DE QUEM É O OLHAR

“Europa! Coração da Escuridão”

A Europa continua a viver à custa dos países do “terceiro mundo” pelas relações comerciais injustas

2018-10-15
Vivemos numa altura em que o turbo-capitalismo enfrenta cada vez mais problemas que afectam boa parte das populações, espalhando o medo de perder aquilo a que se está habituado

"Eropa! Coração da Escuridão" é o título dum discurso que Christoph Ransmayr, escritor austríaco, fez durante a cerimónia em que lhe foi atribuído um prémio literário. Partindo duma viagem que fez na região fronteiriça entre Uganda, Ruanda e Congo chegou a reflexões sobre o papel da Europa ao longo da história do continente africano bem como dos outros continentes. Disse: “A verdadeira crónica deste continente deveria ainda ser escrita. Não é assim que a história de África, pelo menos a história mais recente, foi sempre também uma história da Europa? Da mesma forma que as histórias da Ásia… e de ambas as Américas… foram sempre uma história do aparecimento europeu, uma história de conquista, exploração, escravatura e genocídio.”… “Sem os minerais e as terras raras ali extraídas, sem as minas de ouro, prata e diamantes e os inúmeros recursos naturais, sem as colheitas ali feitas, sem a mão-de-obra de milhões de escravos e trabalhadores mal pagos, a Europa, até ao dia de hoje, ainda não seria este paraíso desejado e admirado pelos milhões de refugiados que vêm dos campos de batalha de guerras pelos quais os europeus são co-responsáveis e de áreas de miséria e seca extrema. A Europa nunca pagou as facturas das suas razias cometidas em todos os continentes desta terra.”

 

Antes pelo contrário. A Europa, ou seja, nós continuamos a viver à custa dos países do “terceiro mundo” pelas relações comerciais injustas, pela exportação para lá da nossa sobreprodução alimentar e têxtil que vai destruindo os mercados internos dos respectivos países, pelo descarte dos resíduos tóxicos que estão a contaminar regiões e gerações inteiras, pela apropriação de terrenos agrícolas para produção alimentar industrial, destruindo a base dos rendimentos dos pequenos agricultores e o abastecimento regional e/ou as florestas virgens. Uma mudança radical em relação a todas estas injustiças já seria meio caminho andado na direcção do combate aos factores que dão origem a que as pessoas se tornem refugiados.

 

E como recebemos aqueles que tentam escapar às condições miseráveis que nós “ajudamos” a criar? Há três anos, quando o fluxo das pessoas que fugiram da guerra na Síria fez crescer significativamente o número total dos refugiados que tentaram chegar à Europa, quando estas pessoas se tornaram mais visíveis, leu-se muito sobre o seu sofrimento e de como foram recebidas nos diferentes países. Muita gente ofereceu apoio, roupa, comida, dinheiro, trabalho voluntário – surgiu uma vaga de empatia, estava-se a falar duma cultura das boas-vindas.

 

Só que… vivemos numa altura em que o turbo-capitalismo enfrenta cada vez mais problemas que afectam boa parte das populações, espalhando o medo de perder aquilo a que se está habituado. Uma altura em que os políticos se interessam apenas pelo número dos votos e pelas suas carreiras. É a hora dos populistas e da extrema-direita que se aproveitam do medo difuso da população. Em vários países europeus estes partidos já fazem parte do governo, noutros os governantes “moderados” assumem as suas ideias com medo de perder as eleições. Assim, em vez da empatia são o racismo e a xenofobia que começaram a pairar sobre a Europa. As medidas tomadas pela UE ou por determinados países são vergonhosas: tornar a fronteira exterior da UE “estanque”, fazer protocolos com países que não respeitam os direitos humanos, pagando milhares de milhões de euros a ditadores, criminalizar a ajuda humanitária, entregar os refugiados salvos no Mediterrâneo ao inferno da Líbia, criminalizar o trabalho de salvamento das ONG. Só este ano já morreram 1500 pessoas no Mediterrâneo (números oficiais), no Saara devem ser mais ainda. A cultura das boas-vindas já não existe.

 

Christoph Ransmayr: “Europa. Que utopia linda e encantadora: um continente de povos pacíficos onde se misturam culturas diferentes, sem fronteiras, sem guerras, sem a praga do nacionalismo e da loucura racista. Este sonho continua a ser tão entusiasmante – mas foi destruído pela fraqueza mental e pela ganância das elites a governar e dos seus eleitores.”

 

Monika Dresing