OPINIÃO PÚBLICA

As memórias e o futuro

Uma região ganha ou perde muito conforme a visão que o mundo tem dela


Por:Fernando Almeida

2018-07-19
A marca “país” ou “região” pode ser uma enorme mais-valia para área geográfica correspondente, mas pode também comprometer o seu futuro

Ainda me lembro bem da primeira vez que fui a França! Era menino e mal falava a língua dos nativos, mas ainda assim registei na memória detalhes que só muito mais tarde vim a compreender. É claro que me fascinei com aquele mundo rico e brilhante, de lojas enormes a contrastar com as nossas mercearias de bairro, com autoestradas urbanas, com gente que pelo aspeto provinha das mais diversas latitudes e longitudes. Paris era uma grande metrópole cosmopolita e tanto na dimensão como na abertura ao mundo impressionava o menino proveniente de Lisboa. A nossa capital era realmente uma “cidade de província” conservadora e desviada das rotas do desenvolvimento e da modernidade. Felizmente tudo isso mudou, muito embora esta mudança, como todas as outras, não esteja ao abrigo de conflitos e dor.

 

Uma das coisas que me impressionou nessa minha “expedição” de criança foi a forma como os franceses nos viam, quer como gente, quer como país. Os franceses com que falei gostavam dos portugueses, consideravam-nos “boa gente”, mas um tanto “primitiva”. Não que o dissessem com todas as letras ao menino que eu era na época, mas vejo hoje, com os olhos de adulto, que era isso seguramente que queriam dizer. Por outro lado (e isso foi na época o que mais me chocou) achavam maioritariamente que Portugal era uma província de Espanha. É fácil imaginar como o jovem doutrinado no nacionalismo antiespanhol salazarista se indignava com a ignorância dos franceses.

 

O Portugal da época não era uma marca, e se o fosse seria uma marca desqualificada e de baixo valor. De resto manteve-se como “não marca” até há muito pouco tempo, e só uma combinação de fatores nacionais e internacionais acabou por projetar o nome “Portugal” além-fronteiras. Pode perguntar-se que diferença fará para nós o facto de os outros nos conhecerem e terem sobre nós uma determinada opinião? Pode parecer que não será mais que algo como o meu ego nacionalista de menino, que se irritava com os estrangeiros que nos imaginavam como região de Espanha. Mas a realidade é muito mais complexa e profunda que esse sentimento de rejeição clânico que me moldava o pensamento em menino.

 

Quanto vale a marca de um país ou região? Pensemos um pouco. Se for comprar uma máquina e tiver possibilidades de escolher entre uma máquina fabricada na Alemanha e uma outra fabricada, por exemplo, na Albânia, e tanto preço como características técnicas se assemelharem, qual delas comprará? Estou certo que a maioria esmagadora dos portugueses (mas também dos europeus e mesmo dos cidadãos da maioria dos países do mundo) optará pela máquina alemã, e comprará igualmente a máquina alemã mesmo que seja mais cara. Agora imagine que vai comprar um perfume e pode optar por um perfume francês e um outro do Cazaquistão. Qual comprará? E imagine que vai comprar um queijo de ovelha, e tem um com designação de origem “Serra da Estrela” e um outro que não a tem. Qual vale mais? 

 

Claro está que a marca “país” ou “região” pode ser uma enorme mais-valia para área geográfica correspondente, mas pode também comprometer o seu futuro. Lembro-me também o pânico generalizado dos produtores de vinho do Porto quando Espanha pensou fazer um cemitério de resíduos nucleares em Aldeiadávila. O receio era justificado, só o simples facto de se associar o nome “Douro” a resíduos nucleares iria por certo desvalorizar os vinhos da região, mas iria igualmente prejudicar o turismo, e as restantes atividades económicas. Isto mesmo que nunca houvesse qualquer tipo de acidente com fugas radioativas. É portanto para mim claro que uma região ganha ou perde muito conforme a visão que o mundo tem dela: um país que transmita de si mesmo uma boa imagem terá grandes vantagens a todos os níveis. Por exemplo, se Portugal conseguir passar de “país primitivo” a “país tecnológico” aos olhos da Europa e do mundo, todos ganharemos com isso.

 

Mas nos dias que correm a imagem de um país constrói-se com elementos diversos, onde está evidentemente a tecnologia/economia, mas onde cada vez mais está o ambiente. O ambiente é de facto uma preocupação crescente no espírito dos europeus, e isso é já observável entre nós. Quando com outros companheiros fundei a associação “Quercus”, nos meados da já distante década de oitenta do século XX, o ambiente era visto por muitos como uma preocupação de uns “idealistas generosos”, mas nada que merecesse realmente atenção. Hoje tanto as alterações climáticas, como a perda de biodiversidade, como o problema dos plásticos, como a contaminação das águas subterrâneas e superficiais e tantos outros problemas saltaram para a ordem do dia e só os mais distraídos ou alienados se manterão alheios à grave situação ambiental em que vivemos. 

 

Por isso a qualidade do ambiente é já um elemento determinante da construção mental da imagem de um país ou região. E essa realidade aplica-se à nossa região. Para já goza de uma boa imagem tanto ao nível ambiental, como no que respeita à segurança, à qualidade da nossa gastronomia (e logo dos produtos da agricultura e pecuária que estão na sua base), como na proverbial simpatia das gentes. Essa imagem é já uma mais-valia, mas se for bem trabalhada poderá ser ainda mais importante para todos: ganharão diretamente setores da economia como a agricultura, a pecuária ou o turismo, mas indiretamente as vantagens serão para todos. Mas se a imagem que criamos da nossa terra é de degradação ambiental, com águas poluídas, costa com peixe e marisco contaminado, fauna e flora empobrecidas, e outras marcas de mau ambiente, todos pagaremos cara a fatura. Haja inteligência para ver um pouco mais longe, e não queiram os mais gananciosos e cegos pelo lucro imediato matar esta nossa galinha dos ovos de ouro…

 

Fernando Almeida