos económicos ajustados à dinâmica da procura existente.

 

 

OS SOLOS

 

Para Nuno o solo tem de ser muito bem gerido “e nós temos belíssimos exemplos de empresas que fazem-no muito bem porque são empresas, como a Vitacress, com produtos muito sensíveis e que por isso têm de ter o solo muito protegido e, normalmente, nem têm de fazer apelo a muitas técnicas complexas porque onde estão instaladas já existe um bom equilíbrio”.

 

Práticas culturais como a rotação de culturas, a sementeira de culturas de cobertura para evitar a erosão dos solos por ação do vento e da chuva ou a incorporação no solo de culturas que beneficiam a sua estrutura e fertilidade são práticas correntes das Empresas da AHSA.

 

Em algumas culturas, como é o caso dos frutos vermelhos, tem-se assistido à mudança para produção fora do solo (em substrato ou até hidroponia) por razões económicas e técnicas, atendendo também às limitações de uso de desinfetantes de solo, cada vez mais restringidos sobretudo os de natureza química.

 

 

AS BOAS PRÁTICAS CULTURAIS 

 

Para Nuno e Margarida as práticas agrícolas no concelho de Odemira são do melhor que se faz no mundo.

 

“Estamos convencidos que a AHSA congrega as melhores práticas europeias não só porque a técnica e a tecnologia evoluíram e o mercado tornou-se muito exigente, mas também porque há razões para que se use com mais parcimónia todos os fatores de produção que conduzem à execução da cultura”, dizem.

 

“As pessoas esquecem-se que não há nada mais caro do que a aplicação de um fitofármaco. Se um produtor poder evitar usá-lo, pois com certeza que tem todo o interesse, até económico, em fazê-lo. Não há nada mais caro do que curar uma planta que tem uma doença. O melhor é evitá-la através de estratégias de proteção integrada, sobretudo de natureza preventiva e fazendo uso de auxiliares biológicos para combater pragas por exemplo: usamos insetos bons para combater aqueles que são maus para as culturas, é a chamada luta biológica”.

 

E a questão do uso eficiente da água está cada vez mais na ordem do dia: “Não é por termos tanta água e de tão boa qualidade que nos podemos dar ao luxo de a desperdiçar”.

 

Os associados da AHSA utilizam cada vez menos água “porque aprendemos a regar melhor”; usam cada vez menos fitofármacos “não só porque somos pressionados pela lei, pelos clientes e pelos consumidores mas também porque aprendemos a usá-los de forma mais responsável e sustentável e ainda também pelo seu elevado custo”.

 

 

OS FITOFÁRMACOS

 

A lista de pesticidas autorizados em Portugal é mais reduzida que noutros países da União Europeia para muitas culturas o que tranquiliza a grande maioria dos clientes internacionais. “Isto é uma coisa que poucas pessoas sabem”, lamenta Nuno.

 

“Eu prefiro saber exatamente aquilo que aconteceu ao alimento que vou comer e ter essa segurança do ponto de vista alimentar e, conhecendo estas empresas como conheço, sinto-me perfeitamente à vontade para consumir os seus produtos porque sei o rigor de todo o processo de produção”.

 

Nuno reforça a ideia de que os associados da AHSA têm marcas que valem “muito dinheiro” e que não iriam arriscar más práticas de produção porque têm uma marca a defender. “São empresas responsáveis que têm muito a perder se não o forem.

 

São empresas que estão na área e que respeitam e querem continuar a respeitar esta comunidade onde estão inseridas e, portanto, merecem ser consideradas como gente séria”.

 

A maioria dos clientes (não só internacionais mas também nacionais como os grupos Sonae, Jerónimo Martins, Auchan ou Intermarché) exigem a consulta dos cadernos de campo. Querem saber quais, em que quantidades e quantas vezes são utilizados os princípios ativos dos fitofármacos. Fazem análises aos produtos, em laboratórios independentes, e muitas vezes têm limites de resíduos inferiores aos exigidos por lei. “Muito do que hoje se faz na região tem resíduo zero ou está muito próximo do conceito resíduo zero”, informa Nuno.

 

É por isso que Nuno considera que, sempre que há um problema de natureza social ou de natureza ambiental ou outro, “não se deve colocar tudo no mesmo saco” nem dizer-se “a horticultura”. “Chamem-se os bois pelos nomes e quem tiver culpas que as assuma e se tiver que se defender que se defenda”, diz. “Colocar num mesmo patamar empresas que estão há mais de trinta anos a construir qualidade e a desenvolver marcas, com outras que não tem estas preocupações nem estas boas práticas, não é justo”.

 

 

A SUSTENTABILIDADE

 

Segundo Margarida as empresas associadas da AHSA têm de seguir um caminho de produção o mais sustentável possível, não só pela saúde do consumidor mas também pela do ambiente. “Nós trabalhamos para o mercado e de acordo com as suas exigências. Para estas empresas algumas certificações, apesar de não serem obrigatórias, são básicas e uma referência de qualidade. Tem tudo que ver com segurança alimentar, com químicos que são aplicados e com resíduos que podem deixar; o consumidor está muito preocupado com isso e exige produtos seguros e bem produzidos. Não há outro caminho!”, reforça.

 

O mais conhecido herbicida, o glifosato, para muitas das infestantes na região é ineficaz. “O único herbicida que a acácia conhece é a motosserra seguida de uma arroteia para remoção das raízes”, ironiza Nuno.

 

A lista de pesticidas autorizados tem vindo a “emagrecer”, até por imposição do mercado. A quantidade utilizada é cada vez menor mas, ainda assim, são conseguidos elevados níveis de produção devido a boas práticas que por sua vez resultam de elevados investimentos em Investigação Aplicada.

 

 

A AGRICULTURA DE PRECISÃO

 

“Aqui pratica-se uma agricultura de precisão”, explica Nuno, “as plantas evoluíram e as técnicas evoluíram. Praticamente já não há canhões a lançar água por todo o lado. Hoje a água só vai para onde é preciso e na quantidade necessária, com os nutrientes necessários e, onde a água não chega, também não crescem infestantes da mesma maneira que cresceriam”.

 

Na região há variadíssimos projetos agrícolas com sondas ao longo do perfil do solo. Neste momento rega-se em função da informação enviada pela sonda para o computador de rega.

 

Na agricultura só se faz o estritamente necessário. “Se não é preciso cavar o solo a 50cm porque é que eu vou gastar dinheiro em horas de tração, em gasóleo ou em mão-de-obra?”, exemplifica Nuno. “A agricultura é por definição conservadora”, acrescenta, “cada cultura é um caso e não se pode generalizar mas as empresas todas procuram ter, por racionalidade económica, por imposição do cliente e do consumidor, uma agricultura o mais conservadora possível”.

 

Outra das boas práticas das empresas associadas da AHSA é a rotação de culturas. Uma cultura estando sempre no mesmo solo repetidamente vai facilitar o surgimento de “inimigos” da própria cultura. A rotação cultural significa que num ano se plante um tipo de cultura no ano seguinte outra e no terceiro ano uma cultura de cobertura, isto é, uma cultura para não deixar o solo a descoberto, sujeito à erosão do vento e da chuva. “E se essa cultura for de melhoramento, uma mistura de cereal e tremocilha, por exemplo, que depois é enterrada, melhor ainda”, frisa Nuno. “Ao fazer-se isso é necessário mais solo mas aqui faz-se muito isso porque se sabe que o benefício na cultura seguinte é grande, quer na melhoria da produção quer na redução de fertilizantes e outros químicos”.

 

Na região há casos com mais de 20 anos de prática na troca de terra para a rotação de culturas entre empresas para a efetivação daquela prática. Um bom exemplo é o caso entre a Atlantic Sun Farms e a Vitacress.

 

 

NOTA FINAL

 

“Temos aqui uma oportunidade única do ponto de vista das condições para fazer agricultura. Temos que ser responsáveis e respeitar essa oportunidade única. Temos de conviver com estratégias e politicas ambientais que estão cá. São um facto. Agora o que temos mesmo que fazer é informar as pessoas.

 

A AHSA está sempre disponível para esclarecer dúvidas e para participar nos fóruns que forem precisos porque o pior de tudo é a desinformação. Quando as pessoas não sabem, criam-se mitos, projetam-se medos e se não forem devidamente esclarecidas vão continuar a projetar esses medos e a generalizar os seus juízos o que é profundamente injusto sobretudo para quem, todos os anos, gasta tanto tempo e dinheiro e esforço para fazer bem”, remata Nuno.

 

 

Pedro Pinto Leite