FESTIVAIS

Gentileza gera sim gentileza

por Rê Sherman* - texto em português do Brasil

FOTOGRAFIA: Sofia Costa/FMM
2018-10-15
Por que o ambiente do FMM é tão diferente?

Ela notou um pedaço de chão livre e privilegiado ao lado do palco. Ao mesmo tempo, um rapaz arregalou os olhos para a mesma e rara clareira que tinha se formado. Moveram-se, sem tomar consciência um do outro, em direção ao espaço. Ela sabia que se ele quisesse, ela não teria a menor chance de ficar com o lugar. Entretanto, ao invés de fincar o pé e crescer o ombro para marcar o seu território, o tal rapaz gentilmente deu um passo para trás e fez um gesto sugerindo que ela ficasse com a pequena clareira com vista para o baterista. Motivada pelo seu gesto, ela ofereceu a ele o espaço privilegiado. Por uns instantes ela pensou que, diante tal impasse, alguém seria mais “esperto” e tomaria para si o lugar. Não aconteceu. Trocaram mais algumas gentilezas e por fim, e com consentimento da moça, o rapaz ocupou a clareira. Em menos de um minuto, ele se virou para ela e perguntou “Is that really ok?”. Ela assentiu e ele completou “Just to be sure”. E seguiram ouvindo a música, próximos, sorrindo, com uma vibração positiva os conectando.

 

A história é real e aconteceu comigo durante o Festival de Músicas do Mundo de Sines (FMM). Não sou fã de Festivais. Não tenho tanta paciência para multidões histéricas, para ser constantemente empurrada e esmagada, para lutar por comida e bebida em longas filas de bar, para ser assediada e apalpada por homens que não se revelam. Entretanto, adoro vir a este Festival. Ele é diferente. E não só pela tão comentada excelência da curadoria do Festival. É pelo ambiente que se cria em torno do evento.

 

No mesmo dia da história que contei acima, fui ao bar pedir uma bebida. Não havia filas organizadas e um grande grupo de pessoas estava reunido em torno do bar. Eu estava sozinha, não sou grande, pensei que nunca fosse conseguir chamar a atenção do barman. Então, um deles dirigiu-se a um grupo de raparigas para tirar o pedido mas elas não aceitaram: eu havia chegado antes.

 

Comecei a prestar mais atenção na atitude das pessoas, no ambiente e, principalmente, em situações que podiam gerar conflito como uma roda de samba que se formou numa rua apertada, impedindo a passagem tranquila dos carros que já sofriam com a circulação reduzida em toda a cidade. A cada carro que chegava, eu me preparava para uma buzina alta, seguida de troca de insultos, o carro arrancando, pessoas machucadas… Traumas de quem cresceu em São Paulo! Mas não era isso que acontecia. O primeiro que notava o carro acenava com a cabeça para o motorista, apontava o carro para a pessoa do lado, começava a se deslocar para um canto, avisava o próximo e, em pouco mais de um minuto, o carro estava livre para passar entre diversos acenos de mão como pedidos de desculpa pelo incômodo que o motorista retribuía da mesma forma.

 

Aliás, desculpa, sorry, pardon, excuse, entschuldigung e outras formas de pedir desculpa em diversos idiomas era a palavra que eu mais ouvia em diferentes pontos do evento, normalmente seguida de um contra pedido de desculpa honesto, um sorriso sincero e até um momento de amizade efêmera porém intensa e cortês.

 

É surpreendente o nível de gentileza generalizada durante o Festival. Não vi brigas ou confusões, não senti muitos empurrões, notei que mulheres, idosos e mães com crianças no colo circulavam à vontade - eu mesma circulei várias vezes sozinha sem nunca me sentir insegura, assediada ou desconfortável - e, mesmo em shows mais lotados, meu espaço pessoal estava reservado.

 

Comecei a me perguntar “Por que o FMM é um evento em que impera a gentileza?”. Levantei algumas hipóteses:

 

O primeiro dado importante que me veio à cabeça e que nem todo mundo sabe é: O FMM é um Festival organizado pela Câmara de Sines. Não há uma produtora por trás, não há o objetivo de lucro imediato. Ora, quando se retira o fator económico da equação o que sobra é um desejo real de promoção da cultura e da promoção da melhor experiência possível para o público. E isso é percebido logo por quem decide acompanhar o Festival, já que a grande maioria dos concertos são gratuitos e aqueles que têm um custo de entrada são transmitidos em grandes ecrãs e em tempo real em espaços públicos. O público percebe o interesse da organização em fazer com que todos tenham acesso ao Programa e, de uma certa forma, retribuiu com uma resposta silenciosa de gratidão. Gentileza que gera gentileza.

 

Os comerciantes da cidade são envolvidos e beneficiam-se do evento. Bandas e equipes são hospedados nos hotéis e alojamentos da região e alimentam-se nos restaurantes das cidades. E, como o evento é descentralizado, não há um monopólio de venda de produtos e alimentos e o público pode circular livremente - podem, inclusive, sair dos espaços fechados de shows para consumir bebidas e comida e depois retornar - os bares, restaurantes e outros tipos de comércio são estimulados a prepararem-se para o aumento substancial de clientes e, portanto, de resultados neste período. Eles abraçam o evento e o público realmente percebe a simpatia e gentileza ao serem atendidos. Gentileza que gera gentileza que gera gentileza.

 

A equipe de produção central do evento é formada por funcionários da Câmara que não são especialistas nem profissionais da área de produção de eventos. E o que se nota é uma produção mais humanizada, menos burocrática e rígida e mais gentil tanto na relação com os músicos quanto na busca por soluções que aumentam o bem-estar do público como a disponibilização de um espaço de camping temporário e gratuito e de tendas gratuitas para os menos precavidos, a organização de transportes gratuitos até os palcos do evento, os espaços com locais sentados para quem está cansado ou não pode estar de pé, entre outras ações. Se a organização é gentil, a o público torna-se gentil.

 

Outra ideia que me vem à cabeça sobre o ambiente tranquilo do Festival, está relacionada com o respeito às bandas e ao público que quer poder usufruir de todo o Programa do evento: não há 2 apresentações ao mesmo tempo em palcos diferentes. E a presença de patrocinadores é discreta e ninguém se sente “sufocado” e irritado com a ação constante de marcas como as rodas gigantes, promoções, distribuição de brindes, etc. Ouvir e experimentar música é mesmo o foco.

 

Durante o festival, vê-se pouca polícia, quase nenhum cordão de isolamento para fins de contenção de público, nenhuma regra arbitrária. O público não se sente acuado, vigiado ou oprimido e o ambiente torna-se mais pacífico.

 

E há uma liberdade contagiante para se expressar, desde que o respeito ao próximo seja preservado. E é grande e diversa a quantidade de bandas e outros grupos artísticos apresentando-se espontaneamente na rua, sem que haja sobreposição das manifestações.

 

Por fim, surge-me um pensamento utópico: não será essa a fórmula para um mundo mais justo e gentil? Redução dos poderes económicos centralizados, distribuição dos meios de produção, bem-estar ao povo, gestão humanizada e menos burocrática, circulação livre, fim das forças de segurança intimidadoras, liberdade de expressão e muita música.

 

* Rê Schermann, nasceu no Rio de Janeiro, cresceu em São Paulo e vive em Portugal. É publicitária, trabalha na área da cultura e escreve nos tempos livres.

 

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