FESTIVAIS

Festival Músicas do Mundo - Sines

Muito mais do que um festival

FOTOGRAFIAS Sofia Costa/FMM
2018-10-15
Entrevista a Carlos Seixas

O Festival Músicas do Mundo de Sines (FMM Sines) fez 20 anos. O Mercúrio foi conversar com o seu diretor artístico e de produção, Carlos Seixas, um homem discreto que se sente mais confortável nos bastidores que nas luzes do palco

 

 

Como é que surgiu o FMM Sines? Em que é que te inspiraste para fazer este festival?

Isto acontece por um convite do Manuel Coelho (Presidente da Câmara Municipal de Sines de 1997 - 2013) em 1998, para se organizar um festival de música que tivesse relação com toda a envolvente e a história de Sines. Sines é um porto milenar e era uma das vias para avançar para outros continentes. Foi o berço de Vasco da Gama. Tínhamos o contexto histórico e o castelo, que é a ‘sala de visitas’ ou salão nobre da comunidade.

Entendemos por bem que, como em tempos passados nós tínhamos ido para o mundo, o mundo viesse a Sines. Foi nessa perspetiva de acolhimento da diversidade que é muito importante para nós e que é uma das marcas do festival. Também da tolerância e do conhecimento do outro.

E para haver tolerância tem de haver o encontro intercultural que nos leve a uma audiência curiosa e atenta, uma audiência com uma formação para além da educação formal. Na música a diversidade cultural engloba também todos os géneros musicais e todas as áreas geográficas. Foi assim que começou. A primeira edição foi bastante reduzida (dois dias), mas sempre com o objetivo de se tornar num festival com vontade de se impor no mercado dos festivais de verão. Tudo isto com toda esta envolvente que é espetacular (estamos sentados na zona do castelo de frente para a baía de Sines). Começámos no castelo e conforme fomos crescendo assim aumentámos também a oferta. Fomos para a avenida da praia, mais tarde para Porto Covo, tínhamos ainda a sala da Capela da Misericórdia, entretanto abriu o Centro das Artes de Sines, em 2005, fomos caminhando, fomos procurando que isto tivesse impacto na comunidade mas não só. A comunidade neste momento tem um espírito de pertença enorme em relação ao FMM Sines. O festival também é seu, também, não, é seu!

 

O Manuel Coelho conseguiu, no Litoral Alentejano, puxar a cultura para Sines. Consideras Manuel Coelho um visionário?

Sim. Esse era um dos objetivos, pela sua própria estrutura intelectual, militante e humanista. Acho que sim, que foi um visionário nesse sentido. Ele foi naturalmente o principal impulsionador deste festival e, pela sua paixão pela sua cultura, também entendeu aquilo que se pretendia: que fosse um festival com esta matriz de serviço público e diferenciador em relação aos outros festivais de verão. A partir do momento em que percebemos, e a comunidade também foi percebendo, de que o festival era também uma mais-valia para a economia local, para o impacto da ‘marca’ Sines, o público e os órgãos de comunicação nacional foram aparecendo cada vez em maior número. Acho que o festival influenciou a visão positiva de uma cidade que estava de algum modo complexada. Cresceu a sua imagem de qualidade e neste momento o FMM Sines tem uma dimensão internacional que o põe ao lado dos grandes festivais a nível mundial.

 

Quem organiza o festival é a Câmara Municipal de Sines (CMS)?

Sim. O grande impulsionador é a CMS. De facto o Manuel Coelho fez nascer o festival. Foi persistente no sentido que esperou o seu tempo e, naturalmente, o FMM Sines expandiu-se de uma maneira bastante forte e teve esse impacto, não só num público cada vez maior como também no sentido de se entender, de compreender a sua missão. Um festival com esta dimensão de diversidade na música que nós apresentamos.

 

A CMS ainda coloca muito investimento no Festival? Ainda há financiamento comunitário?

Não. O Festival teve financiamento através de fundos da União Europeia/Feder num período de quatro anos, entre 2010 e 2013. Um festival desta natureza, com mais de 70% dos concertos gratuitos e com bilhete de preço modesto, não tem necessariamente de ser um festival autossustentável. Este é um investimento de longo prazo, de impacto na economia local e na ‘marca’ de Sines, um investimento de e no futuro. E sendo um formato de serviço público a CMS compromete-se de uma forma global, com todos os departamentos envolvidos. Neste momento o FMM Sines conta com fontes de receitas, não só de bilheteira e outras, mas também de patrocinadores e parceiros. Tudo isso deve-se muito ao atual presidente, Nuno Mascarenhas, que consolidou o FMM Sines. Consolidou-o e impulsionou-o. Foi através dele e do seu entusiasmo que regressámos a Porto Covo, depois de uma paragem de alguns anos. Acho que há um grande mérito dos decisores políticos. De facto são eles os grandes responsáveis pela manutenção de um festival desta natureza. A nível internacional já tivemos vários prémios. As pessoas vêm ao FMM Sines, não só o público em geral ou visitantes ocasionais, não só os artistas, mas também pessoas do meio da música, profissionais responsáveis por festivais, programadores, que constatam que este festival é único. E é importante que se mantenha único. Portanto, acho que aqui todos os fatores se conjugaram e há um consenso na importância de Sines no contexto dos festivais deste tipo (cada vez são menos os festivais de serviço público).

 

Os patrocinadores estão mais presentes com as suas marcas. Conseguiste eliminar o plástico dentro do castelo, tens um festival mais amigo do ambiente mas tens algum lixo publicitário, apesar de não ser exagerado.

Conforme o festival se foi expandindo a CMS foi precisando de parceiros e de patrocinadores mas houve sempre uma grande contenção na aplicação do marketing desses patrocinadores. Repara que este não é um festival como os outros festivais de verão onde de facto as marcas se intrometem descaradamente, não só nos nomes dos próprios festivais, mas também a própria estrutura do festival está centrada naquilo que é o interesse delas.

 

Que não é o caso, isto é, este é um festival que não tem um interesse comercial.

É isso. E se tu vês aqui uma intromissão das marcas dos patrocinadores eu vejo que, mesmo assim, é muito contido e que os patrocinadores estão a fazer um grande esforço nessa contenção. Ao terem cada vez mais a experiência vivencial deste festival, tentarão adaptar a sua atuação àquilo que é a essência do FMM Sines: um festival cultural de serviço público. A indústria da música ao vivo não é só espetáculo é também cultura e nós demonstramos isso.

 

Servindo de exemplo para outros festivais.

Tirando os grandes fornecedores da estrutura de palco e som, a maioria das pessoas que colaboram com o festival são funcionários da CMS. É isso?

Sim. A estrutura “pesada” é naturalmente proveniente de fornecedores mas mesmo assim há uma questão curiosa que é a das empresas fornecedoras ligadas à técnica, ao equipamento, através do seu pessoal que está presente desde há muitos anos, continuam com um entusiasmo quase inicial porque eles notam também que o festival não só conseguiu conquistar um público, que é uma realidade, como conquistou cumplicidades. Criámos uma equipa que é também uma família e isso é muito importante. Temos aqui parceiros praticamente desde o início. E há algumas pessoas, sobretudo jovens, que começaram aqui em Sines, aqui fizeram a sua formação e aqui estão agora a trabalhar nessas e noutras empresas de produção pelo país. Criámos também uma escola. Informal mas eficaz.

 

Este é o festival que queres ou é o festival que podes?

Este é um festival que foi criado em Sines, que Sines acolheu como seu e onde os artistas se sentem bem, um festival com características que não são de todo comerciais e, por isso, como serviço público, é o festival que nós ambicionámos.

 

E vês o futuro a continuar assim ou há espaço para evoluir?

O festival consolidou-se. Neste momento tem uma dimensão extraordinária, devido ao trabalho e à exigência de uma equipa e de uma cidade. O público vem de todos os lados, não só turistas, são pessoas de outros países que vêm expressamente para o festival. Acho que estamos no bom caminho e como se diz “numa equipa que ganha não se mexe”.

 

Relativamente à programação. Como é que procuras os artistas?

Viajo bastante. Devia viajar mais mas muitas vezes não é possível. Vou a feiras de música, a encontros profissionais. Também sou convidado a integrar painéis e conferências onde se discute aquilo que é e faz falta a este circuito de música, paralelo à grande indústria musical ao vivo, comercial. E é aí que eu vejo artistas a atuar, encontro-me com agentes e com todos os profissionais ligados ao meio e vou criando algumas bases de sustentabilidade na programação futura.

 

Há bandas feitas propositadamente para o circuito deste tipo de festival?

Não! A maioria dos artistas que nós apresentamos são famosos nos seus países e até fora dos seus países, nos seus continentes. Há sempre bandas que são fruto de encontros. Há grupos que são o resultado de uma história anterior. Também alguns profissionais, etnomusicólogos ou produtores de editoras fazem a sua pesquisa e tentam recriar o que é que é a essência de um determinado grupo extinto ou esquecido. Por exemplo, Maravillas do Mali, que é um grupo que existiu nos finais dos anos 60/70 e que não teve condições de continuidade e, mais tarde, um etnomusicólogo francês, Richard Minier, investigou o seu percurso, foi encontrar-se no Mali com o único sobrevivente dessa banda, Boncana Maïga, levou-o a Cuba, porque Maravillas do Mali tem a ver com Cuba (pode-se pesquisar online para saber melhor), e depois, com outros músicos, com outros instrumentistas, recriaram as célebres canções desse grupo. Outro caso, Havana Meets Kingston, é uma ligação de músicos de Cuba com músicos da Jamaica. Tudo se faz com a vontade de produtores, previsões de sucesso e residências artísticas. Mas isso faz parte da criatividade, faz parte do próprio conceito do que é a música, do que é que vão fazer de novo e, como em qualquer arte criativa, na música a renovação de estéticas, o apelo à novidade, são importantes e constantes. Um fervilhar enorme de criatividade musical que, de vez em quando, encontra músicos ou instrumentistas ou ideias que se juntam e criam um novo produto (sem preconceito pela palavra).

 

Tu és um oportunista? ?

Como assim?

 

Aproveitas as oportunidades de um artista de outro continente, que vai estar em tournée pela Europa, para o contratares?

É evidente que eu estou atento ao que se faz de novo na música, os músicos que neste momento estão a consolidar um novo projeto ou no início de um grande futuro. Ou têm um estilo ou forma de apresentar novas sonoridades. Eu ando sempre à procura da novidade e da qualidade.

 

Mas tens um orçamento.

Exatamente! É evidente que não posso pegar numa banda das Ilhas Salomão e trazê-los aqui para um concerto único. Há outra questão, lamentável, de uma Europa que neste momento em que já devia estar completamente aberta ao outro, se fechar em si própria e dificultar o circuito de músicos, sobretudo da Ásia, de África e dos países árabes e isso inviabiliza as digressões. E os festivais também. Neste momento, devido a uma grande concorrência e preconceito, estes músicos ou estas músicas não estão nos circuitos comerciais da rádio, das televisões e nas rotas de festivais e clubes como outros e, portanto, não têm a oportunidade de se mostrarem e, ao mesmo tempo, de serem mais conhecidos e de conquistarem mais público. É com esse intuito que os trazemos a Sines, com contenção naturalmente. Muitas vezes para concretizarmos a sua apresentação tentamos encontrar parceiros na Europa que possam também ajudar na sua vinda, ou seja, que possam partilhar despesas de vistos e voos.

 

E tu abordas outros programadores para trazeres um determinado grupo para a Europa?

Sim. Eu próprio entusiasmo outros programadores para que programem um determinado artista. E o contrário também acontece. Umas vezes resulta outras vezes não. Tentar minorar os custos, partilhá-los, é sempre bom e para os artistas também pois têm mais oportunidades de atuar ao vivo. Aqui em Sines muitos artistas vêm já integrados numa digressão europeia que os seus agentes e managers trabalham e realizam. Mas por vezes é difícil trazer aqueles músicos que gostaria e não consigo porque não há festivais na Europa, naquelas datas, que os queira programar. Temos de ser pacientes. Se não é este ano, será no próximo ou daqui a dois...

 

E programas bandas repetidas. Isso são amizades, é o público que pede, são as bandas que pedem? Como é que tu geres ou cedes a essas pressões? Porque tu não gostas que te façam sugestões.

Há uma grande vontade dos músicos voltarem e isso é-me transmitido pelos próprios ou pelos seus agentes ou gestores de carreira. Uma das razões é que, na sua primeira apresentação aqui em Sines, tiveram um grande impacto emocional e estético na audiência. Kimmo Pohjonen, por exemplo, veio aqui três vezes mas de cada vez trouxe projetos diferentes. Os artistas renovam a sua maneira de fazer música, encontram novos parceiros, novas cumplicidades, novas estéticas e percorrem o caminho da criatividade que eles entendem que devem percorrer. Estas circunstâncias fazem com que eles voltem no seu próprio nome mas com projetos diferentes. Há outros que, por exemplo, publicaram um novo disco e tiveram um enorme impacto nas audiências internacionais e eu trago-os outra vez. Este mundo da música está sempre em transformação, os músicos vão evoluindo e têm de se mostrar nessa sua evolução e nós temos de fazer com que os espetadores vejam os artistas que já tenham vindo mas com novas roupagens musicais ou com novas criações. É também isto e não só mostrar aquilo que nunca se mostrou. Há sempre alguém que vem cá duas, três ou quatro vezes. É o normal do próprio circuito da música e da própria identidade deste festival. Se nós acolhemos tantos artistas de diferentes nacionalidades, de diferentes povos, de diferentes estéticas e, se sabe bem ao artista voltar e ao público assistir, é natural que haja uma vontade enorme de nos revermos.

 

Mas tu não tocaste aí num ponto que é a maneira como tu acolhes os artistas que é muito especial. Todos te dão um forte abraço. Há muita ternura. Há mais razões para os artistas regressarem, não é?

É verdade. Porque há uma relação muito forte. A música faz-se também com amor. Há uma parte emocional nestes encontros aqui em Sines. Há encontros de músicos com outros profissionais que se conhecem e isso leva a que haja todo um processo que não é só técnico, não é só de programação, é sentir esse pulsar das amizades e das emoções.

 

Também a maneira como os jornalistas são acolhidos é pouco vulgar.

Há o departamento de comunicação da CMS que tem a cargo esse acolhimento que é de grande qualidade. Porque nós gostamos que os outros profissionais também se sintam bem, não só os artistas. Há todo um processo logístico de uma equipa vasta que começa pelos artistas mas que passa pelos técnicos e naturalmente pelos jornalistas e outros profissionais. Todos são, e merecem sê-lo, tão bem acolhidos como os artistas.

 

E sendo um festival de serviço público e com dinheiros públicos mais uma razão para não se descorar esse ponto de tratar bem as pessoas.

Eu tenho a certeza que sim. Mas o dinheiro público já não é assim tanto. Tudo isto já não é assim tão pesado para a CMS devido ao sucesso do festival. Mas é evidente que a CMS tem essa responsabilidade. 

 

Tu és sádico?

Porquê? ?

 

Há concertos programados para depois da cinco da manhã. Todas as bandas do FMM Sines são boas. Tu gostas de ver o pessoal a sofrer, a aguentar a noite para conseguir assistir aos espetáculos até ao fim?

 ? Numa paisagem destas acho que os visitantes de Sines merecem um bom dia de praia, um bom peixe grelhado e usufruírem de toda esta natureza, de todo este encanto. E terem tempo para a música.

 

Mas se se deitam já de dia...

E então? Dormem até ao meio-dia e ainda têm tempo para usufruírem disso ?. Mas sobretudo há aqui uma questão muito importante e que também é única no circuito dos festivais, que é não haver um concerto a acontecer ao mesmo tempo de outro e isto é um dos fatores fundamentais para que um amante de música possa ter a oportunidade de os ver a todos. Poderíamos reduzir um pouco mais o tempo de atuação mas seria frustrante para o artista, seja um artista novo, seja um artista com uma carreira internacional longa e que tem já um repertório enorme e que gosta de o mostrar. Para nós é importante o respeito pelo artista e que ele tenha a oportunidade de mostrar, com um tempo razoável, o que é que ele está a fazer. Por outro lado, que ele tenha também a possibilidade de ter uma audiência a maior possível. Depois o público também deve ter a possibilidade de ver o artista no seu todo. O artista e a sua obra, o público e a sua curiosidade e o usufruto do património e a alegria contagiante de todos. Acho que estas componentes se conjugam para que haja essa “enormidade” de começar um concerto a partir das cinco da manhã. Mas o tão tarde é relativo. Ainda ontem, madrugada de hoje, eram milhares de pessoas ali a assistir aos concertos. São jovens, nem todos, mas muitos com vontade de serem felizes e de verem coisas novas, de verem novos artistas, novas propostas. Também não há assim tantas pessoas que se queixem. E ao fim ao cabo são só quatro dias em que se faz esse “disparate”.

 

Outra coisa que se nota neste festival é uma certa tranquilidade. O FMM Sines é um festival pacífico.

É. É um festival pacífico por aquilo que falávamos há pouco que faz com que isso aconteça. Para já porque as pessoas que vêm são pessoas que se interessam pela música e por este tipo de música que é um pouco diferente daquela que normalmente acontece nos circuitos comerciais. Depois, esta sequência de concertos, esta vontade de que as pessoas não só assistam mas também se encontrem, conversem entre si, criem novas amizades, encontrem velhos amigos que por vezes só aqui, uma vez por ano, encontram. Acho que a própria singularidade deste conjunto de pormenores faz com que haja essa paz, essa vontade de estar em sintonia com o outro, de uma maneira fraterna e entusiasta de se encontrarem e usufruírem da festa comum. E tudo isso se conjuga para que não haja violência, não haja confusão. Em vinte anos nunca houve um caso grave.

 

Apesar de estarem aqui milhares de pessoas, mesmo dentro das paredes do castelo, está-se bem. Não há grandes apertos. Há respeito pelo outro.

É isso. Há um grande respeito não só pelo artista mas também pelo outro que está ao lado. É essa a tolerância, conhecer o outro e respeitar o outro. Isso é fundamental.

 

E tens algum receio que os tempos modernos possam corromper um pouco isso?

Nunca se sabe o que a vida nos espera. Em 20 anos conjugámos entre artistas público e a comunidade local uma relação de confiança. Todos nós confiamos uns nos outros. Acho que é isso. O artista sente-se bem, o público também e a comunidade acolhe-os bem. Já se confia no mundo que vem a Sines. É o resultado, é o nosso objetivo. Que as pessoas sejam tolerantes mas que também estejam atentas às dificuldades e aos perigos que o mundo neste momento atravessa. Mas há aqui uma generosidade enorme entre todos, um bem-estar e uma confiança que faz com que este festival seja pacífico.

 

Outra coisa que se repara é a ausência de telemóveis no ar.

Mais uma vez tudo isto se conjuga. As pessoas sabem que isso não é a melhor maneira de se ver um concerto. Um concerto é para se fruir naquilo que tem de bom e de belo, a mensagem do artista não só a nível musical mas também naquilo que ele expressa enquanto mensageiro porque um músico também tem opinião. Passam a mensagem que todos nós entendemos e queremos, acabar com as injustiças, com os casos mais graves de intolerância para com os outros. Desde os africanos, aos asiáticos, aos árabes, aos norte e aos sul-americanos, todos eles sabem que aqui são respeitados e que têm ali à frente um público que os olha de igual para igual. Essa é a grande mensagem e também um dos grandes objetivos e uma das grandes obrigações de um festival ou de um evento cultural consistente e coerente. Como alguém dizia “a música não transforma o mundo mas torna-o melhor”.

 

E isso tudo, aqui, é fruto do acaso ou é propositado? Como é que isso se consegue?

Quando os objetivos são bons e a mensagem é clara, tudo se encaminha para que não haja desvios. E é isso. É sobretudo mostrar, neste caso a música, que a arte tem um valor incalculável na vida de todos. Que vivamos em paz no respeito mútuo, em liberdade, e que estejamos também atentos às dificuldades e às injustiças. E elas existem!

 

Queres falar de ti?

Não. Eu sou o Carlos Seixas.

 

E quem é o Carlos Seixas?

Sou uma pessoa pacífica atenta e com um grande amor por aquilo que faço. Sou isso, mais nada.

 

Mas não serás tu, porventura, a pessoa que mais conhece, a pessoa mais informada deste tipo de música em Portugal e que influenciou o surgimento de outros festivais no país? Tens essa consciência?

Isso não sei e não é exatamente isso que eu pretendo. O que eu pretendo é fazer um trabalho honesto, um trabalho cujo esforço é depois recompensado com aquilo que nós vemos aqui em Sines que é um festival que se encontrou desde há muito, que concilia e respeita a diversidade cultural e que continua a marcar positivamente aquilo que se faz no verão neste país. É isso!

 

Visite online a página oficial do Festival Músicas do Mundo de Sines www.fmmsines.pt, lá encontra tudo sobre o FMM Sines.

 

Veja também este texto de Rê Sherman

 

entrevista por Pedro Pinto Leite

fotografias de Sofia Costa/FMM