PALAVRA DE PALHAÇO

A bagagem

As malas da bagageira caem uma por uma na estrada da ponte


Por:Enano Torres

fotografia: Ricardo Rocha - Unsplash
2018-07-19
Olho para trás através do espelho retrovisor e qual não é a minha surpresa: levo a porta da bagageira totalmente aberta!

Há décadas que minha condição de Palhaço faz com que tenha de viajar por esse Mundo fora e parto sempre desde o Aeroporto de Lisboa. Para aqueles que, como eu, residem na costa alentejana, temos que ir até lá, na sua maioria, de carro. Eu sou um condutor lento pelo que evito as portagens e a roubalheira da Brisa. Apenas entro na Marateca. Pelo estado em que esta estrada nacional se encontra, posso dizer que, para além de lento, sou também “radical”, quando arrisco escolher viajar pela temida “estrada da morte”.

 

Numa destas viagens tinha que estar às cinco da madrugada no aeroporto, com destino a Mindelo (Cabo Verde), pelo que, para ir nas calmas, parto desde São Luís às duas da manhã. Viajava para participar no meu festival de teatro favorito, chamado Mindelact, o maior do continente africano, onde já participei 12 anos e onde já fui homenageado, no ano 2013. Um daqueles eventos que tenho sempre marcado na agenda com letras grandes. Este ano, em novembro, lá estarei de novo. Espero!

 

Chegando a portagem da ponte 25 Abril, pago. Como era de esperar, mais uma subida do valor. Continuo e atravessando a ponte com vistas para o Tejo começo sentir um ar fresco nas costas.

 

Espreito a minha janela e a do “copiloto” e estão as duas fechadas. Esquisito!(?). Olho para trás através do espelho retrovisor e qual não é a minha surpresa: levo a porta da bagageira totalmente aberta! “Mas como pode isto ser?”, pensei.

 

Espreito melhor e o carro atrás de mim faz sinais de luzes desviando-se para um lado e apitando. Fico com o coração a mil! Não podia acreditar. Travo e as malas da bagageira caem uma por uma na estrada da ponte. O meu pensamento imediato era parar logo o carro para apanhar as malas. Mas como é que ia parar no meio da ponte? Pelo que decido chegar rapidamente até o fim da ponte, encostar o carro num lugar mais seguro. Depois, sem hesitar, saí rapidamente do carro e pus-me a sprintar como um desesperado, em contramão, pela ponte e em direção ao Cristo Rei. Os carros apitavam-me mas eu queria apenas recuperar minhas malas, as malas dos espetáculos que levava para o Festival de Teatro, com os meus figurinos, material, maquilhagem... tudo!

 

Deviam estar a meio da ponte, pensava eu. Ainda tinha um bom e arriscado percurso. Qual estrada da morte? Isto, sim, é que era a vida ou a morte!. Sentia a brisa do Tejo misturada com o ar fresco da madrugada na cara quando, ao longe, ouço uma sirene e avisto umas luzes tipo ambulância. Qual ambulância! O que faltava neste filme era a Polícia! Eles fazem-me sinal de eu parar mas eu continuo a correr assinalando meu objetivo. Um deles desce do carro e começa a correr na minha direção, a perseguir-me e a gritar: Não, Nãaao, Naaaaaaaõ!

 

Os outros carros também apitavam. Às tantas decido parar e esperar o senhor agente. Ele avança sobre mim e agarrando-me, diz-me com uma tremenda cara de espanto: Não faças isso!!!

 

Eu num enorme estado de ansiedade, começo a gaguejar e tentar explicar que ando à procura da minha bagagem, mas não consigo. O Polícia diz-me - “a Vida tem muito mais valor daquilo que queres fazer, entra no carro”. E lá fui eu, para dentro do carro da Polícia, onde explico onde estava minha viatura, à saída da Ponte.

 

Já com mais calma, conseguimos comunicar. Identificação, relato do sucedido, e finalmente, qual não foi minha surpresa quando percebi que eles pensavam que eu me ia atirar da ponte abaixo, para o rio. Que me ia suicidar!(?). Ao que parece, a Ponte 25 Abril é um lugar muito comum para o pessoal parar o carro e saltar para outra vida.

 

Fim da História: não recuperei as malas. Imagino que alguém as apanhou e ficou com elas. Consegui apanhar o avião no “last minute” e participei no Festival de Teatro sem material nenhum, apenas com o meu nariz de palhaço que viaja sempre comigo, mas como tenho o dom da improvisação consegui safar o espetáculo da melhor maneira.

 

Apenas desejo que a pessoa que ficou com as malas se tenha transformado em Palhaço, a melhor profissão do mundo e vocês, por favor, antes de cruzarem a Ponte certifiquem-se de que levam as portas bem fechadas e o coração bem aberto.

 

P. S.: História verídica.

 

Enano Torres