ENCONTREI EM ODEMIRA

Um ano de “Encontrei em Odemira”

Resumindo e concluindo


Por:Sara Serrão

2018-07-19
Histórias, preocupações e visões para a região

No mês em que a rubrica “Encontrei em Odemira...” completa um ano de entrevistas a pessoas que habitam hoje em dia em Odemira, resolvi fazer um apanhado das impressões aqui registadas sobre os encantos que aqui têm fixado tanto autóctones como forasteiros, assim como as suas principais inquietações relativamente ao presente e futuro da região. Sendo certo que as doze entrevistas que fiz ao longo do último ano não representam uma amostra fiel da população residente ou um retrato estatístico do que se passa por cá (e não têm essa pretensão), não deixam ainda assim de apontar algumas percepções do que são as qualidades, questões e desafios que sobressaem actualmente nesta região.

 

Neste contexto, é justo afirmar, sem surpresa, que, para os entrevistados desta rubrica, o património e a paisagem natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina constituem o seu maior valor e o que mais distingue esta de outras regiões. Tanto aqueles que não sendo da terra escolheram cá viver, como os que aqui têm as suas raízes familiares, apontaram a natureza preservada, o mar, um ambiente algo selvagem, a tranquilidade, o ar que se respira, como os principais factores de atracção do território, directamente associados à qualidade de vida, a um ritmo mais humanizado, à autenticidade das aldeias e da cultura local, à genuinidade, abertura e acolhimento dos alentejanos, e a um clima ameno, solarengo e prazeroso. 

 

No que toca a inquietações actuais, todos os entrevistados destacaram sem surpresa o crescimento de dois fenómenos salientes na região: o turismo e a agricultura intensiva. Sobre o primeiro, existe consenso sobre as vantagens da aposta que se tem feito no turismo de natureza, não só por esbater a sazonalidade, como por privilegiar um impacto consistente e regrado, em consonância com a preservação ambiental, alertando para não se cair nos erros antes cometidos por regiões massificadas e descaracterizadas. Há, ainda assim, a impressão de que os meses de Julho e Agosto, que não dependem do turismo de natureza mas sim do sol e da praia, não oferecem uma experiência de tranquilidade e autenticidade porque a própria região não tem capacidade suficiente, em termos de infraestruturas, recursos humanos, serviços e até de praias, para receber tanta gente como tem recebido nesses dois meses. No mesmo sentido foi também destacada a necessidade urgente de se ordenar e regulamentar a situação do caravanismo, já que existe a percepção de que está descontrolada e de que os caravanistas até à data não deixam cá benefícios significativos, muito pelo contrário. Falando em percepção, passamos à situação do crescimento exponencial da agricultura intensiva no perímetro de rega do Mira: pode ser um sector económico de importância para a região e para o país, mas, não tendo havido até agora uma estratégia pedagógica de informação sobre o funcionamento do mesmo junto da população, subsiste visivelmente o medo do desconhecido. Assim, os entrevistados ao longo do último ano questionaram o forte aumento do número de explorações envoltas em plástico num território que é parque natural e que é de todos. Receiam as implicações ambientais, paisagísticas e sociais, a descaracterização que o desenvolvimento agrícola tem provocado na região e o impacto negativo no turismo, e, na mesma linha mas na área da floresta, põem em causa a grande extensão de eucaliptal em detrimento de espécies autóctones. A nível social, as pessoas que “encontrei em Odemira” preocuparam-se com as condições em que vivem os idosos mais isolados, se têm assistência adequada na sua vida prática e a solidariedade devida na sua condição humana. Mostraram-se apreensivas com a falta de serviços médicos públicos e o tempo necessário para alcançar um hospital. Salientaram alguma falta de respostas sobretudo ao nível da juventude, já que as iniciativas e as infraestruturas se concentram predominantemente na sede do concelho e, havendo escassez na mobilidade, nem todos os jovens têm a possibilidade logística ou financeira de chegar a Odemira; reforçaram também a necessidade de cativar estes jovens residentes para se formarem e eventualmente quererem cá ficar, tornando-se um valor acrescentado. Finalmente, foi por vezes mencionada a necessidade de descentralizar iniciativas culturais e trazer novas abordagens artísticas, como forma de reforçar a identidade local e/ou ampliar visões mais abrangentes do mundo.

 

Como perspectiva de futuro, todos os entrevistados vêem na preservação ambiental uma grande oportunidade para distinguir e posicionar o Sudoeste Português como um destino e uma incubadora de projectos de investimento ecologicamente sustentáveis, onde o dinamismo e a diversificação das actividades económicas estão num saudável equilíbrio com a conservação da natureza e da identidade cultural da região, com boas oportunidades de trabalho para as gerações futuras.

 

A rubrica “Encontrei em Odemira” despede-se e regressará em Setembro num outro formato. Obrigada aos leitores!

 

#encontreiemodemira

 

Sara Serrão