A MÁQUINA DO TEMPO

O museu somos todos nós!

Tudo não passara de um sonho


Por:Artur Efigénio

2018-07-19
Aí lembrei-me que tinham passado cinco anos desde o fim de semana onde tinha sido apresentado, num colóquio, com pompa, circunstância e vasto cartaz cultural, o futuro Museu de Odemira

Acabara de almoçar e sentia-me satisfeito. Cruzei a imponente porta cumprimentando a senhora que estava à entrada, defronte da loja de lembranças e brindes, sentada à secretária. Adorava aquele sítio. Era quente e acolhedor no inverno e muito fresco no verão. Este átrio, como se impõe nestes locais, era luminoso e agradável. Hoje, até se notava uma ligeira fragrância a rosas brancas, devido ao lindíssimo ramo que enquadrava a mesa onde podíamos retirar os guias em papel e os auriculares que traduziam, em várias línguas, a Viagem. Sim. Sempre sentira que visitar e passear sem rumo naquele local, era como se viajasse. Uma extraordinária viagem pela história de Odemira.

 

Nestes dias de férias, havia muita gente no hall. Junto à parede que ostentava enormes fotografias da vila de Odemira em 1891 a preto e branco e de Milfontes nas mesmas épocas, encontravam-se duas grandes réplicas do Iate Senhor dos Passos e do Estrela de Odemira. Duas joias da navegação fluvial e de cabotagem que outrora sulcaram o Mira fazendo o transporte de mercadorias, entre a Vila e Lisboa.

 

 Algumas crianças tinham entrado também e agora corriam, possivelmente a disputarem os melhores lugares no espaço reservado aos mais jovens. Um espaço de realidade virtual onde, munidos de óculos que lhes davam um ar de astronautas, podiam interagir com as profundezas do Rio Mira, ou voar, numa viagem que acompanhava o serpenteando do mesmo. Na correria, cruzaram-se com três jovens equipados com pequenas mochilas, polos e chapéus caqui com o logótipo. Estes saiam em passo apressado, perguntando em francês ao grupo de estrangeiros que os acompanhavam, se tinham trazido o protetor solar.

 

Eram os voluntários que acompanhavam os visitantes. Principalmente estudantes universitários portugueses e estrangeiros que se instalavam em Odemira por temporadas de alguns meses para fazerem os seus estudos de mestrado e doutoramento. Acompanhavam as saídas de campo nos dois jipes que estavam estacionados à entrada. Lá em baixo, atracadas no cais do peguinho, já se encontravam as canoas, esperando por parte deles para descerem o rio. Pesquisariam os sapais e algumas espécies da fauna e flora que só aqui se poderiam encontrar. A outra metade seguiria para a zona do castelo de Vale de Gaios, na zona de S. Luís, para fazerem estudos sobre o local.

 

Olhei para a esquerda e, junto à entrada que dava acesso à zona dos hologramas que descreviam com grande realismo visual a visita em 1573 de D. Sebastião a Odemira, e apresentavam o Rei D. Manuel I que explicava o foral que tinha atribuído à vila, encontrava-se a minha poltrona preferida, onde gostava de me sentar a ler ou a contemplar duas enormes obras plásticas de artistas locais contemporâneos. Era a sala da documentação mais antiga do Concelho.

 

Descansei. Troquei as pernas, recostei-me, retirei os óculos de leitura e olhei, como fazia quase todas as terças-feiras à tarde durante uns bons bocados em que lia. Senti os olhos pesados.

 

Passado algum tempo, apareceu na minha mão uma pen-drive e um pequeno livro preto de notas que no ano de 2013 me tinham oferecido, onde dizia: Ignorância & Esquecimento. Aí lembrei-me que tinham passado cinco anos desde o fim de semana onde tinha sido apresentado, num colóquio, com pompa, circunstância e vasto cartaz cultural, o futuro Museu de Odemira. Apregoava-se então: “Será um fim de semana para abrir as portas imaginárias de um futuro Museu e que não será possível ignorar!”, rematado com a afirmação: “irá pôr Odemira numa outra órbita”.

 

Nada ainda existia. Nem nesta nem noutra órbita. Tinham sido ideias atrás de ideias, especialistas atrás de especialistas, estudos atrás de estudos. Mas, com todo o potencial e património cultural, histórico, económico, turístico e até militar que a nossa região detinha, continuávamos a não ter um museu que espelhasse isso mesmo. Restavam somente as atas do colóquio, muito bem encadernadas em livro, já a apanhar pó nas prateleiras da biblioteca.

 

O Rio Mira tinha sido, e muito bem, o tema de fundo escolhido para esse museu e centro de ciência por ser um dos únicos, senão o único fator agregador da região e território. Era o rio que abraçava e fazia a ligação das serrarias do interior com a beleza da linha de costa e o imenso mar. Mas, continuava, pela eterna teimosia da lua, a subir e descer no seu leito, sem ser homenageado. 

 

Não queria crer, como podia acontecer? Cinco anos? Tinha perguntado por ele a alguém com responsabilidades havia um par de anos, e tinha obtido como resposta, que “O museu somos todos nós!”, seguido de umas sonoras gargalhadas que ainda ecoavam nos meus ouvidos. Nisto, senti um ligeiro toque no ombro. Era o Sr. João. Um dos vigilantes do museu que simpaticamente me disse:

 

- Amigo! … Outra vez a passar pelas brasas! Tenho de dizer para retirarem estes bancos. São demasiados confortáveis, não é!

 

Abri os olhos e transpirava. Tudo não passara de um sonho. Aliás, um pesadelo. Afinal o museu existia e era real. Voltei a contemplar a sala. Era extraordinária. Uma das mais belas salas do Museu de Odemira. Levantei-me e cruzei o espaço contíguo dedicado ao património arqueológico recolhido na região e dirigi-me ao bar, onde bebi um café para despertar.

 

À saída, voltei a passar pela loja do museu onde uma rapariga com um perfeito sotaque britânico segurava uma t-shirt que nas costas dizia “O museu somos todos nós!”, perguntando à funcionária: What does it mean? (O que significa?). Ri para mim próprio e dirigi-me para a rua. …Suspirei de alívio. Voltaria ao Museu de Odemira, como sempre o fazia, na semana seguinte!

 

Artur Efigénio