DE QUEM É O OLHAR

1968 e as mulheres

Hoje em dia, já não se considera normal que uma mulher tenha menos direitos que um homem


Por:Monika Dresing

2018-07-19
Nos anos turbulentos em volta de ‘68, portanto, a realidade vivida não era a de igualdade de géneros, e isto não apenas devido às leis antiquadas, mas também devido às tradições e costumes consideradas “normais”

Nos anos cinquenta e sessenta, na Alemanha, tal como na maior parte dos outros países, não existia igualdade real entre homens e mulheres, em contradição à própria constituição. Continuavam a existir leis que em certas situações davam superioridade aos homens: uma mulher casada, p.ex., necessitava o consentimento do marido quando pretendia trabalhar fora de casa (uma lei apenas abolida em 1977!). Até 1958 cabia ao marido a última palavra em todas as decisões relacionadas com o casamento e com a educação dos filhos. Apenas em 1979, as prerrogativas do pai foram totalmente abolidas.

 

Nos anos turbulentos em volta de ‘68, portanto, a realidade vivida não era a de igualdade de géneros, e isto não apenas devido às leis antiquadas, mas também devido às tradições e costumes consideradas “normais”. Para ilustração, dois acontecimentos que vivi pessoalmente. Em 1969, antes de entrar na universidade, quis informar-me sobre as diferentes profissões ligadas a certos cursos universitários. Existia um serviço público de aconselhamento. Quando lá fui, junto com a minha mãe, disseram-nos que naquele ano, devido à falta de funcionários, este serviço era só para rapazes. E nós fomos embora, sem o mínimo protesto! Achámos normal! Noutra altura, eu e uma colega de escola fomos assistir a uma peça de teatro. Em frente do teatro havia um restaurante tipo “Trindade” de Lisboa. Depois do espectáculo fomos lá para beber uma cerveja. Disseram-nos que devíamos sair porque não estávamos acompanhadas por um homem. Fomos embora, até com um certo sentimento de culpa!

 

Era esta a situação vivida nos anos sessenta, o pano de fundo dos movimentos antiautoritários. Teria sido de esperar que estes movimentos dariam cabo destas desigualdades, sendo que homens e mulheres participavam lado ao lado. Mas pouco a pouco as mulheres aperceberam-se que também nestes contextos revolucionários tinham um papel secundário. Eram homens que faziam os discursos, que orientavam as pessoas, que eram ouvidos. Das mulheres esperava-se que aceitassem de boa vontade todas as ideias libertadoras que, regra geral, eram as ideias dos homens.

 

A partir de certo momento, no princípio dos anos setenta, muitas mulheres perceberam que a emancipação feminina não estava necessariamente incluída no movimento antiautoritário. Tinham que ser elas próprias a continuar com a luta. Em todo o lado surgiram grupos de mulheres que queriam falar sobre os problemas específicos femininos, sem intervenção de homens. Começou um movimento para a despenalização do aborto voluntário, publicaram-se as primeiras revistas que abordavam assuntos relacionados com a emancipação feminina, estudaram-se as obras de algumas mulheres destacadas, p.ex., “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir, e pouco a pouco a consciência social começou a mudar.

 

Portanto, esta segunda vaga de feminismo, depois da primeira vaga a partir dos meados do século dezanove, não fazia parte dos movimentos de ’68, mas foi uma reacção às experiências de impotência que a maior parte das mulheres tinha vivido dentro destes movimentos. Depois, como acontece com todos os movimentos sociais, também esta vaga de feminismo começou a abrandar. Algumas exigências tinham sido satisfeitas, outras desvaneceram com o passar do tempo.

 

Hoje em dia, já não se considera normal que uma mulher tenha menos direitos que um homem. A consciência mudou, mas ainda há um longo caminho a percorrer, não só na Alemanha, mas também em Portugal. Um exemplo: “Nas 500 maiores empresas a operar no país, as mulheres representam 44% dos empregados, número que diminui de forma abrupta à medida que o nível de responsabilidade aumenta. Assim, a participação feminina é de apenas 19% nas funções de direcção executiva (directores de primeira linha), 11% nas funções de gestão (órgãos sociais das empresas) e 4% nos cargos de liderança. Isto significa que só 20 das 500 maiores empresas em Portugal são lideradas por mulheres.” (Expresso, 12.10.2015)

 

Monika Dresing